24/06/2005
Até a China tem imagem externa melhor que a dos EUA
Brian Knowlton
O antiamericanismo que cresceu em grande parte do mundo no decorrer da guerra dos Estados Unidos no Iraque dá sinais modestos de estar decrescendo, embora uma imagem nitidamente negativa persista no mundo muçulmano. E atualmente vários europeus têm uma imagem da China mais favorável que a dos Estados Unidos, segundo uma grande e recente pesquisa internacional de opinião.
O retrato das opiniões mundiais foi obtido da Pesquisa Global de Opiniões Pew com quase 17 mil pessoas nos Estados Unidos e em 15 outros países: Reino Unido, Canadá, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Jordânia, Líbano, Marrocos, Paquistão, Polônia, Rússia, Espanha e Turquia.
A pesquisa, realizada de 20 de abril a 31 de maio, revelou dúvidas, temores e ressentimentos persistentes com relação aos Estados Unidos, mas também uma opinião menos desfavorável em uns poucos países, com relação ao mesmo período no ano passado, geralmente vinculada a políticas específicas.
Por exemplo, 79% dos indonésios disseram ter uma opinião mais favorável a respeito dos Estados Unidos como resultado da ajuda que os norte-americanos forneceram após o tsunami de 26 de dezembro. Os indianos pareceram estar satisfeitos com os laços econômicos mais estreitos com os Estados Unidos, e os russos com a cooperação nos setores de comércio e combate ao terrorismo.
"O antiamericanismo na maior parte do mundo que pesquisamos parece bem arraigado", diz Andrew Kohut, diretor do Pew Center. "Mas há alguns sinais altamente positivos quanto ao progresso na Índia, na Rússia e na Indonésia".
"Além disso, disse ele, resultados preliminares do Marrocos sugerem melhoras significativas na imagem dos Estados Unidos naquele país. O índice de opiniões favoráveis com relação aos Estados Unidos - embora bem inferiores aos níveis de 2002, antes de ter surgido a divergência transatlântica devido à questão iraquiana - melhorou ligeiramente até mesmo na França e na Alemanha, já que ambos os lados procuraram curar as feridas originais.
Mesmo assim, entre os aliados tradicionais dos norte-americanos, somente o Reino Unido e o Canadá continuaram a ter uma imagem geral positiva com relação ao país. E em várias nações a impopularidade do presidente George W. Bush continua sendo um fator que salta aos olhos.
No Reino Unido, no Canadá e na França, cerca de três quartos dos entrevistados disseram que a reeleição de Bush fez com que se tivessem uma opinião menos favorável em relação aos Estados Unidos. Os canadenses foram os que mostraram mais propensão a enxergarem os estadunidenses como rudes e violentos. Em todo o mundo prevalece a sensação generalizada de que os Estados Unidos dão pouca importância aos interesses de outros países, embora a Índia seja uma exceção.
Ao lhe perguntarem o que poderia ser feito para melhorar a imagem dos Estados Unidos, o ex-senador John Danforth, co-patrocinador da pesquisa Pew, se referiu à guerra no Iraque e disse: "Pode ser que o preço que se paga ao agir com energia com relação a fatos identificados com problemas seja a impopularidade".
Danforth, que renunciou ao cargo de embaixador dos Estados Unidos na Organização das Nações Unidas (ONU) em janeiro, acrescentou: "Os Estados Unidos se impõem, e a nossa visão é que não podemos ser passivos com a ameaça do terrorismo. A resposta dos outros países quando a situação fica crítica é se retrair e dizer que não se deve mexer em ninho de vespas. Mas a pergunta é, o que deve ser feito?".
Os norte-americanos pareceram estar bem conscientes do seu problema de imagem. Somente um entre cada quatro norte-americanos entrevistados acredita que os Estados Unidos são bem quistos no exterior (surpreendentemente, os alemães subestimaram a sua própria popularidade. Embora somente a metade deles acredite que o país é bem quisto, a Alemanha recebeu o índice mais favorável das cinco potências econômicas que constaram da pesquisa, especialmente dos seus inimigos históricos, os franceses).
Grandes maiorias em vários países disseram que gostariam que uma outra potência militar emergisse para contrabalançar o poderio dos Estados Unidos - mas a maior parte dos entrevistados, especialmente no Ocidente, não gostariam que esse país fosse a China. "Há realmente uma forte oposição à idéia de a China competir com o poder militar norte-americano", diz Kohut. "Mesmo que a maior parte do mundo não goste do fato de os Estados Unidos serem uma potência militar hegemônica". Sete em cada dez entrevistados no Reino Unido, na França e na Rússia se opuseram à ascensão de uma superpotência chinesa, assim como o fizeram oito entra cada dez alemães e norte-americanos.
Mas a idéia mostrou ser bem mais popular em países em desenvolvimento. Maiorias na Indonésia, Jordânia, Paquistão e Turquia são a favor disso. A maior parte dos europeus ocidentais prefere uma maior independência dos Estados Unidos nas questões de segurança e diplomáticas.
