Líderes americanos e iranianos deram sinais de que estão preparados para conversar. Isso é bom. Mas chegar a resultados pode se mostrar mais difícil do que eles imaginavam.
Pra começar, é pouco provável que o diálogo deva começar antes das eleições presidenciais do Irã, marcadas para 12 de junho.
O atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad, provavelmente teme que o fato de entrar em negociações com o "Grande Satã" possa afastar parte de seus principais aliados. E uma primeira rodada mal-sucedida ofereceria munição política a seus oponentes.
O fato é que é pouco provável que a primeira rodada seja bem sucedida.
As posições e expectativas de ambos os lados, e suas ideias de quem deveria dar o primeiro passo, são muito diferentes.
Um oficial experiente do Irã, de orientação reformista, disse-me que a aproximação do presidente Obama, através do envio de uma mensagem durante o Ano Novo iraniano, foi bem recebida, mas foi vista apenas como uma resposta à carta que Ahmadinejad enviou para Obama parabenizando-o pela eleição. "Precisamos ver ações, não palavras doces", disse o oficial.
A prontidão de Washington para participar oficialmente de negociações nucleares não é uma ação palpável? Perguntei. "Não exatamente", respondeu meu interlocutor. "É apenas a correção de um erro. Então agora a bola está na quadra dos EUA". Oficiais americanos certamente veem isso de forma diferente.
Além disso, ambos os lados devem entrar em qualquer negociação com suas posições basicamente inalteradas. Até agora, o Irã disse que está preparado para negociar, mas não abrirá mão do enriquecimento de urânio ou de qualquer outra parte de seu programa nuclear. O grupo dos
"5 mais 1" (Estados Unidos, Inglaterra, França, China, Rússia e Alemanha), entretanto, vê o enriquecimento de urânio como o principal problema. O Conselho de Segurança aprovou cinco resoluções exigindo que o Irã suspendesse o enriquecimento.
A ideia de que o Irã, independentemente de quem for seu presidente, concordaria em desativar suas centrífugas é muito pouco realista. Em conversações anteriores com o UE-3 (Inglaterra, França e Alemanha), os negociadores iranianos insistiram que o país manterá um projeto piloto com cerca de 40 centrífugas. Os europeus não concordaram. Hoje, o Irã tem mais de 5 mil centrífugas, e os iranianos certamente tomarão esse número como base para negociações em qualquer suspensão a longo prazo de seu programa.
Ambos os lados terão de ampliar seus parâmetros de concessão. O grupo dos "5 mais 1" terá que definir qual o nível de atividades nucleares iranianas que está disposto a aceitar, e que tipo de garantias, salvaguardas e políticas desejam por parte do Irã.
Do lado iraniano, até agora tem havido pouca reflexão quanto às limitações que o Irã poderá aceitar se quiser assegurar à comunidade internacional de que seu programa é, de fato, apenas para propósitos civis, como alega o país. A liderança política do Irã provavelmente não decidiu ainda até onde deseja ir com seu programa nuclear. Os tomadores de decisão do Irã normalmente buscam o consenso nas decisões estratégicas, e isso pode levar tempo. Mas o tempo, entretanto, pode ser um fator crítico.
Se as negociações ou pré-negociações se arrastarem, o Irã continuará a produzir urânio de baixo enriquecimento (UBE) em sua usina em Natanz.
Teoricamente, o UBE pode ser transformado em urânio altamente enriquecido para uso em bombas com a mesma tecnologia de centrífugas.
Portanto, aumentar o estoque de UBE no Irã deixará os demais atores regionais e internacionais - até mesmo Israel - cada vez mais nervosos. Os israelenses que defendem o ataque às instalações nucleares do Irã poderiam ganhar respaldo.
Apesar de ser pouco provável que o governo Obama permita que Israel empreenda tal aventura, Washington também não está preparada para deixar que as negociações se arrastem para sempre. Se as conversas com o Irã não trouxerem resultados tangíveis num tempo razoável, o presidente Obama não encontrará dificuldade em buscar o apoio internacional para medidas mais vigorosas, principalmente sanções mais rígidas.
A situação regional não torna as coisas mais fáceis. Israel já está pedindo sanções mais duras, e o governo liderado pelo Likud argumenta que o país não pode fazer progresso com os palestinos até que a ameaça do Irã seja retirada. Estados árabes como o Egito, Arábia Saudita e as monarquias do Golfo estão ansiosos quanto ao poder político crescente do Irã na região.
Entretanto, a situação regional também oferece oportunidades. Os interesses de Teerã e Washington em relação aos vizinhos imediatos do Irã são os mesmos em muitos aspectos significativos - ambos não querem o retorno do Taleban ao poder no Afeganistão ou a talebanização do Paquistão, e ambos apoiam o governo de Maliki no Iraque. Então, faz sentindo envolver o Irã numa forte parceria para estabilizar o Afeganistão e o Paquistão.
Ao contrário de sua atuação política em relação a Israel e a Palestina, o Irã tende a ser pragmático ao lidar com seus vizinhos imediatos. Os riscos de segurança, como um possível influxo de drogas do Afeganistão, não permitem elucubrações ideológicas.
O Irã não é um país de um só tema. Ele precisa ser envolvido em vários assuntos e em vários caminhos.
As negociações nucleares terão de ser retomadas quando o novo presidente chegar ao poder. O grupo dos "5 mais 1" continua sendo um formato prático para isso, demonstrando que, apesar da importância da participação americana, este é um tema multilateral. Ao mesmo tempo, um formato bilateral de negociações entre os EUA e o Irã deve ser estabelecido para lidar com temas como as políticas iranianas em relação a Israel, o terrorismo, os ativos iranianos congelados nos EUA e as relações diplomáticas.
No momento, esses assuntos não resolvidos não devem se tornar obstáculos para a cooperação em temas como o Afeganistão, Paquistão ou Iraque, ou até mesmo a segurança marítima no Golfo. Pelo contrário, separar a cooperação regional do tema nuclear pode ajudar a construir a confiança necessária para uma retomada bem sucedida das negociações nucleares entre os EUA e o Irã.
* Volker Perthes é diretor do SWP, Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança.
Tradução: Eloise De Vylder