09/11/2005
Racismo e habitações precárias alimentam o ódio
Martin Arnold
Em Paris
Quando Jamel Baccori se inscreveu para um emprego de aprendiz de jardineiro na prefeitura de Clichy-sous-Bois, um subúrbio a nordeste de Paris, um oficial lhe disse que não podia se candidatar sem um diploma de segundo grau.
Baccori ficou desconfiado. Por que haveria necessidade de qualificação acadêmica para um trabalho tão simples? Então ele parou para perguntar a dois homens que trabalhavam nos jardins da prefeitura se era verdade. Os dois franceses brancos disseram a Baccori, um cidadão francês de origem argelina de 34 anos, que faziam parte do mesmo esquema de emprego e nunca ouviram falar da exigência de que os candidatos tivessem diploma escolar.
Esse "racismo" está embutido na sociedade francesa, ele diz, acusando-o por provocar os distúrbios, principalmente por imigrantes de segunda ou terceira geração, que começaram em Clichy-sous-Bois duas semanas atrás e desde então se espalharam para centenas de cidades em toda a França.
"Eles fecham todas as portas para as pessoas, por isso é claro que algumas vão recorrer ao álcool, às drogas ou ao crime", diz Baccori, que continua desempregado. Ele diz que sem a renda de sua mulher, que descreve como "francesa pura", não poderiam sustentar seus três filhos.
Ele vive em La Cité des Bosquets, um condomínio de edifícios pobres entre Clichy-sous-Bois e a vizinha Montfermeil, notória pelas drogas e o crime. Os distúrbios lá começaram depois que dois adolescentes foram eletrocutados enquanto aparentemente se escondiam da polícia em uma subestação de eletricidade.
Um operário da construção aposentado chamado Mohamed, que ajudou a erguer muitos dos edifícios de Clichy-sous-Bois, quer que eles sejam demolidos. "Eu vivi lá nos anos 70. Era um paraíso e eu tinha vizinhos italianos, portugueses e poloneses." Mas, ele acrescenta, tudo mudou com o aumento do desemprego e a deterioração da habitação, das lojas e instalações da área. Apontando para os edifícios, ele continua: "Olhe para esses galinheiros -- quando as crianças saem de lá, o que você espera que elas façam? Eles deveriam trazer escavadeiras e destruir tudo."
Ahmed, um carpinteiro desempregado de 30 anos, diz que os imigrantes e seus filhos são tratados como cidadãos de segunda classe e pergunta: "Quem construiu a França -- as estradas, esses prédios, as fábricas? Foram todos construídos por imigrantes. Mas agora eles querem nos transformar em escravos".
Ele mostra sua casa: uma torre amarelo-cinzenta de apartamentos, coberta de grafites e cercada de lixo. "Veja como vivemos. Não é uma questão de religião. É uma questão de respeito próprio. Como podemos ter isso quando vivemos como baratas, cercados por tanta sujeira?"
Dentro da mesquita de Clichy-sous-Bois, que ganhou destaque nacional quando uma bomba de gás lacrimogêneo da polícia explodiu perto da entrada durante as orações na semana passada, Abderrahmane Bouhout, o diretor da mesquita, diz que os muçulmanos locais tiveram um papel importante para restabelecer a paz.
"A prova é que quando a bomba explodiu nesta mesquita, o que foi uma coisa muito grave, foram as pessoas da mesquita que pediram calma", diz Bouhout. Ele acrescenta que os distúrbios são um sintoma de discriminação étnica, e não uma questão religiosa.
"O modelo anglo-saxão julga as pessoas pelo mérito", ele diz. "Mas na França existe racismo, discriminação e insegurança. As pessoas aqui acham muito difícil encontrar emprego -- mesmo que tenham diplomas, não ajuda."
Kamel, um freqüentador da mesquita, diz que a França está pagando o preço por esconder o problema por tanto tempo. "É como se o mundo tivesse acabado de acordar e percebido que a França tem esse subúrbios pobres, que eles nunca souberam que existissem."
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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