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30/10/2007
"Um dia peronista, companheiro"

Fernando Gualdoni
Enviado especial a Buenos Aires


"Vá à m..., 'che'. Sua avó é que vai passar o dia todo aqui", espetou Olga Fernández quando a autoridade eleitoral de uma escola do bairro de Flores, na capital argentina, lhe ordenou que fosse a fiscal de mesa por falta do titular. Em outro colégio, José Castro teve menos caráter e sorte: foi o primeiro a chegar para votar e, como manda a lei, o obrigaram a se encarregar da presidência da mesa de votação. "Além de ser obrigatório votar, me estragaram todo o domingo", lamentou. "Tranqüilo, companheiro, que é um dia peronista", disse um homem que escutou José se queixar. O eleitor não dava por certa a vitória de Cristina Fernández de Kirchner, mas se referia a um ditado que vem da época em que Juan Domingo Perón governava o país, há meio século: um dia peronista é uma jornada com sol e céu claro, como a bandeira argentina. No último domingo, porém, havia algumas nuvens.

Daniel Garcia/AFP 
Mulheres fazem fila para votar em escola pública na Argentina

O entusiasmo democrático não se destacou na jornada eleitoral em Buenos Aires, apesar de as eleições estarem destinadas a marcar três feitos históricos: era a primeira vez que duas mulheres disputavam o poder -Cristina Kirchner e a candidata de centro-esquerda Elisa Carrió-, a vencedora seria a primeira presidente argentina eleita pelas urnas, e no caso de Cristina seria a primeira vez na história mundial que um presidente poderia passar o comando a sua mulher em eleições democráticas. No entanto, apesar dos simbolismos, um dia antes das eleições faltava cobrir um terço das quase 6 mil mesas eleitorais da capital, o que provocou demora na abertura das urnas.

À medida que a jornada avançou os problemas continuaram. Entre fiscais de mesa obrigados e voluntários, as urnas para homens e para mulheres -são separadas- se encheram de votos não sem que surgissem as brincadeiras eleitorais que caracterizam as eleições na Argentina. Em um dos distritos da província de Buenos Aires vizinhos à capital federal, Teresa Sarmiento, uma índia toba que chegou há muitos anos da província do Chaco, foi vítima da "planchadita", um truque que consiste em roubar todas as listas dos adversários. Quando o eleitor entra na cabine e vê que a lista em que quer votar não está lá, não pode sair e dizer o nome de seu candidato porque automaticamente o voto é impugnado pela mesa.

Ramos Mejía, pertencente ao reduto peronista do distrito de La Matanza, é eleitoralmente o mais importante do país. Ali vivem cerca de 1,3 milhão de pessoas, 10% do censo de toda a província de Buenos Aires. O caudal de votos desse distrito a sudoeste da capital equivale ao de quatro grandes províncias argentinas, e é por isso que Cristina Kirchner encerrou sua campanha nesse lugar.

Apesar de a Argentina ter sofrido uma sangrenta guerra interna no século 19 para ser uma república federal, o país é centralista e todo o poder político e econômico está concentrado em Buenos Aires. Desde as duas presidências de Carlos Menem (1989-1999), o governo central vem acentuando seu domínio sobre as províncias através do controle das receitas públicas e da distribuição de verbas federais.

A capital federal e a Grande Buenos Aires, a zona metropolitana vizinha ao coração do Executivo nacional, são o motor financeiro e industrial do país, enquanto o resto da província possui as melhores terras de cultivo. O acúmulo da riqueza, somado a sucessivas crises, empurrou as pessoas a buscar a vida na província de Buenos Aires, que tem o segundo maior orçamento do país e contribui com quase 40% das exportações. Dos 27 milhões de eleitores, 40% votam em território portenho.

Ali, em Ramos Mejía, jovens peronistas com seus tambores esquentaram os motores desde a primeira hora para festejar a vitória: "Perón, Perón, como você é grande..." Tinham cara de poucos amigos, por isso não era aconselhável descer do carro para lhes pedir que interpretassem algo mais moderno, talvez com "Cristina" como tema central. Vestidos com a camisa azul e branca e carregando o bumbo, os dois amores desses rapazes eram evidentes: a seleção argentina de futebol e a aspirante peronista à presidência, Cristina Fernández de Kirchner.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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