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11/11/2005
Jovens de minorias têm menos perspectivas

Katrin Bennhold
em Creteil, França


Quando Amir Ben Merzoug começou a estudar administração pública na Universidade de Creteil, pensou que estava no caminho certo para sair do subúrbio operário onde mora, no leste de Paris.

Depois de quatro anos e de dezenas de aplicações para empregos sem nenhuma resposta, Merzoug, 23, desistiu de procurar trabalho em escritórios ou restaurantes, onde teria contato direto com clientes. Ele resignou-se a procurar vagas em empresas de tele-marketing, para financiar o fim de seus estudos.

"Ao menos os centros de atendimento telefônico não ligam se você tem cara de árabe ou africano, porque ninguém te vê. Mas alguns pedem para você se apresentar com um nome francês", disse Merzoug, francês de descendência argelina.

Duas semanas de distúrbios expuseram um coquetel explosivo de pobreza e exclusão nos subúrbios em torno das principais cidades francesas. No entanto, a violência também expôs o desemprego em massa que afeta toda uma geração de descendentes de imigrantes. Segundo os especialistas em imigração, a extensão do problema é maior na França.

O país abriga cerca de cinco milhões de muçulmanos, a maior parte de origem norte-africana. Seus filhos enfrentam dificuldades desproporcionalmente altas de emprego. Sua aparência e nomes estrangeiros tornam ainda mais difícil encontrar trabalho, e muitos moram em regiões quase sem oportunidades.

"Esses jovens estão na interseção de vários grupos que enfrentam um desemprego desproporcionalmente alto. Muitos deles estão presos em guetos sem perspectivas", disse Jean-Pierre Garson, especialista da Organização de Cooperação Econômica e Desenvolvimento (Oced).

De acordo com um estudo publicado pelo departamento nacional de estatísticas, Insee, em setembro, o índice de desemprego de filhos franceses de imigrantes entre 19 e 29 anos é de 30% -mais do que três vezes a média nacional. O contraste é ainda maior nos 751 bairros identificados pelo Ministério do Trabalho como pontos problemáticos, que incluem os que foram cena de violência nas últimas semanas: para os que têm menos de 25 anos, o desemprego chegou a 36% no ano passado, comparado com 21% da mesma faixa etária na França como um todo.

Por trás da atual crise está a explosão demográfica imigrante de 1975 a 1990, quando muitos imigrantes que vieram trabalhar na França nos anos 60 resolveram ficar, disse Garson. "Estamos vendo a chegada de um grupo enorme de jovens de origem imigrante no mercado de trabalho, enquanto o resto da população está envelhecendo e o desemprego é uma preocupação nacional", disse ele. "É uma receita para tensão."

Os filhos de imigrantes são hoje 14% de todos os nascimentos na França, uma proporção muito maior que sua percentagem da população. Atualmente, 9% dos menores de 18 anos na França são descendentes de imigrantes, mas apenas 4% dos menores de 65.

Os maiores níveis de pobreza e menores de educação entre imigrantes e seus descendentes ajudam a explicar seu maior desemprego. No entanto, isso é apenas parte da explicação, argumenta Guy Desplanques, do Insee. Há muitas histórias de jovens que não são chamados para entrevistas porque seus currículos, que incluem fotografia- mostram sua cor e descendência.

Merzoug, frustrado com muitas aplicações recusadas, resolveu procurar emprego em restaurantes com um amigo, chamado Pierre Morisot, que tem qualificações similares. Disseram a Merzoug que não havia vagas, enquanto Morisot encontrou trabalho.

"Já sabia, mas foi aí que realmente entendi: não há igualdade de oportunidades", disse Merzoug, que também trabalha como voluntário do SOS Racisme, uma organização de combate à discriminação. Seu objetivo é um dia trabalhar para um governo municipal e melhorar as oportunidades para a próxima geração nos subúrbios. O SOS Racisme inaugurou um programa piloto há três anos para aumentar o número de membros das minorias étnicas em empregos de colarinho branco. Uma dúzia de empresas francesas famosas, inclusive Axa, Schneider Electric e Pierre et Vacances- concordaram em deixar a organização participar do processo de seleção de currículos que correspondem à descrição das vagas e se comprometeram a convidar os jovens em questão para entrevistas.

O programa, desde então, já levou a mais de 100 contratações de membros de minorias étnicas, disse Dominique Sopo, presidente do SOS Racisme. Os empregadores se disseram satisfeitos com os novos recrutas. "Se os jovens dos subúrbios chegam à faculdade, pode ter certeza que são motivados e trabalhadores", disse Sopo. "O que as grandes empresas precisam entender é que os imigrantes são uma fonte de dinamismo e riqueza".

Um dos problemas são os 150.000 jovens que abandonam a escola no sistema educacional francês, ou seja, 13% de todos os jovens entre 20 e 24 anos, disse Raymond Torres, especialista em desemprego da Oced. Esses jovens têm ainda menos chances no mercado de trabalho que tem um dos mais altos salários mínimos do mundo, de 1.300 euros (em torno de R$ 3.300). Além disso, faltam orientadores profissionais para ajudar os jovens em busca de emprego.

Na segunda-feira (14/11), o primeiro-ministro Dominique de Villepin anunciou medidas para superar algumas das dificuldades. Ele prometeu aumentar o número de bolsas para candidatos de bairros pobres e prometeu montar um sistema de estágio para estudantes com dificuldades a partir dos 14 anos. Ele também disse que jovens não qualificados receberiam propostas de emprego das agências de desemprego.

Enquanto algumas organizações expressaram esperanças que os debates gerados pelos distúrbios levem os políticos a prestarem mais atenção aos problemas, muitos jovens têm uma opinião mais desanimadora. Pressi Ladji, 20, que mora em Champigny -sur-Marne, subúrbio a leste de Paris, disse que estava convencida que a violência tinha prejudicado ainda mais suas perspectivas de emprego. "Esses vândalos que estão queimando os carros não são representativos", disse Ladji, cujos pais vieram à França da Costa do Marfim. "A violência apenas reforçará os estereótipos dos subúrbios e dificultará as coisas para nós."

Tradução: Deborah Weinberg

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