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19/07/2005
Batalha da mídia para conquistar leitores mantém o ritmo dos escândalos no Brasil

Richard Lapper
Editor de América Latina
Em São Paulo


Um vídeo, gravado de forma nebulosa e secreta, do pagamento de uma propina, alegações quase que inaudíveis em gravações telefônicas ruidosas, prisões de políticos que levam dezenas de milhares de cédulas de dinheiro em malas, e o assessor de um partido preso em um aeroporto com US$ 100 mil em cédulas de dinheiro norte-americano enfiadas na cueca.

Parece que cada dia traz novas e mais bizarras alegações de má conduta por parte dos políticos, e se aprofunda o pior escândalo de corrupção do Brasil desde que o ex-presidente Fernando Collor foi retirado do poder 13 anos atrás.

Líderes do esquerdista Partido dos Trabalhadores (PT), que está no poder, e os seus aliados no Congresso, preponderantemente de direita, estão sendo alvo da maior parte do tiroteio, mas os políticos de oposição também estão sob fogo.

"Foi uma surpresa para nós", diz Flávio Pinheiro, editor de "O Estado de S.Paulo", um dos principais jornais do país. "E acredito que haverá mais surpresas pela frente".

Quatro figuras proeminentes já renunciaram aos seus cargos no PT supostamente por estarem implicados em questionáveis esquemas de financiamento político que parecem ter sido elaborados em parte para garantir apoio de uma maioria congressual para o presidente de centro-esquerda Luiz Inácio Lula da Silva.

Uma comissão parlamentar de inquérito já está investigando a corrupção nos Correios, uma acusação que desencadeou o escândalo em maio. Um outro grupo de legisladores está examinando a forma como o PT aparentemente pagou pelos votos de deputados amigáveis da direita, práticas que passaram a ser conhecidas como "mensalão", ou "o grande pagamento mensal".

Outras comissões estão investigando uma série de outras alegações, fazendo com que seja praticamente impossível para o Congresso votar qualquer outra item da agenda de reformas de Lula.

Durante semanas os três principais jornais, "O Estado de S.Paulo", "Folha de S.Paulo" e "O Globo" têm dedicado até 12 das suas 16 páginas de notícias do primeiro caderno a matérias detalhadas sobre o caso.

A "Veja", a principal revista semanal, que também liderou a cobertura de um escândalo de corrupção que derrubou Collor, tem publicado uma série de matérias de capa sobre o caso. As suas concorrentes, "Época", "Isto É" e "Carta Capital" estão procurando seguir-lhe o ritmo.

Os noticiários televisivos se concentram em pouca coisa mais. A competição da mídia está gerando interesse. A busca por furos de reportagem ajuda a conquistar leitores e aumenta o prestígio entre publicitários em um mercado concorrido.

O público leitor brasileiro é pequeno e vários grupos de mídia estão endividados, tendo investido pesadamente na expansão para as áreas de televisão a cabo e Internet no final dos anos 90.

"A gente conquista leitores com informações exclusivas. E não há muitos leitores", afirma Pinheiro. "O caso está se tornando bastante efervescente e ele possui a sua própria dinâmica".

Críticos da mídia dizem que, ao não investigarem de maneira apropriada as alegações, os repórteres contribuem para alimentar um frenesi e estão simplesmente amplificando tais alegações, em vez de tentarem examinar a seriedade destas.

"Existe uma tendência para publicar ou colocar no ar as alegações sem qualquer investigação", critica Alberto Dines, do "Observatório da Imprensa", um grupo de fiscalização da mídia com sede em São Paulo. "Isso gera um efeito bola-de-neve".

Tendo escapado das garras da censura mais de 20 anos atrás, a mídia brasileira ainda não encontrou uma forma de anunciar acusações de corrupção sem assumir que todos os acusados de corrupção sejam necessariamente culpados.

Pinheiro diz que "denunciar a corrupção é algo de bom", mas reconhece que aquilo que chama de "denuncismo", um termo que poderia ser traduzido como "denúncia pela denúncia", pode "ser um vício".

No entanto, Lula e o Partido dos Trabalhadores não estão ajudando a própria causa. As suspeitas de corrupção são especialmente danosas para um partido que, na oposição, prometeu uma nova e mais ética abordagem da política.

Embora muitos dos jornalistas brasileiros sejam simpatizantes do PT, as relações com a mídia não têm sido boas. Lula falou freqüentemente com a imprensa antes da eleição, mas desde então se mostrou esquivo, tendo concedido apenas uma entrevista coletiva em dois anos e meio de governo.

Para coroar tudo isso a maneira como o partido lida com a imprensa não tem impressionado. Os líderes do PT têm mudado de opinião, primeiro acusando a mídia de lançar uma conspiração de direita, e depois prometendo investigar as alegações.

Lula parece estar cansado, e dá a impressão de preferir não falar nada sobre o assunto.

"O Partido dos Trabalhadores simplesmente não sabe como se relacionar com a mídia", diz um apresentador de televisão que simpatiza com o partido. "Eles não sabem como se defender".

Tradução: Danilo Fonseca

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