No último domingo (5), os telespectadores da televisão norte-coreana viram cenas de uma sala de controle luminosa e de alta tecnologia, seguidas pelas imagens de um foguete decolando triunfantemente rumo ao espaço, supostamente para colocar em órbita um satélite que transmitiria músicas revolucionárias.
Os telespectadores viram ainda um outro objeto celestial - um documentário de uma hora de duração mostrou o idolatrado líder do país, Kim Jong-il, inspecionando energicamente fábricas e fazendas. Estas foram as primeiras imagens em movimento de Kim desde que ele sofreu um aparente derrame em agosto do ano passado.
A dupla propaganda tinha como objetivo claro transmitir uma impressão de força e legitimidade. Kim, que teria assistido ao lançamento, gabou-se do triunfo de "uma grande nação próspera e poderosa".
Na realidade, as imagens mostravam as ações de um Estado fraco, ou mesmo falido, cujo líder frágil percebeu a sua própria mortalidade e agora tenta urgentemente modelar a sua própria sucessão antes que saia de cena.
A combinação de armas nucleares e tecnologia de mísseis balísticos potencialmente capazes de lançar uma ogiva contra um alvo distante deve ser encarada como algo sério. O lançamento, porém, aparentemente fracassou - pela terceira vez desde 1998 - quanto à tarefa de colocar um satélite em órbita. Seria um erro engolir a isca de Pyongyang, que se auto-proclama um novo membro do clube de elite das potências espaciais e nucleares. Quem fizesse isso estaria apenas dando credibilidade às alegações de força por parte do regime.
Dentro da Coreia do Norte, o governo é incapaz de fornecer até mesmo os produtos mais básicos. Tentativas de seguir as reformas de mercado no estilo chinês foram feitas de maneira hesitante, principalmente devido ao temor de que elas pudessem levar a uma perda de controle político.
Kim Jong-il lidera um regime que é um sistema híbrido de estalinismo e despotismo oriental, no qual o poder é passado dinasticamente de pai para filho. Três filhos de Kim - nenhum deles dando a impressão de estar apto a governar - aguardam os acontecimentos debaixo das asas do pai. Os problemas de saúde de Kim aceleraram os planos para a escolha de um sucessor, obrigando-o a buscar apoio entre os militares e outros focos de poder.
Mas há sinais de que a população não acredita mais cegamente naquilo que Kim diz. Um artigo publicado na última terça-feira (7) na mídia estatal retratou Kim como uma Maria Antonieta moderna, pedindo em meio às lágrimas que o povo se sacrifique pela glória do regime.
"Ainda que tenha garantido essa enorme vitória, ele estava triste por não ser capaz de investir mais dinheiro nas condições de vida do povo, e soluçou, afirmando, 'O nosso povo entenderá'", declarou o "Rodong Sinmun", o principal jornal diário norte-coreano.
O regime está sofrendo também pressões de uma outra fonte: a Coreia do Sul. A eleição de um governo conservador na Coreia do Sul em dezembro de 2007 provocou uma mudança nas políticas daquele país, e o auxílio à Coreia do Norte passou a ser acompanhado da insistência em que Pyongyang abandone o seu programa de armas nucleares.
Enquanto isso, os norte-coreanos estão cada vez mais conscientes de que os seus irmãos na Coreia do Sul os ultrapassaram, transformando-se em uma economia de primeiro mundo e em uma democracia vibrante. Frente a esses desafios, Pyongyang optou por fechar as portas para a Coreia do Sul - e por utilizar fatos como o lançamento do míssil para reforçar a sua esvanecente afirmação de legitimidade como a líder da nação coreana.
O advento do governo Obama deveria ter sido logicamente um fato positivo para Pyongyang, que reclamava incessantemente da atitude "hostil" do governo Bush. Durante a sua recente visita à Ásia, a secretária de Estado Hillary Clinton colocou sobre a mesa de negociações todos os elementos de um acordo que os norte-coreanos insistem em dizer que buscam - um tratado formal de paz para por um fim à Guerra da Coreia, normalização das relações diplomáticas e amplo auxílio econômico e investimentos.
Mas até o momento Kim Jong-il tem se recusado a aceitar essas ofertas para negociar. Alguns especulam que o lançamento do míssil é simplesmente uma tática familiar da Coreia do Norte para acirrar as tensões, por acreditar que isso resultará em ofertas de novas concessões e auxílio.
Se este for o caso, trata-se de mais um episódio de cálculo equivocado por parte dos norte-coreanos. O governo Obama tem sido publicamente severo, atuando em conjunto com os aliados em Seul e Tóquio, enquanto se prepara para continuar com as negociações das seis partes sobre desnuclearização.
Este é o momento para manter a calma e perceber que o tempo não está do lado de Kim Jong-il e do seu abalado regime. Não há motivo para fechar nenhuma porta, mas também não há razão para entrar em pânico e ajudar inadvertidamente um Estado cujas vítimas principais são o seu próprio povo.
* Daniel Sneider é diretor-associado de pesquisa do Centro Shorenstein de Pesquisas Ásia-Pacífico da Universidade StanfordTradução: UOL