A América Latina enfrentou tão bem a crise financeira mundial que vários países estão pagando o preço do sucesso com a rápida valorização das suas moedas e uma grande entrada de capital estrangeiro que pode conjurar o espectro de futuras bolhas econômicas, afirma Nicholas Eyzaguirre, diretor da seção do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI).
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"A direção do vento muda tão rapidamente que nós estamos começando a ficar meio preocupados com a possibilidade de a situação tornar-se boa demais nesses países", disse Eyzaguirre em uma entrevista ao "Financial Times".
O Brasil, o Chile, a Colômbia e o Peru beneficiaram-se de sólidas políticas macroeconômicas e fortes relações com os mercados financeiros durante a crise, afirmou o diretor do FMI.
Ele elogiou também a Bolívia, que vinha mantendo uma relação problemática com o FMI e as organizações multinacionais de empréstimo sob a liderança do presidente esquerdista Evo Morales, que abalou os investidores internacionais em 2006 com a nacionalização da indústria de hidrocarbonetos.
"Eles foram bastante responsáveis em termos de políticas macroeconômicas. O país conta com alguma reserva monetária interna para dar continuidade às suas políticas anticíclicas, e isso, aliado ao que está ocorrendo na área de comércio - eles estão melhorando -, proporcionará a eles uma margem de manobra suficiente", disse Eyzaguirre, referindo-se à Bolívia, que deverá atingir um crescimento de 3% até o final deste ano.
Eyzaguirre esteve em Lima na quinta-feira (29/10) para a conferência do FMI sobre o cenário regional, e lá, em reuniões com membros do governo, ele discutiu como gerenciar uma esperada recuperação vigorosa dos investimentos privados no Peru e outros países.
"Se tanto o setor público quanto o privado continuarem a gastar muito, os bancos centrais serão obrigados a elevar as taxas de juros para evitar a inflação, e é aí que será atraído ainda mais capital do exterior", argumentou Eyzaguirre.
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Embora não exista nenhuma "bala de prata" para acabar instantaneamente com o problema, ele recomendou que os países que se deparam com uma entrada maciça de capital contenham o estímulo fiscal excessivo e abandonem momentaneamente as medidas para elevar a liquidez. Eyzaguirre disse ainda que medidas para controle de entrada de capital seriam também "perfeitamente aceitáveis", e recomendou que os bancos centrais permitam também uma certa flexibilidade das taxas de câmbio, e até mesmo volatilidade de curto prazo, para desencorajar a especulação.
O Brasil e a Colômbia já reagiram à valorização das suas moedas. O Brasil impôs uma taxa de 2% sobre os fluxos de capital nos mercados de equity e títulos, e o banco central da Colômbia anunciou que comprará dólares para conter a valorização do peso boliviano. Já o Peru indicou que poderá limitar a exposição ao risco de câmbio dos seus bancos como parte dos esforços no sentido de reduzir a volatilidade da sua moeda.
Embora o FMI preveja o retorno a um índice de crescimento de cerca de 3% na região em 2010, as nações caribenhas não acompanharão esse ritmo devido à sua dependência do turismo e das transferências de fundos - dois setores atingidos duramente pela crise financeira nos Estados Unidos e na Europa - e também por causa do nível elevado de endividamento. O México também foi bastante atingido devido aos seus fortes vínculos com os Estados Unidos, o que provocou uma acentuada desaceleração do crédito aos consumidores e a deterioração das condições do mercado de trabalho. Além disso, o país sofreu um grande impacto com a pandemia de gripe suína.
"É improvável que Venezuela, Argentina e Equador venham a desfrutar integralmente dos benefícios de uma esperada elevação dos preços de commodities porque eles não possuem uma relação fluida com os mercados financeiros internacionais", afirmou Eyzaguirre.
Tradução: UOL