Parentes das vítimas de 11 de setembro testemunharam na quarta-feira (19/4) pela prisão perpétua de Zacarias Moussaoui, dizendo aos jurados que tinham procurado superar suas terríveis perdas com esforços continuados para combater o ódio e a incompreensão que envolveram os ataques suicidas.
A equipe de defesa de Moussaoui, chegando ao fim dos esforços para impedir a execução do agente da Al Qaeda, voltou-se ao testemunho emocionante de parentes das vítimas. Os advogados de defesa procuraram contrapor os relatos comoventes oferecidos anteriormente por mais de três dúzias de familiares que testemunharam em favor da acusação.
"Tive uma mistura de raiva e sentimentos assassinos e profunda tristeza", lembra-se Donald Bane, padre episcopal aposentado de um subúrbio de Nova York que perdeu seu filho, Michael, 33, no World Trade Center. Mas, "em certa altura, você entende que tem uma escolha, que pode nutrir esses sentimentos" ou "pensar em formas de aprender e entender mais e construir pontes de compreensão com pessoas que podem fazer esse tipo de coisa", acrescentou Bane.
A família lançou uma bolsa, "Keep the Music Playing", Universidade Estadual de Nova York, em memória do filho. O programa é similar ao criado por Bane na escola de sua esposa em Ohio, em 1948, depois que ela morreu dando à luz a Michael.
Quando passou por Moussaoui na saída da corte, Bane olhou calma e longamente para Moussaoui, sentado ali perto, vestindo um macacão verde da prisão com a palavra "prisioneiro" escrita nos ombros.
Advogados de defesa apresentaram retratos de família de cada vítima nos monitores da corte enquanto os membros da família descreviam o impacto de suas perdas e seus esforços para honrar as vítimas.
Os jurados devem começar as deliberações no início da próxima semana para decidir se vão sentenciar o militante francês Moussaoui, 37, à morte ou à prisão perpétua por sua colaboração nos ataques de 11 de setembro.
Os jurados concluíram que o réu mentiu aos investigadores depois de sua prisão, no dia 16 de agosto de 2001, e assim evitou que as autoridades impedissem os seqüestros da Al Qaeda.
Os testemunhos dos familiares nos dois lados do caso seguiram a diretriz para da corte federal que pede que não recomendem uma sentença durante seu testemunho. Nenhuma das testemunhas citou Moussaoui pelo nome.
Robin Theurkauf, de Stamford, Connecticut, que perdeu o marido, Thomas F. Theurkauf Jr., 44, no World Trade Center, disse que ela e os três filhos "não tinham a menor idéia sobre como prosseguir, exceto prosseguir", depois de enterrar os restos do marido perto de seus pais, em Glastonbury, Connecticut.
Mas Robin Theurkauf, professora de ciências políticas na Universidade de Yale mudou de orientação depois de participar do estudo da Bíblia da Escola de Yale e trabalhar pela Corte Criminal Internacional que adjudica violações de direitos humanos.
"Uma das coisas que a Bíblia explica é a queda da humanidade, que somos todos pecadores e pessoas quebradas", testemunhou Theurkauf. "Mas por outro lado, somos todos filhos de Deus e amados por Deus."
Depois dos testemunhos, Moussaoui proclamou, quando foi escoltado para fora da sala para o recesso da tarde: "Deus amaldiçoe os EUA".
Marilynn Rosenthal, professora de sociologia médica da Universidade de Michigan em Ann Arbor, disse que sua família tinha promovido a criação de uma palestra anual na Escola Gerald R. Ford de Política Pública para promover a compreensão entre as pessoas, em um esforço de homenagear o filho, Joshua A. Rosenthal, 44, de Nova York, que morreu no World Trade Center.
"Nós temos um sentimento muito forte de que não vamos ser levados pelo redemoinho de tristeza, raiva e frustração", disse Rosenthal. "Queremos que algo de bom saia do que aconteceu com Josh, com as outras vítimas e com o país."
Patricia Perry de Seaford, N.Y., que perdeu o filho John Perry, oficial de polícia que ia iniciar carreira de advogado, disse que a faculdade de direito da Universidade de Nova York criou o Prêmio anual John Perry para o aluno que mais refletisse a devoção de Perry aos direitos e liberdades civis.
Mas Perry disse que a lembrança que mais tem significado para ela são os pacotes periódicos que recebe de crianças que escrevem para as vítimas de 11 de setembro. "Escrevi uma carta a cada criança", disse Perry. "Manteve-me ocupada."
Orlando Rodriguez, imigrante cubano que perdeu o filho Gregory E. Rodriguez, 31, de White Plains, Nova York, no World Trade Center, disse que tinha procurado perpetuar o entusiasmo de seu filho por todas as pessoas, independentemente da origem.
"Ele tinha a capacidade de ver as pessoas como seres humanos, independentemente de suas falhas", lembra-se Rodriguez.
Moussaoui manteve o hábito de fazer proclamações enérgicas quando deixa a corte.
"O sonho de Moussaoui ou o sonho americano -um ou outro", declarou o conspirador confesso no final da sessão de quarta-feira, em uma referência ao seu sonho de que será solto da prisão, em uma troca de prisioneiros antes que o presidente Bush deixe o cargo, em 2009.
Os membros da família que testemunharam na quarta-feira pareciam menos emotivos que os que tinham testemunhado pela pena de morte para Moussaoui, que chegaram a chorar durante a audiência.
Bane, que perdeu o filho, disse aos jurados na quarta-feira que sua família continua dando passos para "celebrar a vida" e apoiar esforços internacionais para ajudar as pessoas a "falarem umas com as outras e tentarem resolver seus problemas e assim evitarem matar umas as outras".
"Acho que é a isso que devemos dedicar nossas vidas", concluiu.
Bane disse que ele e sua segunda mulher, Arlene, que se tornou mãe para Michael, hoje estão aposentados em uma fazenda em Wyoming, onde esperam o nascimento de um potro. Bane disse que, dependendo do sexo, será chamado "A Senhora de Michael" ou "O Mensageiro de Michael".