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17/05/2009

Sobreviventes de tortura no Camboja testemunham contra Khmer Vermelho

International Herald Tribune
Seth Mydans
Em Phnom Penh
Ao correr os olhos pela sala do tribunal onde está sendo julgado por crimes contra a humanidade, o principal torturador do Khmer Vermelho não pode evitar a visão de um artista e um mecânico sentados lado a lado, observando-o, mas evitando seu olhar.

Um deles é baixo e forte, com os pés balançando pouco acima do chão, o outro é melancólico e está um pouco afundado na cadeira. Ambos são sobreviventes raros da casa de torturas que ele comandava, Tuol Sleng, onde pelo menos 14 mil pessoas foram enviadas para morrer há três décadas.

Nas próximas semanas, os dois sobreviventes testemunharão contra o homem que os torturou, Kaing Guek Eay, conhecido como Duch, e ambos têm histórias terríveis para contar sobre um lugar de horror de onde quase ninguém saiu vivo.

Bou Meng, 68, o mais baixo, sobreviveu porque era pintor e foi separado de uma fileira de prisioneiros algemados para fazer retratos do chefe do Khmer Vermelho, Pol Pot.

O outro, Chum Mey, 78, era mecânico e foi poupado porque os torturadores precisavam dele para fazer consertos, inclusive para reparar as máquinas de escrever usadas para registrar as confissões - com frequência falsas - extraídas de prisioneiros como ele próprio.

Bou Meng e Chum Mey são exemplos-vivos dos anos do Khmer Vermelho - evidências palpáveis como os crânios que foram preservados em antigos campos de extermínio, ou como centenas de retratos de seus colegas prisioneiros em exibição nas paredes de Tuol Sleng.

As fotografias eram tiradas no momento que os detentos chegavam à prisão, antes que fossem despidos, algemados, torturados e enviados para um campo de extermínio.

Os mortos em Tuol Sleng estão entre 1,7 milhão de pessoas que morreram de fome, doenças e trabalho forçado, além da tortura e das execuções, durante o regime comunista do Khmer Vermelho.

Duch, hoje com 66 anos, é o primeiro de cinco autoridades do Khmer Vermelho a irem a julgamento no tribunal apoiado pela ONU.

Ele é acusado de ordenar os espancamentos, chibatadas, choques elétricos e remoção de unhas dos pés que Bou Meng e Chum Mey descrevem - de fato, ele admitiu no tribunal que ordenou o espancamento de Chum Mey.

Ambos os homens foram torturados ao longo de dias, e Chum Mey disse que "na época, eu preferia morrer a sobreviver".

Mas ambos sobreviveram, e hoje descrevem as cenas que nenhum de seus colegas de prisão viveu para contar.

"Todas as noites eu olhava para a lua", lembra-se Bou Meng. "Eu ouvia pessoas chorando e suspirando em volta do prédio. Ouvia pessoas
chamando: 'Mãe, me ajude, mãe, me ajude!".

Era à noite que os prisioneiros eram transferidos de caminhão para os campos de extermínio. E todas as noites, ele temia que chegasse a sua vez. "Mas quando chegava meia-noite ou uma da manhã, eu me dava conta de que viveria mais um dia."

Apesar de que muitos cambojanos terem tentado enterrar suas memórias traumáticas, Bou Meng e Chum Mey continuam voltando para a cena de sua prisão e tortura, como se suas almas continuassem presas lá com as almas dos mortos.

Durante os primeiros anos depois da queda do Khmer Vermelho, Bou Meng voltou a trabalhar num escritório em Tuol Sleng, que havia sido transformado num museu do genocídio. Agora ele usa o lugar como um ponto de parada, passando a noite lá quando visita a capital, Phnom Pehn. Ele mora no interior, e ganha a vida pintando murais budistas em templos.

Chum Mey, aposentado de seu trabalho como mecânico, passa a maior parte do tempo perambulando entre os retratos, contando e recontando sua história para turistas e guias turísticos, como se uma das vítimas na parede tivesse voltado à vida.

Um contador de histórias vivaz e apaixonado, ele mostra ao visitante como foi vendado e empurrado para subir as escadas ao longo de doze dias de tortura, e joga-se no chão dentro de um pequeno cubículo de tijolos onde foi mantido acorrentado.

"Como podem ver, essa era minha condição", disse recentemente enquanto sentava-se no chão de concreto segurando uma caixa de munição de metal que era usada como penico. "Fico irritado ao ver Duch sentado no tribunal falando com seus advogados como se fosse um convidado."

Fora o fato de terem sobrevivido, a história dos dois homens é semelhante à de muitos prisioneiros de Tuol Sleng - camponeses que se juntaram à revolução comunista durante a guerra da Indochina para libertar o país daquilo que viam como dominação estrangeira.

Eles foram banidos pelo Khmer Vermelho, como muitos outros em Tuol Sleng, e foram torturados até que admitissem ser membros da CIA ou da KGB, organizações das quais eles mal haviam ouvido falar.

Os dois homens perderam suas mulheres e filhos na época do Khmer Vermelho, e apesar de ambos terem reconstruído suas famílias, o passado ainda os prende.

Bou Meng não perambula como o amigo entre as fotos de Tuol Sleng, mas guarda uma intacta em sua carteira - uma reprodução do retrato de sua mulher, Ma Yoeun, que foi presa junto com ele, mas não sobreviveu.

A foto mostra uma mulher pequena, vestida de preto como as outras, com um olhar perdido e sem esperança e o cabelo desalinhado - um registro da última vez que o marido a viu viva.

"Às vezes em casa eu olho para a foto e tudo parece muito vivo", diz ele. "Penso no sofrimento pelo qual ela passou, e me pergunto quanto tempo ela viveu lá."

A fotografia o faz lembrar dos momentos mais terríveis de sua vida, mas também dos mais felizes.

"Nós ainda éramos jovens, um casal jovem", disse ele. "É a minha melhor recordação. O dia da nossa lua de mel. Nós dormimos juntos. Foi um dia perfeito."

Bou Meng já se casou duas vezes desde então, mas continua atado às suas memórias.

"Eu sei que deveria esquecê-la", disse, "mas não consigo".

Ele diz que ela o visita em visões que são mais do que sonhos, com a mesma aparência que tinha no momento final - ainda com 28 anos, deixando Bou Meng sozinho para envelhecer sem ela.

Às vezes ela aparece junto com espíritos dos outros que foram mortos, diz ele. Eles ficam juntos, numa multidão de fantasmas vestidos de preto, e ela diz: "Só você, Bou Meng, pode fazer justiça por nós".

Bou Meng espera que o julgamento cauterize suas feridas, que o fato de testemunhar contra Duch e assistir sua condenação o liberte dos fantasmas inquietos e o deixe viver o que resta de sua vida em paz.

"Não quero ser uma vítima", disse Bou Meng. "Quero ser como todo mundo, uma pessoa normal".

Mas ele diz que sabe que isso pode ser pedir muito da vida.

"Talvez não completamente normal", disse. "Mas pelo menos 50%."

Tradução: Eloise De Vylder

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