Suspensão de sanções econômicas, total integração com o Ocidente, paz na península coreana -tudo pode ser discutido se a Coreia do Norte simplesmente voltar às negociações de Seis Partes. Ainda assim, em outra atitude de provocação, Pyongyang testou mais mísseis e declarou o segundo teste nuclear um sucesso, fazendo tremer não apenas a terra na China, mas também na comunidade internacional de não-proliferação.
Atitudes temerárias não são novas na República Democrática do Povo da Coreia e surtos anteriores frequentemente trouxeram maior atenção -e recompensas. Desta vez, contudo, a reação internacional deve ser rápida e impiedosa. A Coreia do Norte calculou mal a ira global que sua provocação gerou.
Em todas as frentes, A Coreia do Norte está reduzindo sua interação com o resto do mundo e oferecendo apenas punhos fechados. Testes de mísseis, cancelamento unilateral de contratos com a Coreia do Sul, reprocessamento de combustíveis e a recente declaração de uma zona econômica exclusiva que esbarra nos direitos marítimos da Coreia do Sul- tudo aponta para um novo processo de decisão audacioso com influência militar. Essas ações indicam o estado desesperado da Coreia do Norte, com seu líder doente e planos de sucessão nebulosos.
Há várias teorias sobre o que a Coreia do Norte quer: força de barganha para negociações bilaterais com os EUA? O potencial de vender seu material nuclear e tecnologia de mísseis para conseguir moedas fortes? Pleno reconhecimento como nação atômica, como a Índia e o Paquistão? Ninguém sabe ao certo, e frequentemente parece que até a Coreia do Norte está confusa.
Qualquer que seja a razão, sua beligerância está surtindo o efeito exatamente contrário ao pretendido. A atenção tão buscada dos EUA certamente será negativa. O representante especial de Washington, Stephen Bosworth, afirmou publicamente em abril sua disposição de discutir questões diretamente com a Coreia do Norte dentro do processo de Seis Partes. Negociações diretas, contudo, são uma impossibilidade de curto prazo, pois os EUA estão decididos a resolver o conflito com todos os poderes regionais.
China, Rússia, Coreia do Sul, Japão e EUA estão cada vez mais perto de concordarem com medidas punitivas. Todas as partes agora reconhecem que a recalcitrância vai exigir uma ação coletiva mais robusta. As poucas pontes deixadas com a China estão queimando, enquanto sua influência sobre a Coreia do Norte declina gradativamente.
Para a Coreia do Norte, repetir testes nucleares e de mísseis terá retorno diminuído, já que seu principal valor é demonstrar sua nova capacidade -o que já fizeram. Ainda há dúvidas quanto ao alcance de seus foguetes. Mesmo o evento nuclear recente pode ter sido uma explosão mais convencional do que de fissão nuclear. Amostras do ar e o tempo vão dizer.
O próximo passo no livro de provocações desgastado seria maior atividade nas águas pesqueiras ao longo do mar a oeste, disputado com a Coreia do Sul. Emboscadas navais ocorreram em 1999 e 2002, com as forças da Coreia do Sul prevalecendo. O risco de vergonha para o governo de Kim Jong-il é alto.
As respostas internacionais à provocação também são limitadas. Rodadas sucessivas de sanções não conseguiram impedir o regime de aumentar sua capacidade nuclear. Isso se deve em grande parte à dificuldade de fiscalização. Sanções financeiras vão limitar severamente lucros em moeda externa forte. Interdições de navios suspeitos envolvidos em atividades nucleares também é uma opção. Suspender direito de sobrevoo, como fez a Índia em 2008 para um voo da Air Koryo em direção ao Irã, pode vir a ser um esforço mais coordenado.
A China tem um papel cada vez maior em qualquer opção eficaz de sanção. Como principal parceiro comercial da Coreia do Norte, que fornece energia vital e suprimentos, a China repetidamente disse que não tomaria ações que ameaçassem a estabilidade ou levassem uma entrada de refugiados pela fronteira porosa.
O risco precisa ser reavaliado. Limitar exportações de petróleo pode diminuir as luzes em Pyongyang, mas é altamente improvável que um aparato de segurança interno enfraquecido levaria a uma insurreição popular e subsequente desastre humanitário. Independentemente dos precedentes históricos, a relação da China com a Coreia do Sul e Japão está se tornando cada vez mais importante, e o antagonismo continuado com a Coreia do Norte simplesmente coloca mais tensão em um relacionamento que já é instável.
Toda essa tensão deve ser vista dentro de um contexto, contudo. O perigo de confronto militar na península é bastante remoto, simplesmente porque a Coreia do Norte não pode escapar das conseqüências devastadoras de um ataque. O lançamento de um míssil nuclear no Japão ou nos EUA, quando e se for capaz, também é uma possibilidade extremamente remota; significaria a aniquilação do regime. Kim e seus conselheiros não devem ser encarados como irracionais ou suicidas. Comentários em relação à natureza defensiva de sua nascente ameaça nuclear não devem ser subestimados.
Cedo ou tarde, o pêndulo regional vai mudar, e o regime de Kim, ou alguma variante de seus sucessores, vai se sentir confiante com esta recente demonstração de relativo poder militar. Eles também vão compreender inevitavelmente que as negociações são a melhor alternativa entre o leque de opções cada vez menor para alcançar a segurança e o reconhecimento que almejam.
* Brian Klein é professor de relações internacionais do Conselho de Relações Exteriores.
Tradução: Deborah Weinberg