UOL Notícias Internacional
 

20/08/2008 - 02h08

Doping genético pode ser próximo passo para a evolução do homem

El País
Mónica Salomone
O primeiro resultado positivo de doping nos Jogos Olímpicos - o da ciclista espanhola Maribel Moreno - é uma má notícia que no entanto tem uma segunda leitura positiva, isto é: o doping foi detectado. Há anos se vinha anunciando que Pequim 2008 seriam os jogos do doping genético, uma técnica que vem a ser a última elucubração para tentar forçar ainda mais a máquina humana... sem deixar vestígios nas análises. Até agora não há provas de que tenha sido assim. Mas do que ninguém duvida é que se não foi em Pequim será em Londres 2012 ou, se a candidatura tiver sorte, em Madri 2016.

O doping genético, baseado na introdução no organismo de genes alheios que supostamente melhorariam o rendimento físico, é considerado a ponta de lança de uma questão que transcende o âmbito esportivo: o aperfeiçoamento do corpo em geral com técnicas de biomedicina.

Muitos especialistas advertem que tomar as rédeas da evolução para conseguir uma versão avançada da espécie humana não é mais um sonho maluco nem da ficção científica. Talvez em um futuro não muito distante os pais possam decidir dar a seus filhos e aos filhos de seus filhos genes de resistência à Aids ou ao Alzheimer, ou que os tornem mais ágeis e longevos. Haverá então o medo de manipular os próprios genes - em uma sociedade que rejeita, com ou sem motivos, os alimentos transgênicos e onde ainda sobrevoa o fantasma da eugenia - ou se darão as boas-vindas ao que muitos chamam de humanos 2.0?

Valentin Flauraud/Reuters - 15.jul.2008 
Amostras de sangue para exame antidoping coletado em laboratório de Lausanne, na Suíça

No Terceiro Encontro sobre Doping Genético, realizado no mês de julho passado em São Petersburgo (Rússia) e do qual participaram representantes de cerca de 60 países, a Agência Mundial Antidoping (AMA) pediu aos governos sanções específicas para qualquer tentativa ilegal de transferir genes aos atletas. A agência, que ainda não constatou nenhum caso, já investiu US$ 7 milhões no desenvolvimento de testes específicos para detectá-los. Para evitar que haja algum esportista que secretamente já o esteja usando, serão guardadas amostras dos participantes nestes jogos que serão submetidas a análises pertinentes quando estiverem prontas.

A idéia do doping genético deriva de uma técnica médica investigada há cerca de três décadas: a terapia genética. Essa metodologia tenta curar doenças à base de atuar diretamente sobre os genes que intervêm nelas, e não sobre seus produtos (as proteínas), que é o que fazem as substâncias habituais.

Terapia genética, por exemplo, é tentar introduzir no organismo do paciente genes cuja falta causa a doença. Ou eliminar os que predispõem a sofrer alguma patologia, por exemplo, um câncer. Este último ainda não pode ser feito. Do que mais nos aproximamos é da seleção de embriões portadores dos genes que farão que a futura criança sofra uma doença, como a de Huntington. Mas tudo avançará.

E, claro, "as mesmas técnicas da terapia genética podem ser usadas não para curar doenças, mas para modificar características da pessoa", explicou recentemente Theodore Friedman, responsável por doping genético da AMA, em uma reunião da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS). "E o esporte, onde o que se busca constantemente é melhorar, é o âmbito ideal para pôr em prática essa idéia."

Na teoria, o doping genético poderia proporcionar por exemplo músculos mais fortes e que se recuperam mais rapidamente; um sistema melhor de geração de sangue - maior aporte de oxigênio, uma espécie de EPO congênita -, ou um metabolismo mais eficiente. Os genes com que se deveria trabalhar em princípio são conhecidos. "Para o tamanho dos músculos e a força, o hormônio do crescimento; para a geração de sangue, o hormônio eritropoyetina (EPO)", diz Friedman. "Não é nada muito sofisticado. Por isso acreditamos que o doping genético será inevitável."

