Enquanto o número de mortos crescia na quarta-feira devido a um poderoso carro-bomba em Peshawar, Hillary Clinton, a secretária de Estado americana, aparecia de forma carrancuda em Islamabad para apelar aos paquistaneses para que superassem as percepções equivocadas e estereótipos que tinham em relação aos Estados Unidos.
Percepções equivocadas têm o peso de fato no Paquistão; principalmente quando envolvem os Estados Unidos e a arquirrival Índia.
Antes da mais recente onda de ataques terroristas que varreu as grandes cidades do Paquistão, rumores corriam pela capital a respeito das ambições imperialistas dos Estados Unidos no Paquistão.
Imaginava-se que um grande contingente de marines americanos estava posicionado na embaixada. Igualmente, centenas de casas supostamente teriam sido alugadas na cidade para abrigar pessoal da Blackwater, uma empresa militar privada.
Essas ficções enervaram os funcionários da embaixada, familiarizados com a natureza incendiária da sociedade ao seu redor. Eles temiam uma possível repetição da invasão à embaixada em 1979. Na época, uma notícia de rádio equivocada, culpando os Estados Unidos por um ataque a bomba à mesquita de Masjid al Haram em Meca, levou estudantes a incendiarem a embaixada. Mas o ataque à mesquita foi obra de alguém mais próximo de casa: um fanático saudita.
Trinta anos depois, esses grandes mal-entendidos ainda correm pelas ruas do Paquistão. As mortes brutais infligidas ao povo paquistanês pelos militantes do Taleban são, de alguma forma, ou culpa dos Estados Unidos ou obra da Índia.
A desconfiança entre Islamabad e Washington é profunda, apesar de um relacionamento que dura décadas, quando o Paquistão era visto como um contrapeso estratégico para Nova Déli, com sua inclinação para Moscou, e o Afeganistão ocupado pelos soviéticos. Os tempos mudaram e mais assistência para desenvolvimento é oferecida. Mas as percepções em relação aos Estados Unidos pioraram. Nas ruas, os paquistaneses contestam abertamente os Estados Unidos. Nos mais altos gabinetes do governo, os funcionários também são igualmente ressentidos. Eles se queixam de que os Estados Unidos sempre trataram o Paquistão como um país mercenário, contratado para combater os soviéticos e mais recentemente os militantes da Al Qaeda, responsáveis pelos ataques terroristas de 2001 contra Nova York e Washington.
A visita de Hillary Clinton oferece uma chance de um alto diplomata americano apresentar o argumento de Washington para um relacionamento de longo prazo com um país onde o sentimento antiamericano é fervoroso. "Eu quero que vocês saibam que esta luta não é apenas do Paquistão", ela disse em comentários voltados aos paquistaneses céticos. "Esta também é nossa luta e nós elogiamos as forças armadas paquistanesas pela sua luta corajosa, assim como estamos lado a lado com o povo paquistanês na sua luta pela paz e segurança."
A tarefa formidável de Hillary Clinton é convencer a liderança paquistanesa da determinação de Barack Obama de virar a página. Sua visita ocorre em meio à controvérsia no Paquistão pela aprovação de um projeto de lei para triplicar a ajuda americana ao país, para US$ 1,5 bilhão por ano. Também ocorre em meio a amplos ataques dos militantes.
"No passado, os Estados Unidos preferiam fazer negócios apenas com povos que atendiam seus interesses. Os interesses dos paquistaneses nunca foram considerados", disse Ghaus Khan, um estudante de Islamabad, representando o sentimento do público em geral.
O general Ashfaq Pervez Kiyani, o chefe do exército paquistanês, em uma rara crítica pública, citou "sérias preocupações" em relação ao projeto de lei Kerry-Lugar, que é visto como uma interferência externa em áreas como as promoções militares e o programa nuclear do Paquistão.
Hillary Clinton tentou enfatizar as metas de desenvolvimento acima das militares. Na quarta-feira, ela ofereceu ajuda americana para modernizar a infraestrutura elétrica do Paquistão. Pouco investimento foi feito no setor durante o período de Musharraf no poder e atualmente as cidades são atormentadas por apagões.
"O que as pessoas no Paquistão querem? Bons empregos, bom atendimento de saúde, boa educação para os filhos, energia elétrica previsível e confiável -os tipos de necessidades cotidianas que são realmente a essência do que os americanos querem", ela disse.
Essa pergunta também está na mente de muitos paquistaneses. Em vez de empregos, escolas e hospitais, eles estão vendo uma escalada dos ataques terroristas.
"O povo paquistanês se convencerá das boas intenções americanas quando as virmos na vida real", disse Khan. "Há uma longa história de mau comportamento americano para com nosso povo."
Tradução: George El Khouri Andolfato