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06/01/2005
Médicos sem Fronteiras recusa doações à Ásia

Katrin Bennhold
Em Paris


A organização Médicos sem Fronteiras, prêmio Nobel da Paz, gerou uma tempestade de controvérsias com sua decisão de parar de aceitar doações para as vítimas do tsunami na Ásia. O anúncio acrescentou uma nova dimensão à generosidade sem precedentes demonstrada nos países ricos em resposta ao desastre.

A MSF diz que os 40 milhões de euros, ou cerca de R$ 140 milhões, que coletou desde que as ondas mortais atingiram 13 nações no Oceano Índico e mataram cerca de 150.000 pessoas no dia 26 de dezembro, são suficientes para financiar seu trabalho na região. Apesar de outras áreas do mundo terem extrema necessidade de doações, como Darfur e a República Democrática do Congo, a MSF prometeu não desviar verbas de uma região para outra.

"É a primeira vez que tomamos tal decisão. Pode parecer contrária a mobilização geral, mas é uma questão de honestidade: não queremos incomodar o público com operações que já estão financiadas", disse Pierre Salignon, diretor geral da MSF, no site da organização.

O anúncio colocou em evidência a diferença entre as doações recebidas para o desastre asiático, altamente divulgado pela mídia, e as crises em áreas devastadas pela pobreza crônica e guerra civil, que receberam pouca atenção e verbas durante os anos. A decisão também atraiu críticas de outros grupos de assistência menos afluentes, que disseram que colocava em risco os fundos vitais para seus esforços de ajuda de longo prazo.

Sylvain Trottier, porta-voz da organização não governamental francesa Action Contre la Faim, dedicada a aliviar a fome dos países em desenvolvimento, disse que ficou "chocado" com a forma como a MSF apresentou sua decisão.

"É louvável que eles tenham fundos suficientes e sejam honestos a respeito", disse Trottier. "Mas seu anúncio parece sugerir que os outros não são honestos. Realmente tememos que essa atitude assinale para o público que todas as ONGs têm dinheiro suficiente para a Ásia, o que simplesmente não é verdade."

A ACF até agora coletou 2,6 milhões de euros (em torno de R$ 9,3 milhões) para o trabalho de alívio do tsunami, e quase tudo já foi gasto. Os projetos de longo prazo da organização, que envolvem purificação de água e a reconstrução dos meios de vida das pessoas, ainda não foram financiados, disse Trottier.

Na Alemanha, outro grupo de combate à fome, Deutsche Welthungerhilfe, está em situação similar. Em sua sede em Bonn, a decisão da MSF também gerou espanto.

"Precisamos de cada centavo", disse Hans-Joachim Preuss, secretário-geral da Welthungerhilfe. "A MSF não deixou claro que sua organização que se concentra apenas em questões de emergência? Nós fazemos o trabalho de longo prazo".

De acordo com Preuss, a MSF deveria ter associado a suspensão de seu fundo de emergência para a Ásia com um apelo para que as doações fossem enviadas a outras organizações.

Em um sinal da amplitude do mal-estar gerado pelo anúncio da MSF na comunidade de ajuda humanitária na Europa, o governo francês interveio na quarta-feira (5/1), instando cidadãos e empresas a continuarem doando.

"Há organizações não governamentais que precisam de fundos. Então, as contribuições são sempre bem vindas", disse Jean François Cope, ministro de orçamento da França. "Temos que continuar enviando contribuições às associações que precisam de verbas."

Tragédia e mídia

Muitos admitem que a decisão da MSF gerou um debate necessário sobre a ligação entre a cobertura das crises pela mídia e a extensão da resposta de caridade. "A mídia mantém o assunto na TV, e isso tem um enorme papel", disse Devorah Goldburg, porta-voz da Cruz Vermelha Americana em Washington.

"As pessoas são bombardeadas com as imagens, dia e noite." Além da escala da destruição causada pelas ondas, a presença de milhares de turistas ocidentais permitiu que muitos americanos e europeus se identificassem com a crise, o que ajudou a reforçar as doações significativamente, dizem os especialistas.

Outro fator que contribuiu para a generosidade é o fato de as vítimas do desastre natural serem destituídas de bagagem política, diferentemente de outros povos em dificuldades que passam por guerras civis e outros conflitos.

Além disso, o momento para a caridade foi excepcional pelo fato de as ondas terem ocorrido um dia depois do Natal, dizem os especialistas. A MSF arrecadou 40 milhões de euros em oito dias para a Ásia, mas precisou de dois meses para arrecadar 650.000 euros (aproximadamente R$ 2,3 bilhões) para as vítimas da guerra civil em Darfur.

Depois do terremoto em Bam, no Irã, há um ano, ela recebeu apenas 600.000 euros (em torno de R$ 2,1 milhões). E no que se refere à desnutrição que mata centenas de milhares de pessoas em locais como Mongólia, Haiti e Congo, as doações são mínimas.

"A verdadeira tragédia é que, todos os dias, dezenas de milhares de pessoas morrem de fome e doenças relacionadas à pobreza", disse Preuss. "Se você adicionasse um mês dessas mortes ultrapassaria o total da tsunami, mas a fome e a guerra civil são muito menos sexy para a mídia."

Tradução: Deborah Weinberg

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