Há um diálogo no livro "O Americano Tranquilo", de Graham Greene, a respeito dos danos que as boas intenções americanas podem causar, sobre o qual andei pensando bastante. Ele envolve o jornalista-narrador cansado da vida Thomas Fowler de um lado, e Alden Pyle, um funcionário de ajuda humanitária com um entusiasmo cego para deter o comunismo de outro.
"Você e os seus estão tentando fazer uma guerra com a ajuda de pessoas que simplesmente não estão interessadas".
"Elas não querem o comunismo."
"Elas querem arroz suficiente. Elas não querem ser mortas a tiro. Elas querem que um dia seja igual ao outro. Elas não querem nossas peles brancas por aí dizendo o que é que elas querem."
Pouco mais de meio século depois desse pronunciamento sucinto de Fowler, o Vietnã tem exatamente o que ele evocou: paz, estabilidade e independência. Ele também tem o comunismo, mas de um tipo que permite que o líder vietnamita toque o sino de abertura de negociações em Wall Street. As "peles brancas" que continuam por lá desistiram da guerra em prol do investimento estrangeiro.
O zelo de Pyle é o mesmo zelo maniqueísta de mudar o mundo dos Estados Unidos pós 11 de setembro, uma nação desorientada que atacou para estabelecer a liberdade, a democracia e a legitimidade no Oriente Médio e no oeste asiático, mas que fracassou e traiu esses ideais durante o processo.
As boas intenções não perderam seu poder de devastar ou constranger os seus mais zelosos defensores no Hindu Kush.
Então venho pensando sobre Pyle, e seu final infeliz, e pensando também sobre Fowler, cujo realismo está de volta à moda na Washington de Barack Obama, onde o "engajamento" se tornou a palavra de ordem.
O sucesso do Vietnã está ancorado no realismo e no engajamento. Isso permitiu que as relações com os EUA florescessem menos de 35 anos depois do fim de uma guerra que matou mais de 58 mil soldados americanos e 3 milhões de vietnamitas. Desafiando a grande recessão, a economia do país crescerá pelo menos 4% este ano.
Nas últimas semanas, generais vietnamitas e autoridades do Ministério da Defesa foram às pressas para o porta-aviões U.S.S. John C. Stennis, no mar do Sul da China, para um passeio que foi um grande sucesso. Um punhado de autoridades vietnamitas está recebendo treinamento nos EUA, eis o resultado da teoria do dominó.
Desde um acordo bilateral de comércio assinado em 2001, os Estados Unidos se tornaram o maior mercado de exportação do Vietnã. Companhias como Intel e Victoria's Secret fazem grandes negócios num país que é comunista e se orgulha disso.
O Vietnã nos ensina várias lições, a primeira delas é que os Estados Unidos podem ter relações normais com países cujos sistemas políticos e ideologias Washington rejeita. Isso vale tanto para Cuba ou o Irã de hoje como valia para o Vietnã ou a China. Entre todas as histórias dolorosas dos EUA com Cuba e o Irã, não há nenhuma memória viva de uma guerra.
No comunicado de Xangai de 28 de fevereiro de 1972, que anunciava a retomada de relações entre os Estados Unidos e a China comunista depois de 24 anos sem comunicações, Nixon e Zhou Enlai concluíram:
"Há diferenças fundamentais entre a China e os Estados Unidos no que diz respeito a seus sistemas e políticas estrangeiras. Todavia, os dois Estados concordam que os países, independentemente de seus sistemas sociais, devem conduzir suas relações de acordo com os princípios de respeito à soberania e integridade territorial de todos os Estados, não-agressão contra outros Estados, não-interferência nos assuntos interiores de outros Estados, igualdade e benefício mútuo, e coexistência pacífica."
Esse mesmo espírito gerou a restauração das relações diplomáticas totais com o Vietnã em 1995. E foi perdido no fanatismo autoritário dos anos Bush.
Agora Obama voltou ao "respeito mútuo" ao avaliar se é possível superar a ressaca da guerra fria em Havana e o impasse de 30 anos com Teerã. O mote do presidente poderia ser: "Mostre-me os fatos'. Eu aplaudo isso.
Guerra do Vietnã
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Um soldado norteo-americano escolta vietcongue prisioneiro até uma base dos Estados Unidos
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Fotografia feita por Marc Riboud mostra Jane Rose Kasmir segurando uma flor diante de um soldado em uma manifestação contra a guerra do Vietnã do lado de fora do Pentágono em 1967
Mas ainda existe o mistério do perdão vietnamita. É claro, um país vitorioso sempre pode ser magnânimo. Mas isso não é uma explicação suficiente - pelo menos não para alguém que conheça bem a memória dos Balcãs e do Oriente Médio, onde a capacidade de gerar nova violência a partir das feridas do passado é imensurável.
Nem a juventude da população do Vietnã, mais de 70% nasceu depois da guerra, razão suficiente para o país ter esquecido o passado. Os jovens também podem se encher de uma sede de vingança, como acontece com alguns em Gaza.
Não, só a cultura, essa palavra inadequada, pode explicar a capacidade do Vietnã de seguir em frente. No budismo e no confucionismo, que permeiam a vida vietnamita, o presente e o futuro são valorizados.
O culto aos ancestrais também é praticamente universal, com pequenos templos para os antepassados da família adornando muitas casas.
Perguntei a Kenneth Fairfax, cônsul geral dos EUA cujo escritório fica no mesmo local da desesperada evacuação americana em abril de 1975, como os vietnamitas veem seus ancestrais, e os que foram mortos pelo inimigo estrangeiro.
"Quando sua foto estiver lá daqui a 50 anos, você gostará de ser lembrado por tornar a geração depois da sua, e a geração seguinte, mais prósperas", disse Fairfax.
Eu não sei como transplantar essa noção para o Oriente Médio. Mas sei que Obama tem que rejeitar Pyle - "Eles não querem o comunismo" - e endossar Fowler - "Eles querem arroz suficiente" - para avançar em sua visão de um mundo mais pacífico.
Tradução: Eloise De Vylder