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15/05/2007
Aproximação de Chávez com Irã provoca desconforto entre judeus venezuelanos

De Hal Weitzman

Uma dúzia de crianças ouve sem muita atenção um guia na pequena sinagoga no centro de Coro, cidade que foi a primeira capital da Venezuela, antes do título passar a Caracas, a 300 km a Leste.

O guia aponta para o piso da mais antiga casa de prece judaica, que é coberto por uma camada grossa de areia. "A areia lembrava aos que oravam dos tempos que os filhos de Israel passaram vagando pelo deserto do Sinai", disse ele.

A areia também simboliza a transitoriedade da colônia judia em Coro: os comerciantes judeus de Curaçao chegaram à cidade em 1827. Em 1855, quase todos partiram, após uma multidão saquear suas lojas e casas.

Apesar disso, os judeus venezuelanos dizem que o país tradicionalmente se sobressaiu na região pela ausência de anti-semitismo. Mas, nos últimos anos, eles sentiram um desconforto crescente enquanto o presidente Hugo Chávez abraçava calorosamente o governo do Irã, que no ano passado abrigou uma conferência de negação do Holocausto e lançou uma onda de ataques verbais destrutiva contra Israel.

Líderes judeus dizem que as relações entre a comunidade e o governo estão em uma baixa histórica. O rabino Pynchas Brener, principal rabino dos judeus asquenazes de Caracas, diz: "Esta é a pior situação que vi aqui em 40 anos."

A aproximação de Chávez com Teerã tornou-se até uma fonte de tensão entre Caracas e Buenos Aires. A Argentina está acusando nove oficiais iranianos, inclusive o ex-presidente Akbar Hashimi Rafsanjani, de conexão com as explosões de 1994 do centro da comunidade judaica Amia, em Buenos Aires, no qual 85 pessoas foram mortas. O governo argentino acusa Teerã de ter planejado o ataque, e a Hezbollah do Líbano de executá-lo.

Em março, cerca de 70 líderes judeus de todo o mundo reuniram-se para um encontro de dois dias em Caracas. O discurso principal foi de Cristina Fernández de Kirchner, primeira-dama da Argentina que deve concorrer à presidência nas eleições em outubro. Em um estocada em Chávez, ela falou da necessidade de "agir de forma concreta contra qualquer sinal ou vislumbre de anti-semitismo".

As condições na Venezuela começaram a se deteriorar em novembro de 2004, quando uma escola judaica sofreu uma batida da polícia. O mandado de busca, emitido por um juiz pró-Chávez após o assassinato do promotor público Danilo Anderson, sugeriu que a escola estava sendo usada para armazenar armas. A hipótese nascera de rumores que Anderson tinha sido morto por equipamento da Mossad, serviço secreto israelense. A polícia saiu de mãos vazias.

"Chávez devia saber", diz um membro da comunidade. "Nesta sociedade, nada acontece sem sua permissão. A sensação era que o governo queria enviar um sinal ao grupo que não estava imune ao seu controle."

Um mês após a batida, Chávez disse em um discurso que "os descendentes dos que mataram Cristo" e os "descendentes dos que expulsaram Bolívar daqui" tinham "tomado posse da riqueza no mundo". Em reunião subseqüente, Chávez disse aos líderes judeus que não estava se referindo a sua comunidade.

No ano passado, as relações tomaram outro rumo para pior quando a reação oficial ao ataque de Israel contra a Hezbollah no Líbano iniciou o que Freddy Pressner, diretor do principal corpo comunitário judaico, Caiv, chamou de uma "explosão de anti-semitismo na Venezuela".

Apesar de poucos judeus culparem o governo diretamente pelo movimento, muitos dizem que as comparações feitas por Chávez das ações de Israel com as dos nazistas criaram um ambiente hostil.

Líderes judeus também criticam o governo por ter organizado uma manifestação na frente da principal sinagoga sefaradita da cidade, cujo muro foi subseqüentemente pichado com palavras anti-semitas.

Ao mesmo tempo, Chávez, esquerdista radical que se retrata como contrapeso político ao presidente George W. Bush nas Américas, fortaleceu laços com aliados anti-EUA, como Irã e Síria.

Chávez distanciou-se das declarações de Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, que disse que o Holocausto era ficção e que Estado de Israel deveria ser destruído, mas poucos judeus em Caracas sentiram-se tranqüilizados.

Até um quinto da população judaica partiu desde que Chávez assumiu o poder, em 1999. A comunidade tem medo de divulgar por temer que a debandada seja considerada uma falta de compromisso com a Venezuela e isso afete os 15.000 a 20.000 que permanecem no país.

Sammy Eppel, comentador judeu, diz: "Eles não estão queimando sinagogas ou perseguindo as pessoas nas ruas, mas há um anti-semitismo sancionado oficialmente. O povo venezuelano não é anti-semita. Isso está sendo dirigido por poucos ativistas."

Tradução: Deborah Weinberg

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