15/07/2004
Corrupção ataca serviços de inteligência de EUA e Reino Unido
Uso político atribui métodos e funções estranhas às práticas das agências nacionais
Lawrence Freedman*
Especial para o FT
Têm sido tempos difíceis para as agências de inteligência. Nesta quarta-feira (14/07), lorde Butler admitiu "falhas sérias" na inteligência britânica usada para apoiar a guerra contra o Iraque. As agências americanas se saíram pior que suas primas britânicas. Na semana passada, a Comissão de Inteligência do Senado dos Estados Unidos criticou a Agência Central de Inteligência (CIA) por opiniões que foram "ou exageradas ou não sustentadas pelos relatórios de inteligência subjacentes".
Ainda falta o relatório da comissão independente que investiga os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Agora a CIA está desmoralizada e seu diretor, George Tenet, saiu. Lorde Butler decidiu que a inteligência britânica não deve sofrer o mesmo destino. Sejam quais forem os erros cometidos pelo Comitê Conjunto de Inteligência (JIC na sigla inglesa), ele apóia seu ex-presidente, John Scarlett, para próximo diretor do MI6.
Numa formidável história narrativa do desenvolvimento tanto das políticas como das avaliações, o relatório de lorde Butler deixa claro que a tese da inteligência foi sincera, e não fabricada. Ele chama a atenção para o poder das suposições herdadas, confirmadas em diversas avaliações e, neste caso, reforçadas pelo "pensamento em grupo" em escala internacional.
Sua crítica é muito menos danosa que a do Senado americano em relação à CIA: sobre outras questões prementes a JIC acertou muito; com o Iraque ela teve a intenção certa, mas as capacidades erradas, e aqui o problema foi a insuficiência da inteligência, e não sua má interpretação. Não houve a mesma dependência de emigrantes que nos Estados Unidos.
Era prudente e seguro, diante do histórico de Saddam Hussein, supor que ele estava preparando seus velhos truques. Suposições otimistas teriam sido irresponsáveis, já que o objetivo era manter a pressão sobre o Iraque para acatar as resoluções do Conselho de Segurança e colocar novamente os inspetores da ONU no país.
Mas a suposição não era totalmente segura como racionalização para uma guerra controversa. Seria necessário um chefe de inteligência corajoso para decidir nessa altura que todas as avaliações anteriores estavam erradas. No entanto, teria sido sábio admitir a extensão da incerteza, especialmente quando estava sendo mostradas publicamente, e, depois que os inspetores da ONU voltaram e pouco encontraram, foi estranho não rever as avaliações.
O relatório deixa claro um motivo pelo qual as suposições herdadas não foram testadas com rigor suficiente - a agenda da JIC havia ficado extremamente cheia. Para os que se incomodavam com as armas de destruição em massa, havia o Irã e a Coréia do Norte, as iniciativas de A.Q. Khan, o cientista paquistanês, de disseminar a tecnologia nuclear, tensões perigosas entre a Índia e o Paquistão e o temor constante do próximo ataque da al Qaeda.
Tudo isso reforçou a lição dos anos 90: toda vez que a comunidade de inteligência teve a oportunidade de examinar profundamente uma questão, a começar pela posição nuclear do Iraque depois da Guerra do Golfo de 1991, as coisas pareciam piores do que se supunha anteriormente.
Essa agenda lotada não evaporou, e a JIC será chamada a comentar no futuro. As verificações institucionais sugeridas pelo relatório Butler são bastante sensatas, mas a principal verificação provavelmente será uma pequena voz dizendo "lembrem-se do Iraque" a cada tentativa de fazer afirmações ousadas sobre uma ameaça em desenvolvimento. O risco agora é de cautela excessiva, de modo que perigos reais não sejam notados ou advertências, desprezadas.
Essa saga adverte sobre como a inteligência, quando usada para servir a um objetivo político maior, pode ser corrompida. Ao permitir que o governo Blair defendesse sua tese sob a aprovação da JIC, lorde Butler nota, "colocou-se mais peso na inteligência do que ela podia suportar".
O formato dossiê não se presta a nuances e sutilezas que um oficial de inteligência tarimbado possa inserir numa avaliação, mesmo aparentemente simples. Mas uma separação rígida também pode ser disfuncional, porque as agências precisam conhecer as questões que perturbam os criadores de políticas.
Também não é possível retornar ao relacionamento tradicional que dependia de níveis de segredo que não podem mais ser mantidos. Nesta era de insegurança, muita atividade parece se voltar para a inteligência. Vôos são cancelados, indivíduos presos, operações militares autorizadas com base na "última inteligência". Foi a relutância do público a aceitar as afirmações de perigo que levaram ao dossiê do governo de setembro de 2002.
Lorde Butler oferece duas possibilidades para o futuro, além de uma diretriz geral para reconhecer as limitações. O governo pode elaborar seus próprios dossiês, com o JIC verificando qualquer afirmação baseada em inteligência, ou o JIC "poderia preparar e publicar uma avaliação autônoma, incluindo todas as suas advertências e explicações normais, deixando que outros colocassem esse documento num contexto político mais amplo".
Lorde Butler prefere enfaticamente o primeiro rumo, mas ele apresenta o risco de uma repetição dessa triste história. A inteligência não deve ser forçada a voltar para sua concha, e sim ser puxada ainda mais para fora.
Não muito tempo atrás, nenhum governo britânico sequer admitiria a existência de órgãos de inteligência. Agora estes têm seus próprios sites na web. Não deveria ser um grande avanço que suas avaliações, inevitavelmente higienizadas para proteger fontes e com amplo respeito a incertezas inerentes, fossem divulgadas como fato corriqueiro. Seria melhor para o governo tentar compartilhar a inteligência sobre o Iraque do que mantê-la escondida. Mas, para evitar futuras acusações de falsidade, as agências devem aprender a falar por si mesmas.
*Sir Lawrence Freedman é professor de estudos da guerra no King's College em Londres.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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