Segundo relatórios divulgados na sexta-feira, as economias europeias sofreram forte contração no primeiro trimestre de 2009, já que a atividade econômica estagnou-se em toda a região após as convulsões no sistema financeiro global no final do ano passado.
O período de inverno, no qual a Europa amargou uma queda econômica ainda mais acentuada do que a dos Estados Unidos, provavelmente representou o pior ponto no ciclo econômico do continente, dizem os economistas, embora acrescentem que a recessão deverá continuar ainda durante vários meses, e que é provável que haja um aumento drástico do desemprego.
A economia dos principais países europeus sofreu uma queda no início deste ano, à medida que os pilares das economias individuais - fossem eles os gastos dos consumidores, investimentos empresariais ou exportações - foram abalados devido à falta de confiança e a uma recessão global que se fez sentir brutalmente sem levar em conta fronteiras e setores econômicos.
Tanto na União Europeia, que tem 27 países, quanto no seu subconjunto formado pelos 16 países que usam o euro, o produto interno bruto encolheu cerca de 2,5% nos primeiros três meses do ano, ou cerca de 10% anuais, segundo o departamento de estatística da União Europeia, o Eurostat. Os dois grupos sofreram uma redução econômica de 1,4% no último trimestre de 2008.
Segundo economistas, conforme ocorre nos Estados Unidos, esses números provavelmente representam o período mais traumático da "Grande Recessão", conforme o fenômeno passou a ser conhecido, já que a contração europeia provavelmente já está diminuindo de intensidade como prelúdio de um crescimento discreto no outono. Mesmo assim, acredita-se que a produção referente a todo o ano cairá.
A economia dos Estados Unidos, em recessão desde dezembro de 2007, contraiu-se a um índice anual de 6,1% no primeiro trimestre, segundo estimativas do Departamento do Comércio dos Estados Unidos. Mas a maioria dos economistas atualmente acredita que a curva de crescimento voltará novamente a ser positiva no outono, o que sugere que o trauma financeiro que se seguiu à falência do Lehman Brothers em setembro de 2008 estaria se dissipando em velocidades iguais dos dois lados do Atlântico.
"Foi um choque global, de forma que todos os países foram afetados de maneira similar", afirma Jorg Kramer, diretor de economia do Commerzbank, em Frankfurt.
Embora muitos analistas enxerguem sinais de que a Europa estaria começando a emergir do seu nicho defensivo, a região ainda se depara com um percurso difícil porque, mesmo se o crescimento for retomado perto do final deste ano, ele provavelmente será discreto durante algum tempo. "É como fazer bungee jump", afirma Paul Mortimer-Lee, diretor de economia de mercado em Londres para o BNP Paribas. "Após cair até determinado ponto, a pessoa terá que voltar; a questão agora é saber até onde irá a queda".
Mas parece improvável que mesmo um retorno do crescimento no final deste ano seja capaz de alterar uma tendência na Europa em direção a um aumento drástico do desemprego, um fenômeno politicamente explosivo que tende a ocorrer com atraso em relação às tendências macroeconômicas mais amplas.
A União Europeia previu recentemente um índice de desemprego de 9,5% até o final deste ano, e de 11,5% em 2009. Este índice chegou a 8,9% em abril último.
"O fenômeno do desemprego será sentido até o final de 2010, e talvez até em 2011", afirma Julian Callow, diretor de economia do Barclays Capital em Londres.
A Alemanha, a maior economia europeia, foi a que amargou a pior queda, com um declínio de 3,8% no primeiro trimestre. As atuais previsões sugerem que a produção alemã poderá sofrer um declínio de 6% neste ano, naquele que seria o pior desempenho do país desde a Segunda Guerra Mundial. Esse problema reflete o fato de que a Alemanha depende fortemente das exportações para o restante de uma economia global duramente atingida pela crise, além de receber pouco auxílio compensatório dos seus consumidores, que são conhecidos por não gostarem de gastar.
"A recessão fez com que a economia alemã voltasse a ter o tamanho que apresentava no final de 2005", escreveu em um trabalho de pesquisa Carsten Brzeski, diretor de economia do ING. "Os últimos três anos de crescimento dissiparam-se como fumaça".
A economia francesa também sofreu um forte encolhimento pelo quarto trimestre consecutivo. O produto interno bruto do país caiu 1,2% em relação ao quarto trimestre de 2008, segundo o departamento de estatística francês Insee. E, na Itália, a economia sofreu uma redução de 2,4% em relação ao trimestre anterior, o maior declínio registrado pelo Istat, o departamento de estatística em Roma, desde que a instituição começou a publicar os seus dados em 1980.
Os dados foram divulgados um dia após a Espanha, a outra grande economia da zona do euro, ter anunciado uma queda econômica de 1,8% no primeiro trimestre deste ano.
Em comparação, o Japão parece estar sofrendo um choque similar, ou mesmo pior. O governo japonês calcula que a economia encolheu 3,1% durante o período de 12 meses encerrado em março, em vez dos 0,8% anteriormente previstos. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que a economia japonesa encolherá 6,2% em 2009, em vez dos 2,6% que a instituição havia previsto em janeiro.
Na Europa, as muito discutidos "green shoots" (algo como "brotos de recuperação") estão assumindo a forma de uma confiança mais forte por parte das empresas e dos consumidores e de uma retomada do comércio internacional após um torpor de inverno. Os registros de automóveis, auxiliados por incentivos especiais, também aumentaram.
Para a Europa, um outro fator positivo é a recente alta dos mercados de ações, e o alívio das tensões nos mercados de crédito. Algo similar parece estar acontecendo nos Estados Unidos, o que demonstra o quanto os mercados dos dois lados do Atlântico estão integrados.
"Isso está ajudando a reduzir a lacuna entre a recuperação dos Estados Unidos e a europeia", afirma Thomas Mayer, diretor de economia do Deutsche Bank em Londres.
Tradução: UOL