Vários fatos apóiam seu diagnóstico. Em 2006 surgiu em um julgamento por doping um e-mail do treinador alemão Thomas Springstein pedindo uma substância experimental para a terapia genética contra a anemia, Repoxygen, que faz o organismo produzir mais EPO quando há menos glóbulos vermelhos que o normal. Esse pedido fez soar o primeiro alarme sobre a grande demanda potencial do doping genético. O segundo foram os diversos telefonemas que recebeu o pesquisador Lee Sweeney, da Universidade da Pensilvânia (EUA), desde que anunciou seu trabalho com ratos Schwarzenegger. Sweeney, que pesquisa a distrofia muscular, trabalha com um gene que estimula a produção do hormônio do crescimento e assim consegue quadruplicar a massa muscular dos ratos. Em algumas semanas de 2007 chegou a receber dezenas de telefonemas de esportistas e treinadores.

Assim, se tudo é tão simples e há tanta vontade, todos os atletas já estarão geneticamente aperfeiçoados e a AMA não sabe? Não, ou pelo menos ainda não. Embora a teoria pareça simples, a opinião geral é que o doping genético ainda está muito verde (nem sequer se acredita que o Repoxygen realmente sirva como doping).

Na medicina, a terapia genética se mostrou muito mais difícil de aplicar, e com efeitos secundários mais graves, do que se previa inicialmente. Viu-se, por exemplo, que os genes introduzidos podem ativar outros envolvidos em cânceres que até então tinham permanecido silenciosos. Por isso, para Friedman é "uma loucura" que um esportista recorra hoje ao doping genético.

Mas há outra pergunta inquietante. E se fosse possível adquirir habilidades sobre-humanas sem efeitos secundários? A que argumentos se deveria recorrer para tornar ilegais as técnicas de aperfeiçoamento?

John Harris e Sarah Chan, do Instituto para a Ética da Ciência da Universidade de Manchester (Inglaterra), revêem e descartam as respostas habituais. Não são também melhoras os banhos de alta tecnologia ou uma alimentação muito cuidada?, dizem. Ou o treinamento. Poderia se dizer que o doping é injusto para os que não o praticam, enquanto o treinamento está ao alcance de todos. "Mas o treinamento de elite pode ser muito caro, e estar até menos disponível do que as substâncias dopantes", escrevem Harris e Chan na revista "Gene Therapy".

O debate também se anima fora do âmbito esportivo. Chan, que há algumas semanas deu uma palestra no Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas (CNIO) em Madri, defende que pelo menos alguns dos próximos passos na evolução da espécie humana serão racionalmente dirigidos por ela mesma. "A chegada de novas formas de aperfeiçoamento humano em nosso horizonte tecnológico não implica, como muitos anunciaram, o fim da humanidade; é apenas o próximo passo no processo contínuo da evolução humana", escreve Chan no boletim "EMBO Reports", da Organização Européia de Biologia Molecular.

A medicina regenerativa, a manipulação genética e as novas substâncias farmacológicas abrem a porta para "possibilidades de melhora muito maiores" do que as obtidas até agora pela medicina, diz essa especialista. Então, "por que nos limitarmos a tratar a doença?" Além disso, "muitas terapias poderiam resultar em melhoras, além de tratamentos. Seria inaceitável seu uso só porque são eficazes demais?"

Melhor ir ao concreto. Em que áreas se estaria hoje mais perto de conseguir melhoras? Maija Kiuru, da Universidade de Cornell em Nova York, revê em "Gene Therapy" genes potencialmente interessantes e que já foram usados em estudos de terapia genética em animais. Além do da EPO e os relacionados ao hormônio do crescimento, na lista há genes envolvidos na obesidade ou na propensão à calvície, entre outras características. E não só o aspecto importa. Também há genes relacionados com uma melhor memória espacial e com a capacidade de aprender e reconhecer objetos visualmente mais depressa.

