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17/05/2009

O partido confucionista

International Herald Tribune
Daniel A. Bell
Em Pequim
Há 20 anos, o maior movimento pró-democracia na história da China foi esmagado na Praça Tiananmen e o ativismo político de alto nível fora dos limites do Partido Comunista foi praticamente encerrado desde então.

Mas não procede que devemos ser pessimistas a respeito da evolução política da China. Embalar o debate em termos de "democracia" contra "autoritarismo" pode excluir outras possibilidades que têm apelo junto aos reformistas políticos chineses.

Eu atendi recentemente a uma conferência perto de Qufu, o local de nascimento de Confúcio, promovida pelas autoridades locais que falavam com orgulho sobre seus esforços para reviver o confucionismo sob a bandeira da "cultura chinesa".

É fácil esquecer que o Partido Comunista chinês, com seus 74 milhões de membros, é uma organização grande e diversa. Os círculos idosos, ainda influenciados pela antipatia maoísta à tradição, frequentemente condenam qualquer esforço para promover ideologias fora de uma rígida estrutura marxista. Mas os círculos mais jovens, na faixa dos 40 e 50 anos, tendem a apoiar esses esforços, e o tempo está ao lado deles. Parte do debate político envolve o esforço para reviver o confucionismo.

Os liberais devem se preocupar? Em um sentido mais importante, não. Os acadêmicos confucionistas -muitos dos quais membros do partido- defendem uma atmosfera ideológica mais aberta na qual novas ideias para reforma política e educacional possam ser debatidas e criticadas.

Eles apontam que o período intelectual mais fértil da China foi a era dos Estados em Guerra (476 a.C. a 221 a.C.), quando acadêmicos como Mencius podiam criticar abertamente os governantes por seus atos imorais e apresentar alternativas políticas. Meus amigos confucionistas criticaram as tentativas desajeitadas do governo de calar o debate a respeito da Carta 08, um manifesto publicado em 2008 que pedia ao Partido Comunista que abandonasse o monopólio do governo e estabelecesse um sistema multipartidário de governo.

Mas os mesmos acadêmicos criticaram severamente o conteúdo do manifesto, dizendo que ele se assemelha aos esforços do século 20 por parte dos liberais chineses de buscar uma ocidentalização completa como solução para os problemas da China. Na verdade, mesmo acadêmicos liberais como Qin Hui, o mais influente crítico social da China, criticaram abertamente o conteúdo da carta. Se o governo não tivesse interferido com a carta, ele poderia ter sofrido uma morte natural.

Para os confucionistas, qualquer reforma política duradoura e estável deve ter como raízes as tradições da própria China. Logo, devemos vê-los como nacionalistas de visão estreita? Pelo contrário. Jiang Qing, um grande expoente do novo confucionismo, critica explicitamente a ideia de uma soberania do Estado, dizendo que a soberania está no "céu", e não no Estado. Ele defende uma instituição democrática que ofereceria mais oportunidades de participação política, ao mesmo tempo que critica a democracia por ser focada estreitamente demais nos interesses da atual geração de eleitores.

Jiang propõe outra instituição política dedicada a representar não-eleitores cujos interesses costumam ser negligenciados nos Estados democráticos, como os estrangeiros, gerações futuras e ancestrais. A democracia é realmente a melhor forma de proteger as vítimas do aquecimento global, ele pergunta?

Os intelectuais confucionistas também apresentam ideias para uma reforma educacional. O comunismo está morto como mito unificador que pode sustentar o povo chinês, eles argumentam, então o que a China representa agora? É aqui que os valores confucionistas se tornam relevantes. Atualmente existem milhares de experimentos educacionais para promover valores confucionistas como harmonia e compaixão.

A Universidade Tsinghua, que treina grande parte da elite da China (e onde eu leciono), pode estar liderando o caminho. Ela tornou recentemente leitura obrigatória os "quatro clássicos confucionistas" para um grupo de estudantes de área de humanas. Escritos há mais de 2 mil anos, os livros substituirão alguns dos cursos obrigatórios de marxismo-leninismo. No modo tradicional, os estudantes memorizarão os textos antes de realizarem uma interpretação crítica.

Atualmente, estes esforços para reviver a tradição realmente arrebatam os intelectuais. Segundo uma pesquisa recente sobre as posturas políticas chinesas realizadas por Tianjian Shi, da Universidade Duke, a China se tornou mais tradicional em sua orientação política à medida que se desenvolveu economicamente. Reagindo ao materialismo que acompanhou a rápida modernização, muitos intelectuais estão se voltando a tradições como o confucionismo, que enfatiza a responsabilidade social.

Aqueles à procura de outra explosão de manifestações políticas como Tiananmen provavelmente ficarão desapontados. Na conferência em Qufu, os críticos confucionistas foram cuidadosos em dizer às autoridades do governo que defendem mudanças de forma estável.

Se as coisas ocorrerem como os confucionistas desejam, a mudança política ocorrerá de forma lenta e pacífica. Desde que Deng Xiaoping abriu as portas para a reforma econômica há mais de 30 anos, vários experimentos econômicos foram executados em níveis diferentes do governo, com o governo central pegando o que funciona e implantando as reformas por todo o país. Este provavelmente será o modelo para reforma política e educacional ao longo dos próximos 30 anos. Ela pode estar começando agora, em cidades como Qufu.

*Daniel A. Bell é autor de "China's New Confucianism: Politics and Everyday Life in a Changing Society".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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