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17/04/2008 - 00h31

Eleições no Paraguai: um bispo ameaça os 61 anos de poder do Partido Colorado

El País
Jorge Marirrodriga

Em Assunção
Graças aos votos, em certas ocasiões, ou à intervenção das botas militares, em outras, desde que foi fundado em 1887 o Partido Colorado, de tendência conservadora, quase sempre esteve no poder no Paraguai. Dos 121 anos transcorridos desde então, ele passou apenas quatro décadas sem segurar as rédeas do país, e isso já faz 61 anos. Portanto, no próximo domingo este país de 6 milhões de habitantes poderá viver uma jornada histórica caso se confirmem as pesquisas e Fernando Lugo, um bispo suspenso "a divinis" pelo Vaticano, consiga a vitória nas eleições presidenciais, derrotando a candidata colorada, Blanca Ovelar, que também pretende fazer história transformando-se na primeira presidenta do Paraguai.

Com um território açoitado pela dengue e a febre amarela, uma enxurrada constante de emigrantes que trocaram a vizinha Argentina pela mais distante mas mais rentável Espanha, um nível de corrupção reconhecido como problema número 1 pelo governo e um Produto Interno Bruto dos mais baixos da América Latina, o Paraguai vive as últimas horas antes de uma mudança drástica na maneira de administrar o setor público que permaneceu igual durante décadas. Continuísmo é uma palavra proibida e todos os candidatos, incluindo o oficialismo, proclamam que encarnam a mudança. Isso que quase 20% dos aspirantes a um dos 45 assentos de senador ou aos 80 de deputado reconhecem que têm um parente direto trabalhando na administração pública.

O bispo suspenso Lugo, que se apresenta pela Aliança Patriótica pela Mudança (APC na sigla em espanhol), lidera as pesquisas com 34,5% das preferências, seguido por Blanca Ovelar, com 28,9% e com uma porcentagem semelhante pelo ex-general -condenado como golpista, exilado no Brasil e na Argentina e depois perdoado- Lino Oviedo, líder da União Nacional de Cidadãos Éticos (Unce). Com um programa baseado na reforma agrária, na revisão dos acordos energéticos com Brasil e Argentina e no apoio das classes populares, Lugo, um prelado próximo da teologia da libertação, conseguiu fazer tremer as bases de um sistema que parecia imutável. Suas possibilidades de vitória são tão reais que nas últimas horas o Vaticano estuda a possibilidade de levantar sua suspensão e lhe dar uma dispensa -ou seja, mudar a sanção por uma demissão acordada- para não começar com o pé errado as relações com o novo chefe de Estado latino-americano, caso ele vença.

Jorge Adorno/Reuters - 15.abr.2008 
O candidato Fernando Lugo cumprimenta os simpatizantes durante campanha em Luque

Mas também na medida que se aproxima a hora de votar aumentam as vozes que advertem que o Partido Colorado não deixará escapar a vitória, menos ainda se a distância se reduzir, como vem acontecendo nas últimas semanas. Fraude é um termo repetido com freqüência e a APC já apresentou denúncias de supostas atas falsificadas. E na campanha ninguém está economizando chumbo grosso. O presidente de saída, Nicanor Duarte, cujas gafes deixam atordoada a equipe da candidata oficialista, denunciou na quarta-feira a presença no Paraguai de grupos de venezuelanos e equatorianos dispostos a incendiar postos de gasolina e propriedades privadas para provocar desordens e semear o caos quando se confirmar a derrota de Lugo.

ELEIÇÕES NO PARAGUAI
Jorge Adorno/Reuters
Simpatizantes do Partido Colorado participam de comício em Assunção
BISPO SUSPENSO É FAVORITO
CANDIDATA VÊ CORRUPÇÃO
LUGO, ENTRE CHÁVEZ E LULA
BRASIL E ENERGIA
Também se multiplicaram as aparições na televisão da mãe de Cecilia Cubas, filha do ex-presidente Raúl Cubas, seqüestrada e assassinada em 2005 por um grupo ligado às Farc, a maior guerrilha da Colômbia. A mulher pede que não votem em Lugo, lembrando o papel ambíguo do bispo no seqüestro e sua relação com os seqüestradores. Em tom literalmente mais apocalíptico, em Assunção há muitos cartazes que proclamam Lugo a Besta que leva o país ao inferno.

O pior para o Partido Colorado é que se perder o poder após 61 anos será depois de um processo convulsivo de eleições primárias para eleger um candidato, quando Blanca Ovelar se impôs ao vice-presidente Luis Castiglioni entre acusações mútuas de fraude. Luis Castiglioni não perdoou seu partido por tê-lo afastado da corrida presidencial e fez valer o ditado de que "seu pior inimigo é seu irmão".

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