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18/12/2007
O século curvo de Oscar Niemeyer

Anatxu Zabalbeascoa
Em Madri


Ele odeia o ângulo reto tanto quanto o capitalismo. Oscar Niemeyer, que completou 100 anos no último sábado (15/12), é um comunista convicto e um arquiteto atípico: nunca pensou que a arquitetura pudesse mudar o mundo. "Para mudar a vida dos pobres é preciso sair à rua e protestar", afirma. Nos últimos dias, a cobertura com vista para a praia de Copacabana da qual ele defende os deserdados viu circular o embaixador russo, que lhe levou a condecoração da união dos povos, o presidente Lula, que lhe entregou a Medalha do Mérito cultural, e um enviado do presidente francês, Nicolas Sarkozy, que lhe conferiu a Legião de Honra.

Artífice da cidade de Brasília, poucos criadores têm uma obra tão capaz de representar o espírito de seu país, e menos ainda mantêm inquebrantável um perfil tão obcecado. Niemeyer não foi receber o Pritzker que lhe deram em 1988. Nem o Príncipe de Astúrias no ano seguinte. Tem medo de voar. Pode parecer uma anedota, mas é um traço de personalidade em alguém que durante anos, para construir a capital do país, percorreu de carro os mais de mil quilômetros que separam Brasília do Rio de Janeiro, onde vive.

VIDA E TRABALHOS
Reuters
Catedral de Brasília é um dos trabalhos de Oscar Niemeyer
ESPECIAL NIEMEYER 100 ANOS
AVÔ DA ARQUITETURA
NYT CRITICA
Do terraço do apartamento, Niemeyer estende a vista para as curvas das banhistas e as das montanhas, que depois leva para seus desenhos. De frente para o mar, além do Pão de Açúcar, pode ver o disco voador de seu museu em Niterói. E na mesma cidade, mas muitas estações de metrô terra adentro, estão seus monumentos aos operários grevistas e aos agricultores sem-terra.

Niemeyer era um carioca desocupado e boêmio que decidiu estudar quando, aos 21 anos, se casou com Anita, uma imigrante italiana com a qual compartilharia sucessos, o exílio e uma filha. Ainda estudante, conheceu Le Corbusier e Lucio Costa, o urbanista que chamaria para desenhar Brasília nos anos 50. Desde 1945, quando doou seu escritório para montar a sede brasileira do partido, também foi um comunista autor de belas igrejas, como a de São Francisco em Belo Horizonte, que demoraram 16 anos para consagrar porque tinha um aspecto irreverente.

Por esse fato lhe negaram várias vezes o visto para os EUA. E embora em 1939 tenha desembarcado para levantar o pavilhão brasileiro na Feira de Nova York, não conseguiu entrar para dar aulas em Yale nem para se transformar em decano de Harvard. De Gaulle promulgou um decreto que lhe permitiu construir na França ao mesmo tempo que a ditadura militar o obrigou a exilar-se em Paris. Ali levantou a sede do Partido Comunista. E essa conexão política o levou a construir a editora Mondadori em Milão.

Sempre defendeu que a luta política é mais importante que arquitetura, e para homenagear seu avô, um ministro da Suprema Corte do qual diz ter herdado a solidariedade, assinou seus últimos trabalhos com o nome completo, Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer. "Meu avô foi um homem útil e morreu pobre. Que orgulho", disse. Sua receita da eterna juventude é agir como se tivesse 40 anos. Há dois casou-se com sua secretária de 60. E hoje, além de Avilés, constrói um auditório em Ravello, um parque aquático em Potsdam e a Praça do Povo em Brasília. Tudo sem sair de Copacabana. Convencido de que as desigualdades devem ser erradicadas, quer ser lembrado como "um ser humano que passou pela terra como os outros". Felicidades.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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