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16/06/2005
Indianos atribuem estupros à roupa das mulheres

Amelia Gentleman
Em Nova Déli


Nada de decotes, pernas de fora ou umbigos aparecendo. As universitárias de Déli estão enfrentando novas restrições de vestuário, em meio a histeria crescente depois de uma série de estupros violentos na capital.

A escolha do que vestir tornou-se um dilema politicamente carregado para as estudantes da cidade, depois que as universidades recomendaram que substituíssem seus vestidos pela modéstia dos conjuntos de Salvar-kameez para se protegerem da violência sexual.

A sugestão de que as mulheres devem alterar sua aparência para se protegerem foi recebida com ressentimento por muitas jovens da cidade, irritadas com a implicação de que seus guarda-roupas são de alguma forma responsáveis pela onda recente de violência.

O escritório do vice-diretor de uma faculdade em Déli foi saqueado por alunos irritados no final de semana, quando saiu nos jornais que ele tinha recomendado a adoção de um código de vestimenta proibindo "vestidos reveladores" dentro dos limites da universidade.

Os manifestantes exigiram uma desculpa por escrito de Virender Kumar, vice-diretor de Kirori Mal College, e deram à universidade um ultimato de 10 dias para repreender o funcionário, antes de decidirem se continuarão seus protestos. Kumar alegou que os jornais o haviam citado erroneamente, mas outros professores fizeram sugestões similares nos últimos dias.

A atual obsessão com a forma das mulheres se vestirem em Déli tem suas raízes em um amplo debate sobre quem deve ser culpado pelo problema de violência contra as mulheres na Índia moderna e como o país deve responder a uma série de casos de estupro amplamente publicados.

Em meados de maio, uma universitária de Déli foi seqüestrada quando chegava em casa com um amigo de madrugada. Apesar de o amigo alertar a polícia imediatamente, esta demorou a agir. A vítima ficou quatro horas nas mãos dos raptores e estuprada em série, antes de seus atacantes a liberarem no mesmo local, do lado oposto da sede da Unidade de Polícia Para Crimes contra as Mulheres.

Inicialmente, houve ampla crítica da mídia pela incompetência da polícia, mas foi logo seguida de especulações sobre o papel da forma de vestir das mulheres em provocar um ataque.

Outros questionaram por que mulheres saem em uma hora tão estranha e instaram as mulheres a ficarem em casa depois do escurecer. Assim, começaram os debates sobre os males da bainha alta, do tipo que não se vê nos EUA ou na Europa desde os anos 70, quando o movimento feminista resolveu a questão.

Quando uma menina de 16 anos foi estuprada em Mumbai por um policial no início de maio, um partido hindu extremista influente, Shiv Sena, disse que as mulheres tinham a responsabilidade de se vestir corretamente e declarou que "os jeans de cintura baixa e as mini-saias" foram responsáveis por uma ruptura na cultura indiana.

"Em nome da moda, todos os dias, a natureza reduzida das roupas das meninas mostra para onde caminha a sociedade", disse o jornal do partido. "Parece haver uma competição entre jovens para mostrar sua roupa de baixo em nome da moda 'abaixo da cintura'. Se um homem for incitado por essas roupas, como se pode culpá-lo?"

Mesmo a ministra responsável por assuntos da mulher, Kanti Singh, disse recentemente que a forma de vestir das mulheres incitam os homens à violência. "Os guardiões das jovens devem ver que tipos de roupas elas vestem quando saem de casa", disse ela.

"Converso sempre com universitárias, e algumas delas disseram que as meninas também são responsáveis por provocar os homens pela forma que se vestem." A sugestão de adoção de um padrão de vestimenta provocou irritação entre feministas.

"Este é um problema masculino, disse Chitra Srivastava, professora de psicologia em uma das universidades privadas de Déli e diretora de uma associação de mulheres. "Não faz sentido culpar os vestidos ou o fato das universitárias ficarem na rua até tarde."

A reação confusa e ansiosa do público em relação aos recentes casos de estupro oferecem uma visão das contradições de um país em transformação. A sociedade indiana urbana está entre duas eras.

Enquanto a grande maioria da sociedade continua compromissada com os valores tradicionais rurais, a juventude das metrópoles vive uma crise de identidade, tentando esclarecer que tipo de estilo de vida aspiram, entre a reserva da geração dos pais e uma cultura moderna de permissividade e emancipação.

Os limites morais estão mudando rapidamente nas cidades indianas, enquanto o país tenta lidar com as conseqüências sociais de uma revolução econômica que introduz novos valores culturais junto com práticas de trabalho importadas.

Padrões estrangeiros de comportamento social são alardeados toda noite na televisão, para os que têm acesso à televisão via satélite. "Sex and
the City" tornou-se um programa de sucesso em lares onde a própria menção do sexo continua um tabu.

O namoro instantâneo é a mais nova tendência para os jovens adultos de Deli, em uma nação onde a maioria da população ainda prefere o casamento arranjado.

Pelos padrões ocidentais, os guarda-roupas das estudantes de Déli dificilmente podem ser descritos como audaciosos; as que optam por estilos ocidentais usam um visual estilo Gap, distante das fantasias de Britney Spears.

Uma recente pesquisa conduzida pelo India Today revelou que 71% das mulheres indianas se sentem incapazes de vestir o que gostariam por causa das restrições culturais. As universitárias se auto-censuram em termos de moda.

Richa Verma, aluna de história na Universidade de Déli, disse: "As pessoas tiram conclusões sobre as meninas que usam camisetas colantes e vestidos muito curtos; esse tipo de roupa de fato excita os meninos", disse ela.

"Os professores daqui dizem às alunas quando consideram suas roupas indecentes. Mas eu me sinto muito mais confortável com roupas apropriadas, de qualquer forma."

Shobhaa De, autora de um guia recém publicado de auto-ajuda para as relações modernas na Índia, disse que não via nada de errado na adoção de um código de vestimenta pragmático. "Minha faculdade teve um, certa época.

As meninas não podiam usar saias curtas, mangas curtas ou até a cor vermelha. Essas coisas distraem os rapazes, que ficam olhando" e acabam levando ao abuso sexual, disse ela. "Prefiro que minha filha vista algo apropriado do que se arrisque por vestir uma mini-saia".

Para Narinder Tokas, o presidente do sindicato de universitários de Déli, o debate é anacrônico. "Esta é uma abordagem muito antiquada. Os alunos da Universidade de Déli têm atitudes modernas, ocidentalizadas, e não é correto forçá-los a vestir roupas tradicionais", disse ele.

"Se quisermos dar maior segurança às mulheres, então devemos ter policiais e câmeras no campus."

Tradução: Deborah Weinberg

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