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20/05/2004

"Diários de Motocicleta" faz viagem pela consciência de Che

Diretor e atores falam em Cannes da experiência de reviver os dias de Ernesto Guevara
Miguel Mora
Enviado a Cannes
O brasileiro Walter Salles narra a viagem de Ernesto Guevara e seu amigo Alberto Granado ao longo de mais de 10 mil quilômetros do continente latino-americano. Guevara, que logo seria o Che, tem apenas 23 anos e está quase se formando como médico especializado em lepra. Granado tem 27 e é um bioquímico teórico e prático: adora tanto os micróbios quanto as mulheres que os transmitem.
Ernesto, muito menos maduro, está apaixonado pela belíssima Chichina Ferreira, vivida pela atriz argentina Mía Maestro, que já estreou em Hollywood e também participou de "La niña santa", o outro filme latino do concurso.
"Diários de Motocicleta" obteve forte ovação na projeção matinal e mais aplausos ainda na chegada à entrevista coletiva, com a comovente surpresa da presença do autêntico Alberto Granado, hoje um lúcido octogenário com sotaque cubano e uma memória prodigiosa: "Jamais pude esquecer aquela viagem. Tudo o que me aconteceu na vida relacionei àquela aventura".
Um a um, os protagonistas da recriação daquela viagem iniciática, em que Che descobriu sua consciência política e a fúria que o transformaria no guerrilheiro mais famoso da história, foram contando os segredos desse filme baseado nos dois diárias que Guevara escreveu durante os meses que durou o percurso de Buenos Aires até Caracas, passando por Chile, Peru e Colômbia.
O diretor Walter Salles, cuja família detém o controle acionário do Unibanco, um dos maiores bancos do Brasil, tentou explicar os motivos que o levaram a produzir o filme. "Tínhamos muito medo de fazer o filme. Todos respeitávamos demais Che e estivemos cerca de cinco anos trabalhando nele. Eu fiz duas viagens de preparativos e mais uma para rodar. Mais que respeito, tínhamos medo, mas depois de ler os jornais, nas primeiras etapas da viagem, descobrimos que os papéis de Che descreviam perfeitamente a América Latina de hoje. A pobreza e a riqueza continuam sendo as mesmas que em 1952. Mais que sentir a pressão de fazer um filme histórico, tínhamos um sentimento de urgência para comunicar isso. Tentamos viver a viagem como Che e Granado, como a aventura por uma realidade que também não conhecíamos".
O roteirista José Ribera trouxe de Porto Rico seu exaustivo conhecimento desses diários: "era uma viagem para dentro, o despertar da consciência de Che, uma viagem física que ao mesmo tempo é emocional e acaba se transformando em muito política".
Gael García Bernal, um Che quase tão belo como o original, embora menos viril, reconheceu que "o medo foi um termômetro que ajudou muito a nos aproximar de tentar fazê-lo bem. Estivemos quatro meses lendo, buscando informação, conversando com Roberto Granado, fomos a Cuba, Argentina, participamos de seminários de política para nos inteirarmos do contexto em que ocorreu a viagem, subíamos três vezes por semana na moto, comemos bem, e apesar de tudo não cheguei preparado, começamos a filmar e estava aterrorizado, me achava péssimo. Percebi que para um papel assim só se pode preparar 30%, o resto estava na evidência em compartilhar essa viagem como eles fizeram e em confiar nessa transparência. Mas chegou um momento em que de repente começamos a confiar, a relaxar, a viver uma experiência pessoal tão importante como a que viveram Che e Alberto".
Rodrigo de la Serna faz Granado, um sujeito simpático, sedutor e sorridente, muito menos tenso que Guevara: "trabalhamos muito fazendo o mesmo caminho que eles, vivemos situações semelhantes, conhecemos a realidade das comunidades marginalizadas, sentimos a mesma emoção direta, a mesma cronologia, e creio que isso foi fundamental para o filme. A preparação foi realmente árdua, li todos os livros que Granado leu nessa época, engordei 10 quilos e percebi que toda a essência do filme estava nos diários".
Então tomou a palavra Granado, com seu sorriso ainda maroto e uma inteligência rápida e prática: "vocês compreenderão que não foi fácil para mim, 50 anos depois, ver-me interpretado por atores tão jovens. Sou um sujeito de sorte porque senão não estaria aqui, e o importante é que o filme teve um grande diretor e dois atores estupendos, os três com uma sensibilidade que lhes permitiu ver as coisas assim como as vimos há 50 anos, com o mesmo amor pela humanidade que nós sentimos. Nossa história é a história de dois jovens que saem para conhecer o mundo, e como é grande demais decidem ver a América Latina. O que vimos eram condições muito piores do que diziam os livros, mas a mensagem que fica da viagem é que tudo é possível, que é preciso avançar, que a juventude pode tudo. E isso se percebe muito bem no filme".



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