Uma maioria esmagadora de 85% dos franceses disse que seria bom se a União Européia emergisse como um rival militar dos Estados Unidos. A pesquisa tem uma margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos. Os chineses, talvez refletindo o seu crescimento dinâmico e melhoria de estilo de vida, são, dentre todos os povos, os que têm a melhor imagem de si próprios, ficando à frente dos norte-americanos.
Os europeus, especialmente franceses e alemães, expressaram uma preocupação substancial quando às condições nacionais. Na verdade, a maior parte dos povos se mostrou insatisfeita com as condições locais (Jordânia, Paquistão e Espanha foram exceções).
Os descontentes mais pronunciados foram França, Alemanha e Rússia, onde sete em cada dez estão insatisfeitos com o próprio país, e a Polônia, onde mais de oito em cada dez expressa insatisfação. A imigração continua sendo uma questão embaraçosa. Mais da metade dos alemães disse que a imigração originária do Oriente Médio e do Norte da África é um fato ruim; e somente um terço afirmou que é algo de positivo. Eles se mostraram ainda menos favoráveis a imigração originária da Europa Oriental.
O país europeu mais hospitaleiro com os imigrantes é a Espanha, onde dois terços da população disseram que a imigração do norte da África e do Oriente Médio é uma coisa boa, seguida pelo Reino Unido, onde 61% apóiam a imigração. Embora os Estados Unidos sejam tradicionalmente vistos como a terra da oportunidade, povos da maioria dos países - ao serem perguntados para onde aconselhariam que um jovem se mudasse a fim de ter uma vida agradável - escolheram outros destinos.
Austrália, Reino Unido, Canadá e Alemanha foram citados com mais freqüência do que os Estados Unidos. Bush foi citado como sendo o único fator mais importante por detrás dos sentimentos antiamericanos. Fora dos Estados Unidos, Bush conta com um apoio majoritário apenas na Índia (54%).
No geral, a imagem mais negativa com relação aos Estados Unidos foi encontrada nos países muçulmanos. Dois países imprensados na guerra contra o terrorismo, Turquia e Paquistão, foram os que demonstraram ter a imagem mais negativa. Somente uma em cada cinco pessoas em cada um desses países disse ver os Estados Unidos de forma favorável. Kohut disse ter ficado um pouco surpreso com a atitude turca, já que os Estados Unidos apoiaram entusiasticamente o ingresso da Turquia na União Européia. Ele atribuiu isso às diferenças amargas com relação à guerra no Iraque.
No mundo muçulmano e na Europa, a guerra no Iraque continua tão impopular como era em 2003 e 2004.
A imagem dos Estados Unidos no Paquistão se tornou abruptamente mais negativa depois das alegações de que guardas norte-americanos na Baía de Guantánamo, em Cuba, abusaram do Alcorão. Apesar da oposição à guerra no Iraque, uma maioria na maior parte dos países continua a apoiar a campanha liderada pelos Estados Unidos contra o terrorismo. Uma exceção foi a Espanha, onde os ataques terrorista em Madri, em 11 de março de 2004, podem ter contribuído para o desaparecimento quase total do apoio às medidas norte-americanas.
A confiança em Bush é ínfima em países muçulmanos como a Jordânia, onde só 1% dos entrevistados expressou confiança no presidente dos Estados Unidos. Já o presidente Jacques Chirac, da França, recebeu um voto de confiança de 56% dos entrevistados jordanianos.
Muitos entrevistados em países predominantemente muçulmanos pareceu temer que as forças armadas dos Estados Unidos, tendo invadido as nações muçulmanas do Afeganistão e do Iraque, poderiam ser utilizadas contra eles. "Uma parcela surpreendente de 80% dos indonésios disse que se preocupam pelo menos um pouco com a possibilidade de que um dia as forças armadas dos Estados Unidos ameacem o seu país, incluindo 38% que disseram se preocupar intensamente com tal possibilidade", disse o relatório.
Não obstante, Kohut afirmou: "Existe uma pequena indicação de algum raio de luz no mundo muçulmano, ainda que sejamos intensamente detestados pelas populações islâmicas".
Segundo ele, aqueles muçulmanos que são otimistas quanto às perspectivas de democracia em seus países estão dando algum crédito aos Estados Unidos, disse ele. A reação à ajuda às vítimas do tsunami, também, enviou uma importante mensagem aos elaboradores de políticas: "Somos capazes de mexer os ponteiros no mundo islâmico por meio de ações e políticas tidas como positivas".
Quando solicitado a indicar um único fato que poderia melhorar a imagem dos Estados Unidos no mundo, a resposta de Kohut foi simples: "A situação no Iraque tem que melhorar".
Resultados completos da pesquisa Pew estão disponíveis online no endereço http://www.pewglobal.org.
Tradução: Danilo Fonseca
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