29/05/2006
Temor quanto a interferências estatais faz investidores reavaliarem planos para a América Latina
Richard Lapper
Sérgio Gabrielli enxergou poucas nuvens no horizonte quando lhe pediram, em fevereiro, para avaliar as perspectivas da sua companhia na Bolívia.
O presidente da Petrobras, a gigante estatal brasileira do setor petrolífero, acreditava à época que a vitória acachapante de Evo Morales nas eleições presidenciais da Bolívia criaram uma "visão de estabilidade".
Em vez disso, em um período de meses, a Petrobras se viu expropriada. A empresa brasileira foi a mais recente -e mais surpreendente- baixa causada por uma série de ações de inspiração nacionalista contra os investidores estrangeiros.
Na Bolívia, a BG e a BP, do Reino Unido, a Total, da França, e a Repsol, da Espanha -que injetaram bilhões de dólares no país na década passada- tiveram um destino semelhante. Há pouco mais de uma semana, a Occidental Petroleum, com sede na Califórnia, entrou para a lista, ao ser desapropriada pelo governo do Equador, após um desentendimento quanto a um contrato.
Executivos da Suez, conglomerado empresarial francês, também amargaram maus momentos neste ano depois que o governo da Argentina se mobilizou no sentido de desapropriar a Águas de Argentina, a companhia de distribuição de água que é uma subsidiária da empresa francesa.
O preço das ações da Repsol caiu após a redução dos investimentos da empresa na Bolívia, na Venezuela e na Argentina.
A nova situação sensível na região fez com que os investidores reavaliassem os seus compromissos. "Onde quer que exista qualquer risco de que a situação se desenrole como na Bolívia, os investidores estão em compasso de espera", diz Stephen Donehoo, que assessora investidores da Kissinger McLarty, em Washington.
De várias formas, isto é surpreendente. As economias latino-americanas estão mais estáveis agora do que em qualquer período nos últimos 30 anos. Na maioria dos países, a inflação é de um único dígito, e a demanda por parte da China e das crescentes economias asiáticas fez com que matérias-primas como cobre e ferro, que a América Latina possui em abundância, se tornassem mais atraentes.
Em parte por causa disso, os níveis de investimento estrangeiro têm crescido nos últimos dois anos, em uma recuperação em relação a um período difícil, associado à crise financeira do início da década.
No seu último relatório sobre investimento estrangeiro direto (FDI, na sigla em inglês) na região, a Comissão das Nações Unidas para Economia na América Latina revelou que os fluxos deste tipo de investimento aumentaram de US$ 61,5 bilhões em 2004 para US$ 68,1 bilhões em 2005, uma cifra próxima à média anual de US$ 70,6 bilhões alcançada na segunda metade da década de 1990.
A recuperação é ainda mais impressionante já que, durante a década de 1990, as campanhas de privatização atraíam uma onda de investimentos estrangeiros para os setores financeiro, de telecomunicações e de energia.
Uma análise mais detalhada revela uma marcante disparidade entre o sul da região e o grupo formado por México, Colômbia, Chile e os países do Caribe, que estão mais estreitamente integrados com os Estados Unidos por meio do comércio, da migração e da segurança, entre outros fatores.
Enquanto os investimentos no México chegaram a US$ 17,8 bilhões em 2005, em um acréscimo de quase 50% em relação à média alcançada ao final da década de 1990, o fluxo de investimento para o Brasil no ano passada foi de apenas US$ 15,1 bilhões, menos da metade da média registrada dez anos atrás.
Os analistas atribuem este declínio no sul da região a diversos fatores. Nos setores de petróleo e recursos naturais, os governos passaram a impor contratos bem mais rígidos aos investidores estrangeiros. A Venezuela, o maior produtor de petróleo da região, impôs novas condições a mais de 20 companhias estrangeiras no ano passado, fazendo com que a Exxon Mobil reduzisse drasticamente a sua presença naquele país.
Em tese, as regras para investimentos na Argentina estão entre as mais liberais do mundo. Na prática, o governo de esquerda de Néstor Kirchner interveio de maneira discricionária em vários setores, recusando-se a permitir que empresas estrangeiras financeiras e de prestação de serviços públicos aumentassem as suas margens de lucro. Assim como a Suez, a Electricité de France decidiu deixar a Argentina. Mais de 20 outras empresas entraram com ações na justiça contra o governo por meio do Centro de Resolução de Conflitos sobre Investimentos do Banco Mundial.
"O clima se deteriorou significantemente", observou Helena Hessel, uma analista de crédito da Standard and Poor's, em Nova York, em um artigo publicado neste mês.
O governo de centro-esquerda do Brasil tem recebido melhor os investimentos estrangeiros, mas mostrou-se incapaz de reduzir as restrições burocráticas e os onerosos custos trabalhistas e fiscais. A forte valorização do real em relação ao dólar - que foi apenas parcialmente revertida durante o recente período de volatilidade nos mercados internacionais - fez com que aumentassem as dificuldades devido à elevação dos custos operacionais.
Os especialistas também observam que há um forte aumento da conscientização popular quanto às questões ambientais em toda a região, um fenômeno estimulado em parte por organizações não-governamentais financiadas com dinheiro estrangeiro. Manifestantes argentinos, temerosos da poluição atmosférica, tentaram impedir a construção de fábricas de celulose por parte da Botnia, da Finlândia, e da ENCE, da Espanha, no vizinho Uruguai.
Em tal contexto, surpresas como as nacionalizações na Bolívia ou a ação do Equador contra a Occidental são particularmente daninhas. Autoridades dos Estados Unidos descreveram a decisão de cancelar o contrato da Occidental como "terrível", em parte porque a medida parecer ser bastante arbitrária.
A Petrobras acreditava possuir bons vínculos políticos com o governo boliviano e prometeu investir pesadamente no país vizinho. Assim, a desapropriação foi particularmente alarmante, afirma um avaliador de riscos internacionais que atua em São Paulo. "O fato não ajudou no que diz respeito às percepções. Se um investidor está sentado em Houston, Nova York ou Londres, e vê alguém ser chutado na América Latina, o fato implica na modificação da forma como tal investidor enxerga a situação".
Tradução: Danilo Fonseca
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