Vamos ver pelo lado positivo: o teste nuclear subterrâneo da Coreia do Norte deve colocar fim a vários enganos sobre as motivações do país.
Não é mais possível continuar alegando que tudo que Kim Jong-il faz é um esforço para obter a atenção dos EUA, ou que só o que ele quer é chegar à próxima rodada de desarmamento com uma mão mais forte. Ninguém pode tampouco argumentar seriamente que todos esses exercícios caros têm como meta assegurar maior ajuda econômica.
Em suma, tornou-se óbvio que, em vez disso, as provocações militares nucleares e a beligerância crescente de sua retórica são motivadas por considerações políticas internas.
Isso não significa que devemos perder tempo especulando sobre qual dos filhos de Kim algum dia vão assumir o poder, ou se o exército ou o partido estão lutando pelo poder. Não faz diferença quem vai sucedê-lo. Todos os jogadores da elite são associados ao mesmo nacionalismo paranóico, baseado em raça, sem o qual o país não tem razão de existir.
Nos últimos 15 anos, o regime em Pyongyang se espremeu em um canto ideológico - ou para dizer melhor, se empurrou para o limite do abismo. Kim Jong-il eximiu-se da responsabilidade de questões econômicas em meados de 90 para evitar a culpa pública pela fome. A máquina de propaganda alegou que seu novo regime dos "militares primeiro" estaria ocupado demais para defender o país dos ianques (que, de fato, estavam enviando ajuda na época) para se importar com questões econômicas. Essa linha não apenas manteve o apoio de Kim, mas também permitiu que as autoridades no nível das províncias começassem a desmantelar o comando da economia.
O Ocidente, é claro, ficou feliz em ver que os norte-coreanos não mais encaravam aqueles absurdos comunistas seriamente. Mas foi a disseminação dos valores capitalistas que tornou a atual série de provocações nucelares inevitável. Simplificando: quanto mais a Coreia do Norte se parece com uma Coreia do Sul de terceira classe na frente econômica, mais o regime de Kim Jong-il precisa justificar sua existência por meio de uma combinação de retórica nacionalista radical e vitórias na frente militar e nuclear. É por isso que a Coreia do Norte nunca vai se desarmar, porque fazer isso seria se declarar irrelevante.
Alguns no Ocidente agora estão sugerindo que a capacidade nuclear da Coreia do Norte deve ser aceita como fato consumado, mas isso tampouco é uma solução. Como Kim Jong-il precisa da tensão constante com o mundo exterior para sua própria política de sobrevivência, ele não está mais interessado em conquistar a aceitação internacional para suas ambições nucleares nem tampouco em normalizar suas relações com Washington. O Ocidente deve assumir que ele sempre vai encontrar formas de tornar suas armas atômicas inaceitáveis, enquanto ao mesmo tempo em que se engajará esporadicamente em negociações de armas para impedir que a tensão torne-se uma guerra declarada.
É tempo de os EUA mudarem de foco: em vez de negociarem com a Coreia do Norte, devem negociar com os chineses sobre a Coreia do Norte. Pequim compreende como essas provocações nucleares são vitais parara a sobrevivência de Pyongyang, e é por isso que continua a patrociná-los. Washington precisa, portanto, fazer mais para acalmar os temores de Pequim com um colapso do regime de Kim Jong-il.
Lembremos como a União Soviética se opôs a uma Alemanha unificada até que a Otan veio com uma promessa de não colocar tropas na ex-Alemanha Oriental. Seria um passo na direção certa para os EUA assegurarem aos chineses que nunca teriam que enfrentar tropas americanas ao longo do rio Yalu.
Uma coisa é certa: não podemos simplesmente aguardar a morte de Kim e esperar o melhor, porque quem quer que o suceda não vai precisar de uma crise especialmente dramática para legitimar seu governo. O que vimos nas últimas semanas pode parecer pouco em comparação.
B.R. Myers é analista de ideologia e propaganda norte-coreana na Universidade de Dongseo, na Coreia do Sul
Tradução: Deborah Weinberg