12/11/2004
Morte de Arafat inicia era de incertezas palestinas
Roula Khalaf
Em Londres
Há um mês, um envelhecido Iasser Arafat passou três horas com um grupo de jornalistas britânicos, na espécie de gueto bombardeado onde ele esteve confinado por mais de dois anos. Era uma noite quente de outono em Ramallah.
Arafat estava vestido com seu habitual uniforme militar, com sua marca registrada, o lenço kafiye, estilizado na forma do mapa da Palestina histórica, cobrindo sua cabeça. Ele mordiscava seu prato de legumes ao vapor, seguindo a rígida dieta que ele mesmo se impôs há muitos anos. Ele parecia abatido, mas não doente, e estava bem animado, com esperanças de que os planos de Israel para a evacuação dos acampamentos judeus na Faixa de Gaza pudessem lhe ajudar a sair do isolamento.
Nas últimas semanas, Arafat havia consolidado seu poder sobre a fraturada Autoridade Palestina, renovando seus contatos com rivais como Mahmoud Abbas, o ex-primeiro-ministro com quem ele havia se indisposto amargamente, e Mohamed Dahlan, o ex-chefe de segurança em Gaza e aspirante à liderança na região da futura Faixa evacuada.
Arafat sugeriu que somente ele seria autorizado a governar Gaza. Mas, por mais que os repórteres tentassem focar a conversa nos assuntos da atualidade, Arafat parecia já distante do tempo presente.
Ele voltava sua mente para os anos 90, para os dias do acordo de paz de Oslo e de sua emergência como um pacifista. Quando lhe perguntaram se tinha arrependimentos, ele se tornou defensivo, imediatamente se referindo ao fracassado encontro patrocinado pelos americanos, em Camp David, no ano de 2000.
A cúpula, segundo ele, tinha sido mal planejada, e essa falha estrutural teria levado ao fracasso, e não a sua relutância em chegar à paz com Israel. Mas o que mais chamou a atenção em Ramallah, tanto nas discussões com Arafat como nos encontros com outros dirigentes palestinos, foi como os palestinos pareciam profundamente sem rumo.
Arafat, o símbolo da causa palestina, parte num momento em que seu povo se mostra enfraquecido por quatro anos de levante, ou intifada, enfrentando um governo israelense aparentemente determinado a impor sua própria visão para chegar a uma solução para os palestinos. Uma solução que está bem aquém do que os palestinos querem, que é um Estado que inclui a Margem Ocidental do Rio Jordão e a Faixa de Gaza, com Jerusalém Oriental como capital.
Arafat pode não ter sido capaz de fazer a transição de sua condição de revolucionário para a condição de um estadista, mas ele se tornou uma força unificadora entre os palestinos, um homem que dedicou sua vida à causa palestina e que se tornou sua liderança e símbolo.
Na verdade, os palestinos não chegaram a conhecer nenhum outro líder, e embora muitos criticassem sua condução da Autoridade Palestina, poucos seriam capazes de questionar sua legitimidade. Seus índices de popularidade não eram altos, mas permaneciam acima dos de qualquer outro dirigente palestino. É por isso que os rivais dele não queriam contestar abertamente a liderança de Arafat na AP.
Arafat foi freqüentemente descrito como um mau estrategista, porém um tático brilhante. Ele foi sagaz o bastante para sobreviver a diversos atentados israelenses, tentativas de enfraquecê-lo e isolá-lo.
Mas, em sua luta pela sobrevivência política, ele também procurou marginalizar outros líderes em potencial --algo que o ex-primeiro ministro Abbas veio a descobrir quando renunciou no ano passado, apenas meses depois de ter sido indicado para o cargo. E o monopólio exercido por Arafat no poder deixa a Autoridade Palestina sem um sucessor poderoso, o que abre uma era de incertezas.
Mas, se os palestinos conseguirem realizar uma sucessão tranqüila, poderão fazer da transição uma oportunidade. Com Arafat fora de cena, os palestinos poderão transferir para Israel o ônus da responsabilidade pelo impasse no processo de paz.
Os Estados Unidos, que se recusavam a negociar com Arafat, agora poderiam estar mais inclinados a se engajar no conflito da região e a adotar uma política mais justa em relação aos palestinos. Até agora, o governo de Ariel Sharon tem sido bem sucedido em convencer seu próprio povo e também os Estados Unidos, o tradicional mediador com os árabes, de que Arafat era o maior obstáculo à paz, um líder que nunca teria tido a coragem de chegar a um acordo amplo com os israelenses.
Ao insistir que não tinha um parceiro com quem negociar, Israel embarcou numa estratégia de rompimento unilateral com os palestinos.
Sharon esteve discutindo a retirada de Gaza com Omar Suleiman, o chefe da inteligência egípcia e importante mediador com os palestinos, mas se recusou a coordenar seus planos com a Autoridade Palestina de Arafat.
Mas do outro lado, nos territórios palestinos, Arafat foi muitas vezes acusado de ser excessivamente condescendente em relação a um acordo com Israel.
Muitos analistas acreditam que chegar a uma resolução mais ampla seria bem mais fácil com um líder que gozasse de uma certa popularidade e de legitimidade histórica. Mas, sem Arafat na condução dos negócios da AP, a argumentação de Israel sobre a inexistência de um parceiro confiável estaria enfraquecida.
Com a ajuda internacional, um "processo" de paz poderá se tornar mais viável. Mas chegar a um acordo efetivo é um outro assunto. Um novo chefe irá precisar de mais tempo para consolidar seu poder na Autoridade Palestina, e mais tempo ainda para ter a autoridade suficiente para chegar a um acordo de paz com Israel.
Tradução: Marcelo Godoy
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