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04/04/2005
O legado misto do papa João Paulo 2º

Financial Times

O papa João Paulo 2º, que morreu no último sábado, era uma figura imponente, apesar de controversa, única em sua influência religiosa contemporânea, ainda que a sua convicção doutrinária tenha afastado muita gente da Igreja Católica Apostólica Romana.

O seu legado histórico está envolto em paradoxos. Ele foi um farol da liberdade no final da Guerra fria, mas o seu absolutismo não admitia divergência. Visto por muitos como um reacionário, a sua insistência na verdade eterna, não obstante, consistiu em um manifesto claro em uma era de relativismo moral.

Ele foi o herói polonês que ajudou a derrubar o comunismo na Europa Central e Oriental, porém, jamais deixou de condenar a ganância capitalista e o hedonismo da prosperidade, chegando em determinado momento a fazer lembrar aos letões que existe "um núcleo de verdade no marxismo".

Quando Karol Wojtyla emergiu como papa do conclave de cardinais em 1978 - surpreendendo o mundo como o primeiro pontífice não italiano desde 1522 -, foi quase como se tivesse sido trazido à existência pelas demandas de uma idade da mídia. Ele era perfeito para tal papel: vigoroso, teatral, articulado e conhecedor de várias línguas, inflexivelmente claro na sua defesa da fé, mas respeitador das outras grandes religiões mundiais.

Ele se dedicou incessantemente a um ministério verdadeiramente global, atraindo algumas das maiores multidões já reunidas, não só nos grandes centros católicos, mas em passeatas ecumênicas, nas quais aqueles que professavam outros credos se aglutinavam em torno do seu fervor e do seu carisma, ou até mesmo das suas crenças.

Por um golpe do acaso ou da previdência, o papa polonês chegou ao Vaticano no momento em que o bloco oriental começava a fraquejar devido ao fracasso econômico, à falência moral e política e a uma ruinosa corrida armamentista com o Ocidente. Quando o movimento Solidariedade no seu país nativo entrou em cena, João Paulo lhe ofereceu o abrigo e o apoio da Igreja. Em um sentido mais emblemático, ele apareceu como o sobrevivente e a testemunha da liquidação da "intelligentsia" polonesa por Hitler e Stálin, contra os quais ele se opôs. Com o subseqüente colapso da ordem soviética, a sua reputação foi criada.

Porém, apesar de irredutível na sua oposição ao despotismo comunista, e apesar de sua defesa dos pobres, ele muitas vezes pareceu indiferente às tiranias de inspiração católica na América Latina, tendo se proposto a esmagar a aliança entre a Igreja e a "Teologia da Libertação", voltada para os pobres. Na Itália, ele pouco falou a respeito da corrupção da democracia cristã, ou sobre a aliança com a Máfia que ajudou a impedir que a esquerda liderada pelos comunistas conquistasse o poder.

Desconfiado de ordens como a dos jesuítas - tradicionalmente a elite intelectual da Igreja -, ele se voltou profundamente para o conservador e secreto Opus Dei, um movimento comprometido pela sua associação com a ditadura franquista na Espanha. A adoção por parte dos jesuítas de uma "opção preferencial pelos pobres" os levou a abandonar escolas e universidades particulares em toda a América Latina, deixando a cargo do Opus Dei a educação das elites locais.

Pode-se argumentar que, em parte, João Paulo meramente refletiu uma mudança no centro de gravidade da Igreja Católica. O declínio do comparecimento à igreja e do número de candidatos a sacerdotes na Europa Ocidental e nos Estados Unidos fortaleceu o grupo católico mais numeroso e conservador na América Latina, África e Ásia. Mas isso camuflaria o centralismo férreo com que ele e a sua cúria implementaram a supressão doutrinária e o retrocesso do processo de reforma colocado em andamento pelo Conselho Vaticano Segundo de 1962 a 1965.

Por um lado, a defesa da vida abraçada por João Paulo contra aquilo que ele chamava de "as culturas da morte" o levou a condenar a pena de morte, a se opor veementemente a ambas as guerras no Iraque e a se manifestar apaixonadamente em favor da dignidade e dos direitos humanos. Por outro lado, a sua rigidez doutrinária o levou a encerrar o debate sobre o casamento e o celibato de padres, a ordenação de mulheres, a contracepção artificial, o aborto, as relações sexuais fora do casamento e a homossexualidade.

Para os admiradores de João Paulo, tudo isso é parte e elemento central do seu papel como testemunha e guia através de uma era de confusão moral e de vazio ético. Mas o seu dogmatismo social e sexual não admitia acordo quanto aos complexos dilemas morais enfrentados por homens e mulheres modernos.

Especialmente escandalosa foi a incapacidade do Vaticano de enxergar a conexão entre a disseminação da Aids na África - onde vivem 120 milhões de católicos - e a posição da Igreja contrária ao uso de preservativos. Para muitos católicos, assim como para não-católicos, essa posição pareceu ser cruelmente irracional, e até pecaminosa. O fato de João Paulo ter igualado a contracepção ao genocídio aprofundou tal impressão.

Um outro grande golpe contra a reputação da Igreja Católica sob João Paulo foi a série de escândalos envolvendo abusos cometidos contra crianças em escolas católicas. O papa, é claro, condenou esses episódios, mas a alta hierarquia da Igreja demorou a agir e se mostrou complacente e protecionista para com os perpetradores dos abusos. Devido ao isolamento autoritário no qual João Paulo vivia, cercado por dogmáticos que lhe eram assemelhados, convictos de sua verdade infalível, isso não é motivo de surpresa.

João Paulo também procurou encher o céu de almas que pensavam como ele, tendo canonizado quase 500 santos, mais do que todos os seus predecessores combinados desde que o processo de canonização foi formalizado no século 16. Essa fábrica de santos canonizou com uma pressa indecente o fundador do Opus Dei, Jose Maria Escriva de Balaguer.

Mas a Igreja Católica Apostólica Romana, com seus 1 bilhão de fiéis, continua sendo uma força singular poderosamente organizada, apesar das devastadoras deserções registradas na Europa e na América do Norte. Nenhuma outra religião possui uma liderança equivalente, que consista em referência e renome tão amplos (sem mencionar o fato de ser integrante da Organização das Nações Unidas). Em uma era em que a fé fraqueja e na qual se presencia uma desconcertante variedade de seitas New Age, a característica medieval que João Paulo conferiu à sua liderança da Igreja Católica pode ter sido taticamente sagaz.

O crescimento do islamismo também sugeriria que a insistência de João Paulo na primazia absoluta da revelação reverbera em parte do pensamento moderno - ainda que a sua obstinação quanto à sua própria infalibilidade ao interpretá-la não tenha alcançado o mesmo resultado.


Tradução: Danilo Fonseca

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