15/09/2007
"A curiosidade me espicaçava"
Manel Serras Em Spa
As versões sobre a história de espionagem da McLaren contra a Ferrari circularam nos últimos meses com uma fluidez incomum. Muitas vezes também com imprecisões. No entanto, desde que Mike Coughlan fez um depoimento juramentado diante do Tribunal de Londres para evitar ser imputado em um processo aberto pela escuderia italiana, todo mundo tentou saber os detalhes da mesma, a base da acusação feita pela Federação Internacional de Automobilismo contra a McLaren. Na quinta-feira, o website da revista "Autosport" divulgou, com muitos detalhes e manifestações do próprio envolvido, o que disse Coughlan.
Sua história é presumivelmente a verdadeira. E Coughlan é direto. Inicia seu relato explicando sua relação com Nigel Stepney, projetista da Ferrari: "Não é um grande amigo meu. Tínhamos interesses comuns pelas coisas da Fórmula 1 e mantivemos uma boa relação ao longo dos anos". Depois lamenta profundamente que suas declarações e atos tenham prejudicado sua equipe, a McLaren Mercedes.
 | | | Conselho da FIA se reúne para discutir o caso de espionagem na Fórmula 1 |
"Stepney me telefonou pela primeira vez em cinco anos, em março passado", explica o engenheiro britânico. No primeiro contato, o projetista da Ferrari só lhe explicou que não estava satisfeito com o rumo que sua carreira tomava e que não aceitava que tivessem promovido Mario Almondo em vez dele na estrutura da equipe. Nada mais. Até meados de março não houve o primeiro ato de espionagem. "Nos telefonamos e trocamos alguns e-mails, mas só nos vimos três vezes desde então, até que o assunto estourou", revela Coughlan.
A seqüência segundo a qual ocorreram os contatos é detalhada na informação da "Autosport". A primeira comunicação técnica entre os dois homens ocorreu em março e se relacionou a aspectos do carro da Ferrari que poderiam se chocar com a regulamentação da F1. "Ele me mandou por e-mail detalhes do piso flexível ao meu endereço de trabalho na McLaren", diz Coughlan. "Eu o comuniquei a Martin Witmarsh [diretor-geral da McLaren] e ele me disse que falasse com Paddy Lowe [diretor de engenharia]." Stepney também passou informação relativa ao separador do aileron traseiro da Ferrari. As duas peças foram proibidas depois que a McLaren pediu autorização para utilizá-las porque a Ferrari já as tinha, uma forma sutil de denunciar irregularidades técnicas de seus rivais.
Em abril de 2007 Coughlan não se sentia à vontade com a situação e o comunicou a Stepney. Jonathan Neale, coordenador da equipe, colocou um "firewall" no computador de Coughlan para que não pudesse mais receber informações de Stepney. Isso aconteceu em abril. E no dia 28 desse mês os dois técnicos envolvidos se reuniram e jantaram em um restaurante de Castelldefels. "Falamos sobre o funcionamento do disco de freio traseiro das Ferrari, mas foi uma conversa típica entre engenheiros", indica Coughlan. No entanto, Stepney lhe fez um croquis de seu funcionamento. "Vi que não se adaptava à realidade porque tinha visto fotos de sua configuração na McLaren", confessou o britânico. Afinal, Coughlan disse a Stepney que não lhe mandasse mais informações, que aquilo devia acabar imediatamente.
No trajeto para o aeroporto, Stepney lhe entregou o dossiê confidencial de 780 páginas com todos os detalhes da Ferrari. "Dê uma olhada", comentou Stepney. E Coughlan o fez durante a viagem e depois o levou para sua casa. "A curiosidade técnica me espicaçava."
Foram jantar outra vez na Grã-Bretanha e Stepney ofereceu novos planos dos freios traseiros. "Eu não disse a ninguém", afirma Coughlan. A última reunião entre os dois ocorreu em 1º de junho. Encontraram-se no aeroporto de Heathrow com Nick Fry e Stepney se ofereceu para trabalhar na Honda na próxima temporada. Coughlan falou dessa possibilidade também, mas mais adiante.
A história acaba aí. Pouco antes que o escândalo estourasse, porque a mulher de Coughlan foi a uma loja próxima de Woking para escanear o dossiê da Ferrari e o proprietário comunicou ao pessoal de Maranello. Mas o engenheiro esclarece algumas coisas: Witmarsh só viu o e-mail de Stepney sobre o piso flexível e o aileron traseiro; Lowe só teve acesso às primeiras informações; Neale colocou o "firewall" no seu computador e viu alguns desenhos de Stepney; Taylor viu croquis sobre os freios traseiros por interesse profissional, porque ele os havia desenhado de forma semelhante dez anos atrás. O resto, em todo caso, será descoberto pela Ferrari, os juízes ou a FIA.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
|
|