23/11/2007
Venezuela é parceiro cada vez mais incômodo
Fernando Gualdoni
Em Madri
Ninguém mais quer falar sobre o "Por qué no te callas?" que o rei Juan Carlos da Espanha disparou contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, na recente Cúpula Ibero-Americana de Santiago do Chile. Há um certo tédio nas delegações, que vêem que a cada ano o que chega à opinião pública não é o que se debate nem o que se decide, mas o que Chávez vai dizer ou não, ou com quem vai se chocar dessa vez. E todo espetáculo que se repete acaba cansando.
O bate-boca da cúpula de Santiago deixou a maioria dos presidentes latino-americanos especialmente incomodados. "Foi a reunião que deu melhores resultados e na qual estes ficaram mais ocultos", disse com tristeza o ministro das Relações Exteriores peruano, José Antonio García Belaúnde. Ele se referia sobretudo ao convênio ibero-americano da Seguridade Social, que permitirá que mais de 5 milhões de migrantes se aposentem em qualquer país signatário do convênio, e a constituição do Fundo da Água, dotado de mais de 1 bilhão de euros para os primeiros quatro anos. Tudo isso acabou em segundo plano depois da intervenção de Chávez e a resposta do rei.
O cansaço começa a ser notado até nos aliados de Chávez na região. Evo Morales continua muito próximo de Chávez, ainda recebe os cheques do Tesouro venezuelano que distribui entre os prefeitos partidários, assim como o nicaragüense Daniel Ortega. Mas na imagem da cúpula em que se vê o rei perdendo a paciência Morales aparece ao fundo petrificado, como que alheio a tudo.
Mais evidente foi o afastamento do presidente do Equador, Rafael Correa, que não só não fez qualquer comentário a favor de seu homólogo venezuelano como também não apareceu na cúpula paralela orquestrada por Chávez na capital chilena. "Não me surpreende", explica um importante empresário equatoriano. "Há algum tempo, quando me reuni com ele, perguntei: 'Presidente, por que Chávez veio tantas vezes ao Equador?' Correa me respondeu: 'Eu só o convidei uma vez'."
O presidente equatoriano é pragmático e se orgulha disso: "No meu governo há gente muito preparada e somos muito pragmáticos, não se confundam", disse recentemente, referindo-se a como conjugará o crescente poder do Estado na economia com a participação das empresas privadas, nacionais ou estrangeiras.
No entanto, Correa é um aprendiz de pragmatismo político, comparado com o da presidente eleita argentina, a peronista Cristina Kirchner. "Chávez é tão necessário para a América do Sul quanto Putin para a Europa" e "a Argentina e a Venezuela não têm por que compartilhar os mesmos amigos" são duas frases de Cristina. A primeira implica que, se a Venezuela tem petróleo e dinheiro, por que não estar de bem com esse país? A segunda frase se refere a que, por um lado, a Argentina está disposta a promover a entrada de Caracas no Mercosul, mas por outro ataca o Irã, um íntimo aliado venezuelano, para contentar os EUA.
"As relações diplomáticas da Venezuela são qualquer coisa menos respeitosas com as normas internacionais", escreveu o ex-presidente boliviano Jorge Quiroga. "Chávez fala de imperialismo, mas quer arrebanhar a todos nós." As acusações de ingerência surgem em todos os processos eleitorais do continente, do México ao Peru, passando por El Salvador ou Nicarágua, e os confrontos verbais se sucedem.
O mais recente foi com o ministro das Relações Exteriores chileno, Alejandro Foxley. Cansado das críticas de Chávez, no último domingo o chanceler desafiou o líder venezuelano a comparar os processos no Chile e na Venezuela. "Construímos uma sociedade mais solidária, com meios de comunicação e com uma oposição forte que podem dizer o que pensam", disse Foxley.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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