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14/10/2006
Pioneiro do microcrédito recebe Nobel da paz

Amelia Gentleman, Anand Giridharadas
e Keith Bradsher, em Nova Déli


O Prêmio Nobel da Paz foi concedido na sexta-feira (13/10) ao Grameen Bank, de Bangladesh, e a seu fundador, Muhammad Yunus, por seu trabalho pioneiro com pequenos empréstimos que tirou milhões de mulheres da pobreza. O prêmio dá peso a um conceito que já vem ganhando terreno em círculos de combate à pobreza: que métodos capitalistas podem ser mais eficazes para deter a pobreza do que verbas gigantescas dos governos e organizações como o Banco Mundial.

O prêmio "admite que os recursos do mercado não são necessariamente malignos e que, se bem direcionados, os mercados podem ser usados como forças do bem", disse Nachiket Mor, diretor executivo do Icici Bank, maior instituição de empréstimo do setor privado indiano. Mor administra uma carteira de cerca de US$ 550 milhões (aproximadamente R$ 1,2 milhão) de microcrédito, baseada no modelo de Grameen. O Comitê norueguês do Nobel citou Yunus e Grameen por seus "esforços para criar desenvolvimento econômico e social a partir de baixo".

A criação de "empréstimos para pessoas pobres sem qualquer garantia financeira parecia uma idéia impossível", diz o texto. "Desde seu início modesto, há três décadas, Yunus desenvolveu o microcrédito, principalmente por meio do Grameen Bank, e tornou-o um instrumento cada vez mais importante na luta contra a pobreza". Desde sua criação, em 1983, oGrameen emitiu pequenos empréstimos que totalizam US$ 5,72 bilhões (em torno de R$ 12,6 bilhões).

Em todos os anos, com exceção de três, o banco obteve lucro. No ano passado, ganhou US$ 15 milhões (cerca de R$ 33 milhões). Yunus é considerado pelos especialistas o pai de uma idéia simples, mas revolucionária: que os pobres podem ser tão responsáveis quanto os ricos quando pegam empréstimos, mas as regras de empréstimo precisam a substituir a forma tradicional de administração de riscos pelo poder da confiança.

Até a chegada do microcrédito, os bancos do mundo em desenvolvimento em geral recusavam-se a emprestar aos pobres. Organizações de assistência humanitária dizem que a falta de acesso a empréstimos aprisiona agricultores em um ciclo de pouco investimento, métodos antiquados e rendimentos baixos. Também priva as economias em desenvolvimento de pequenas empresas viáveis.

Yunus foi inspirado a criar o Grameen Bank durante uma viagem a Jobra, uma aldeia em Bangladesh, durante a fome devastadora de 1976. Lá ele conheceu uma senhora que estava lutando para sobreviver fabricando bancos de bambu. Como ela não tinha bens, não conseguia pegar fundos em bancos convencionais e teve que procurar agiotas locais. Os juros extorsivos deixaram-na quase sem vencimentos.

Yunus, que na época era professor de economia rural na Universidade Chittagong, emprestou US$ 27 (cerca de R$ 60) de seu próprio bolso a ela e vários outros aldeões, permitindo que comprassem matéria prima para seu trabalho. Ele ficou surpreso quando viu que aqueles que pegaram dinheiro emprestado, na maioria mulheres, pagaram seus empréstimos na totalidade e no prazo. Determinado a provar que emprestar aos pobres não era uma "proposta impossível", Yunus foi de aldeia em aldeia naquele ano, oferecendo empréstimos minúsculos.

Em 1983, Yunus formalizou sua carteira de empréstimos, criando o Grameen Bank, que segundo os especialistas emprega uma inovação fundamental no crédito: em vez de administrar o risco tomando garantias, Grameen exigiu que as pessoas interessadas, na maioria mulheres, pegassem os empréstimos em grupos de cinco. Cada uma estaria então garantindo a responsabilidade das outras, e a ameaça de passar vergonha diante das colegas era freqüentemente suficiente para dissuadir as que estivessem pensando em dar calote.

"Não temos garantias, não temos referências, não temos instrumentos legais, e ainda assim funciona", disse Yunus à revista Fortune, em entrevista recente. "Desafia toda a sabedoria convencional." O banco agora informa ter 6,61 milhões de clientes que pegaram empréstimos, 97% dos quais são mulheres. Seu índice de recuperação de empréstimos é de impecáveis 98,5%. Os bancos convencionais em Bangladesh, que emprestam principalmente a famílias afluentes diante de garantias, têm índices de recuperação de apenas 45% a 50%, de acordo com Mustafizur Rahman, diretor de pesquisa do Centro de Política de Diálogo em Dacca.

O Grameen Bank também ajudou a transformar atitudes em relação às mulheres em Bangladesh, um país de maioria muçulmana, dando-lhes acesso ao crédito e melhor saúde e educação, disse Rahman. A citação do Nobel descreve o microcrédito como uma "força libertadora em sociedades onde as mulheres em particular têm que lutar contra condições econômicas e sociais repressivas."

Filho de um ourives rico, Yunus ressaltou que foi a natureza caridosa da mãe que lhe deu um sentido de dever aos pobres.

M. Morshed Khan, ministro de relações exteriores de Bangladesh, chamou o reconhecimento de grande honra para todo o país. "Grameen permanecerá um marco", disse ele em entrevista telefônica, acrescentando que conhecia Yunus desde criança. "Desde aquela época, eu sentia que seria um grande realizador e que um dia ia fazer algo importante", disse Khan, observando que era a primeira vez que um bengalês recebia um prêmio Nobel. Quanto a Yunus, o prestígio do Nobel e o prêmio de US$ 1,4 milhão (em torno de R$ 3 milhões), dividido igualmente entre ele e seu banco, devem ajudá-lo a dar um passo na direção de um objetivo distante. "Um dia", diz freqüentemente, "nossos netos irão a museus para ver como era a pobreza".

Tradução: Deborah Weinberg

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