Não é muito, mas os pesquisadores crêem que é só o princípio. O futuro depara a resistência a doenças, mais anos de vida em bom estado e um cérebro de alto rendimento - para voltar ao âmbito do esporte. Além disso, não se tratará somente de aperfeiçoar a nós mesmos, mas aos filhos e aos netos que herdarão as modificações genéticas se estas forem feitas nas células germinais, os óvulos e espermatozóides.

Este é um dos pontos que desperta mais dúvidas, admite Chan. Mas ela diz: "Quando a tecnologia tiver se demonstrado segura, renunciar a usá-la também é decidir sobre o patrimônio genético de nossos descendentes. Especificamente, é decidir que eles não desfrutarão de seus benefícios. Se pudéssemos erradicar uma doença grave para as futuras gerações e decidíssemos não fazê-lo, duvido que nossos descendentes nos agradeceriam".

Para Manuel Serrano, do CNIO, a possibilidade de modificar nossos genes é "totalmente realista". "Hoje se podem gerar células mães a partir de células da pele, e essas células mães podem se modificar geneticamente. Delas se podem gerar as células germinais e a partir daí é a rotina da fertilização in vitro. Cada um desses passos foi feito com ratos, e em princípio não vejo que não possa ser feito com humanos."

É possível fazer. Mas se deve fazer? Serrano recorre ao exemplo das vacinas para responder que sim. "Hoje ninguém duvida em melhorar o sistema imunológico de seus filhos com vacinas, uma melhora para a vida toda, irreversível e decidida pelos pais, não pela criança. Além disso, as vacinas funcionam porque escolhem determinadas mudanças genéticas nos genes responsáveis pela imunidade; pela mesma razão, se sabemos - e assim demonstramos, por exemplo, com nossos ratos - que introduzindo cópias extras de um gene no que mais tarde serão espermatozóides ou óvulos podemos literalmente eliminar a possibilidade de câncer ou de Alzheimer ou de doença cardiovascular, e sem efeitos secundários... porque impedi-lo?"

Quanto às melhoras cognitivas, as opiniões são mais variadas. Na mesma reunião da AAAS em que se falou do doping genético, a especialista em neuroética da Universidade da Pensilvânia Marta Farah lembrou que um em cada cinco cientistas que responderam a uma pesquisa da revista "Nature" declarou tomar substâncias psicoativas não para tratar doenças, mas para melhorar sua concentração ou sua memória. Quase a metade dos pesquisados tinha tomado modafinil, uma substância que permite economizar horas de sono. Assim como no doping, está claro que há demanda e que já se conhecem alguns dos genes sobre os quais se pode atuar.

Mas daí a obter cérebros geneticamente aperfeiçoados há um longo caminho. "Estamos muito longe da manipulação genética para a melhora cognitiva", afirma Javier de Felipe, pesquisador do Instituto Cajal do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) em Madri. De fato, para ter um supercérebro ele propõe outra fórmula, muito mais simples, segura e "amplamente aceita pela comunidade científica": a educação. O exercício intelectual, segundo De Felipe, "produz uma mudança permanente na organização funcional do cérebro que afeta o processamento da informação".

O assunto do aperfeiçoamento genético dos seres humanos também apresenta dois temores com grande força: a possibilidade de que aumentem as desigualdades; e que deixemos de ser humanos. Sobre o primeiro, dizem Harris e Chan, "a ética de negar um benefício para poucos até que todos possam desfrutar dele é duvidosa", e lembram que essa não é a estratégia seguida para a maior parte das novas tecnologias - a educação, de fato, assim como o treinamento de elite ou os remédios contra a Aids, continuam não sendo universalmente acessíveis. E sobre deixar de ser humanos eles opinam: "O que nos torna humanos é a capacidade de dar forma a nosso destino de acordo com nossos desejos, e a genética e outras técnicas de aperfeiçoamento nos proporcionam meios para isso".

Compartilhe:

    Trânsito

    Cotações

    Hospedagem: UOL Host