UOL Notícias Internacional
 

07/06/2009

Mulheres vencem eleições no Kuait e viram exemplo no mundo muçulmano

International Herald Tribune
Mona Eltahawy
Em Nova York (Estados Unidos)
É maravilhoso ver o poder feminino colocar a temência a Deus nos países. Pelo menos é assim que eu gosto de explicar a decisão da Arábia Saudita de postergar as eleições municipais em dois anos.

É tudo culpa do Kuait. Na verdade, das mulheres do país. Para ser mais exato, de quatro delas que fizeram história em 17 de maio ao conquistarem cadeiras nas eleições parlamentares. A vitória delas foi ainda mais saborosa porque os fundamentalistas que tradicionalmente se opunham ao voto feminino perderam várias de suas cadeiras no parlamento kuaitiano.

No dia seguinte, a Arábia Saudita estendeu o mandato dos conselhos municipais em dois anos, para dar tempo para "expandir a participação dos cidadãos na administração dos assuntos locais". Segundo os relatos de vários ativistas, esses conselhos locais são inúteis. Eles foram o resultado de um breve flerte com a democracia, em 2005, e cinco mulheres anunciaram sua candidatura. Mas essas primeiras eleições em todo o país foram colocadas fora de alcance das mulheres pelos clérigos ultraconservadores.

Desde então, as mulheres sauditas e seus aliados ainda nutrem esperanças de que o rei Abdullah - que é visto como um aliado - reabra as eleições em 2009, marcadas para outubro, para as mulheres. Então, dá para imaginar como os sauditas ficaram nervosos quando viram a eleição de quatro parlamentares mulheres, novas em folha, no Kuait.

Durante anos, os islamitas do parlamento do Kuait - que também pertencem à linhagem Salafi do Islã, que prevalece na Arábia Saudita - se opuseram ao sufrágio feminino. As mulheres finalmente conquistaram seus direitos políticos em 2005, mas não conseguiram se eleger para o parlamento, que tem 50 integrantes, nas duas eleições subsequentes.

Mas sem quotas ou apoio de partidos políticos, as quatro mulheres foram bem sucedidas nas eleições da semana passada, mostrando que até mesmo os hábitos de voto conservadores podem mudar.

Os islamitas perderam oito de suas cadeiras no parlamento numa forte rejeição à suas tentativas de controlar a sociedade do Kuait, onde nos últimos anos eles conseguiram banir a educação conjunta nas universidades e restringir o entretenimento público. Eles também queriam implantar a lei islâmica.

Sempre fico surpresa com o dogmatismo de analistas que dizem que os muçulmanos querem que os islamitas governem suas sociedades. Os muçulmanos querem ter escolha, assim como todo mundo.

Em países onde os islamitas são a única alternativa contra um ditador, não há escolha, mas um voto de protesto contra o sistema. Quando tiveram escolha, os kuaitianos escolheram quatro mulheres como parlamentares num país onde, há apenas quatro anos, as mulheres não tinham direitos políticos.

A Arábia Saudita sabe muito bem que as mulheres sauditas podem ser influenciadas por suas irmãs kuaitianas.

Depois da invasão iraquiana ao Kuait em 1990, muitos homens e mulheres kuaitianos fugiram da violência pegando seus carros e dirigindo para a vizinha Arábia Saudita.

Quarenta e sete mulheres sauditas ficaram famosas por terem violado a proibição de dirigir, tomando o volante em um comboio pela capital Riad. Elas foram chamadas de prostitutas nas mesquitas, banidas do trabalho por dois anos e tiveram seus passaportes temporariamente confiscados.

Até hoje, o país cujas reservas de petróleo abastecem a maioria dos carros do mundo continua a negar o direito de dirigir, de votar e de concorrer a um cargo público para metade de sua população.

Assim como as mulheres venceram os fundamentalistas no Kuait, elas eventualmente vencerão na Arábia Saudita. Mulheres sauditas corajosas estão se pronunciando cada vez mais, seja na internet, onde elas têm mais da metade dos blogs do país, ou em torneios clandestinos de basquete ou futebol, que zombam da proibição de mulheres nos esportes públicos.

A reação será forte, assim como foi quando as mulheres dirigiram em 1990. Logo depois que o rei Abdullah nomeou a primeira chefe de gabinete de um ministério no começo do ano, os clérigos conservadores pediram a proibição das mulheres na mídia.

Mas os religiosos linha-dura estão transformando a Arábia Saudita em motivo de piada. Um juiz saudita disse durante um seminário sobre violência doméstica em maio que era admissível um homem bater em sua esposa por ela gastar demais. Que tipo de justiça as mulheres podem esperar de um juiz assim?

Assim como a Arábia Saudita, o Kuait é um país de maioria muçulmana.
Então, quando os clérigos sauditas que se opõem aos direitos políticos das mulheres alegam estar protegendo o "Islã", basta apontar para o vizinho Kuait e perguntar: "o Islã de quem?"

Ou apontar para Rola Dashti, Masouma al-Mubarak, Salwa al-Jassar e Aseel al-Awadhi - as novas parlamentares do Kuait - e dizer: "As muçulmanas podem!"

(Nascida no Egito, Mona Eltahway escreve sobre assuntos árabes e muçulmanos.)

*Tradução: Eloise De Vylder

Compartilhe:

    Trânsito

    Cotações

    Hospedagem: UOL Host