30/10/2007
Cristina Kirchner toma o controle absoluto da política argentina
Fernando Gualdoni e Jorge Marirrodriga
Em Buenos Aires
A vitória de Cristina Fernández de Kirchner nas eleições de domingo na Argentina dá à presidente peronista o controle absoluto da política deste país. Cristina terá maioria no Congresso e no Senado, o respaldo da maioria das 24 províncias, especialmente a poderosa Buenos Aires, e o apoio de quase todos os prefeitos dos subúrbios da capital com maior número de votos e poder de mobilização. A situação de força de Cristina Kirchner, que ganhou com quase 45% dos votos e com uma vantagem de mais de 20 pontos contra sua adversária imediata, a centro-esquerdista Elisa Carrió, é a mais clara desde os tempos do ex-presidente Carlos Menem, no início dos anos 1990.
A eleição de Cristina, além de se consagrar como a primeira mulher que chega à Presidência da Argentina por meio das urnas, dá novos ares aos peronistas, que chegaram a estas últimas eleições divididos e confrontados. Com o mandato de Cristina, que deverá durar até 2011, o peronismo terá se mantido no poder na Argentina desde 1989 com uma pequena interrupção de dois anos, entre 2000 e 2002, em que Fernando de la Rúa governou como líder da Frepaso (Frente País Solidário), uma coalizão de centro-esquerda que acabou expulsa do comando pela crise do "corralito" no final de 2001, uma das piores da história do país.
 | | | A presidente eleita Cristina Kirchner saúda seus eleitores em Buenos Aires |
Em seu primeiro discurso como presidente eleita na madrugada de ontem, em um hotel no centro de Buenos Aires, Cristina estendeu a mão a todos os seus rivais para acompanhá-la em sua gestão. "Sem rancores, o ódio não constrói, ao contrário, destrói tudo", disse diante de seus seguidores, que não paravam de cantar uma marcha da Juventude Peronista (JP), à qual ela e seu marido, o atual presidente, Néstor Kirchner, pertenceram nos anos 1970. "A cantam porque sabem que me toca", ela confessou, visivelmente emocionada. O reconhecimento da JP é muito simbólico porque separa o casal Kirchner da velha guarda do peronismo representada pelos ex-presidentes Menem e Eduardo Duhalde, hoje inimigos do casal.
Néstor Kirchner nunca se interessou por representar um partido peronista único, foi muito pragmático e construiu uma rede de aliados, peronistas ou não, para reforçar seu poder. Cristina seguirá a trilha de seu marido, em uma gestão "sem cor política", como ela disse depois de conhecer o resultado. Na verdade, o vice-presidente eleito, Julio Cobos, é um radical, ex-membro da rival histórica do peronismo, a União Cívica Radical (UCR). Faltando o resultado definitivo em algumas das oito províncias onde houve eleições no domingo, o kirchnerismo acabará mantendo seu domínio em dois terços das províncias. Os Kirchner conseguiram que seu candidato ganhasse na província de Santa Cruz, na Patagônia, fato importante para a imagem do casal, e sobretudo obtiveram uma grande vitória na província de Buenos Aires, pelas mãos de Daniel Scioli, atual vice-presidente da República, cujo desafio será conter a escalada do crime na região.
A tarefa primordial de Cristina em curto prazo é conter a inflação, tentar reduzir a política de subsídios que esvazia os cofres do Estado e construir uma economia atraente para os investidores. Prevê-se que para isso contará com homens chaves ou com boa imagem da equipe de seu marido, como o chefe de Gabinete Alberto Fernández e os ministros das Relações Exteriores, Jorge Taiana, e da Economia, Miguel Peirano. Sua cunhada, Alícia Kirchner, provavelmente continuará à frente do Ministério do Desenvolvimento Social, uma pasta chave para manter os planos de ajuda pública a pessoas, setores produtivos e sindicatos que tanta popularidade deram aos Kirchner.
Segundo fontes do Ministério da Economia, é muito provável que Cristina tenha usado uma linguagem da conciliação em seu primeiro discurso porque quer "estender pontes" às empresas -seu marido manteve um constante confronto com os empresários- para conseguir o investimento que dá novo impulso ao crescimento econômico, hoje dependente quase exclusivamente das exportações de matérias-primas, em especial de cereais e oleaginosas. Esse investimento também é necessário para conter a inflação, porque a demanda cresceu muito e a oferta insuficiente pressiona os preços. O novo plano econômico, além do investimento, inclui a "reconciliação" com os organismos internacionais de crédito, como o FMI e o Clube de Paris.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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