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11/05/2009

Reino no Himalaia recalcula a felicidade

International Herald Tribune
Seth Mydans
Em Timfu (Butão)
Se o resto do mundo não consegue acertar nesses tempos de infelicidade, este pequeno reino budista no alto das montanhas do Himalaia diz que está trabalhando para conseguir uma resposta.

"Ganância, a insaciável ganância humana", diz o primeiro-ministro Jigme Thinley do Butão, descrevendo o que ele acha que é a causa da catástrofe econômica do mundo que fica além dos picos cobertos de neve. "Precisamos de uma mudança", diz ele na fortaleza de paredes caiadas em que trabalha. "Temos que pensar na felicidade interna bruta."

A noção de felicidade interna bruta foi inspirada pelo antigo rei, Jigme Singye Wangchuck, nos anos 70, como uma alternativa ao produto interno bruto. Hoje, os butaneses estão refinando a filosofia que guia o país e transformando-a no que acreditam ser uma nova ciência política, e que amadureceu enquanto política de governo justamente no momento em que o mundo pode precisar dela, diz Kinley Dorji, secretário de informação e comunicação.

Seth Mydans/The International Herald Tribune 
Bandeiras com preces são agitadas pelo vento com um monastério ao fundo, em Paro, Butão

"Você pode ver onde vai parar essa dedicação total ao desenvolvimento econômico", diz ele, referindo-se à crise econômica global.
"Sociedades industrializadas decidiram agora que o PIB é uma promessa furada."

O objetivo não é a felicidade propriamente dita, explicou o primeiro-ministro, um conceito que cada pessoa deve definir para si mesma. Em vez disso, o governo tem como objetivo criar as condições para o que chama de "busca da felicidade interna bruta", numa versão atualizada da Declaração de Independência Americana.

Os butaneses começaram com uma experiência dentre de outra experiência, aceitando a renúncia do rei, do posto de monarca absoluto, e realizando as primeiras eleições democráticas do país há um ano.

A mudança faz parte da tentativa de atingir a felicidade interna bruta, diz Dorji. "Elas combinam bem, a democracia e a FIB. Ambas colocam a responsabilidade sobre o indivíduo. A felicidade é uma busca individual e a democracia é o empoderamento do indivíduo."

Foi um caso raro de um monarca que se retirou do poder por vontade própria, e um caso mais raro ainda de um rei que fez isso contra a vontade de seus súditos. Ele passou o trono para seu filho, Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, que foi coroado em novembro, com o novo papel de monarca constitucional sem poder executivo.

Talvez o Butão seja um lugar propício para reescrever as regras econômicas com agilidade - um país com um aeroporto e dois aviões comerciais, onde são necessários quatro dias de viagem em estradas montanhosas para ir do oeste para o leste.

Não mais de 700 mil pessoas moram no reino, espremidas entre as duas nações mais populosas do mundo, a Índia e a China, e sua tarefa hoje é controlar e gerenciar as mudanças inevitáveis em seu modo de vida. É um país onde os cigarros são proibidos e a televisão foi introduzida há apenas dez anos, onde a lei apoia as roupas e a arquitetura tradicional e onde a capital não tem semáforos e apenas um guarda de trânsito em serviço.

Se o mundo quiser levar a felicidade nacional bruta a sério, admitem os butaneses, precisará criar um esquema de definições e parâmetros que possam ser quantificados e medidos pelos grandes agentes da economia mundial.

"Uma vez que o Butão disse, 'OK, nós adotamos a FIB', o mundo desenvolvido e o Banco Mundial e o FMI, entre outros, perguntaram, 'Como vocês a mensuram?'", disse Dorji sobre as reações dos principais agentes econômicos mundiais. Então, os butaneses produziram um modelo intrincado de bem-estar que consiste de quatro pilares, nove domínios e 72 indicadores de felicidade.

Especificamente, o governo determinou que os quatro pilares para uma sociedade feliz são a economia, a cultura, o meio ambiente e um bom governo. E dividiu esses pilares em nove domínios: psicológico, bem-estar, ecologia, saúde, educação, cultura, padrões de vida, uso do tempo, vitalidade da comunidade e um bom governo, cada um com um jeito diferente de calcular o índice FIB.

Tudo isso deve ser analisado usando 72 indicadores. No caso do bem-estar psicológico, por exemplo, os indicadores incluem a frequência das orações e da meditação e sentimentos de egoísmo, ciúme, calma, compaixão, generosidade e frustração, assim como pensamentos suicidas.

"Contamos até as horas do dia: quanto tempo a pessoa passa com a família, no trabalho, e assim por diante", diz Dorji.

Fórmulas matemáticas foram criadas para reduzir a felicidade a seus mínimos componentes. O índice FIB para bem-estar psicológico, por exemplo, inclui o seguinte: "A soma dos quadrados das distâncias a partir dos limites de quatro indicadores de bem-estar psicológico.
Aqui, em vez de calcular a média, é feita a soma dos quadrados das distâncias a partir dos limites porque a soma dos valores é igual a 1 em cada quesito."

E isso é acompanhado por uma série de equações:

= 1 - (0,25 + 0,03215 + 0,000625 + 0)

= 1 - 0,281875

= 0,718

A cada dois anos, esses indicadores devem ser reavaliados a partir de um questionário nacional, disse Karma Tshiteem, secretário da Comissão de Felicidade Interna Bruta, sentado em seu escritório ao final de um dia duro de trabalho, que ele disse tê-lo deixado feliz.

A felicidade interna bruta tem uma aplicação mais ampla para o Butão à medida que o país luta para preservar sua identidade e sua cultura da influência do mundo.

"Como um país pequeno como o Butão lida com a globalização?", pergunta Dorji. "Vamos sobreviver sendo distintos, sendo diferentes."

Os nove domínios e 72 indicadores do Butão competem com os 48 canais de Hollywood e Bollywood que invadiram o país desde que a televisão foi permitida há uma década.

"Antes de junho de 1999, se você perguntasse qual era o herói de qualquer jovem, a resposta inevitável era 'o rei'", disse Dorji. "Logo depois disso, passou a ser David Beckham, e hoje é o rapper 50 Cent.
Os pais não sabem o que fazer."

Se por um lado o índice FIB pode guardar o segredo da felicidade para as pessoas que sofrem com o colapso das instituições financeiras em todo o mundo, ele oferece algo mais urgente para esta cultura ainda em estado puro.

"A história do Butão hoje é, em uma só palavra, a sobrevivência", diz Dorji. "A felicidade interna bruta é a sobrevivência; é uma forma de enfrentar a ameaça à sobrevivência."

Tradução: Eloise De Vylder

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