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08/06/2009

Desenvolvendo um terceiro mundo mais verde

International Herald Tribune
Tom Zeller Jr.
Em Nova York (EUA)
Se os Estados Unidos e todos os países ricos do mundo reduzissem as emissões de dióxido de carbono a zero amanhã e não houvesse nenhuma mudança no mundo em desenvolvimento, "a crise ainda nos alcançaria", disse Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos, num fórum na cidade de Nova York na semana passada.

Quer isso seja verdade ou não, a implicação com certeza é.

Pouco progresso tem sido feito ao lidar com a crise climática global, afinal, a menos que uma causa comum seja encontrada entre os países ricos, que criaram o problema ao se tornarem ricos, e os países pobres, que compreensivelmente se ressentem da ideia de que não devem trilhar o mesmo caminho para se livrar do CO2 em direção à vitalidade.

"O mundo precisa superar a divisão antiga entre países ricos e países pobres", disse Gore.

Este foi pelo menos um dos temas fundamentais do fórum, um encontro de três dias organizado pelo Centro para Empreendimentos Globais Sustentáveis da Univesridade Cornell.

O propósito era reunir empreendedores que trabalham com energias renováveis e outras tecnologias sustentáveis para tratar das necessidades dos bilhões de pessoas que sobrevivem no extremo mais pobre da ordem econômica mundial.

Por quê? A ideia é uma abordagem do tipo "matar dois coelhos com uma cajadada" em relação ao aquecimento global e a pobreza mundial (ao mesmo tempo em que se faz dinheiro).

O mundo em desenvolvimento sustenta a filosofia do fórum. É sob vários aspectos o lugar ideal para incubar todos os tipos de inovações de tecnologias limpas (energia solar ou eólica em pequena escala, por exemplo) do que normalmente têm dificuldade de encontrar uma base nos mercados desenvolvidos, onde a demanda por quantidade pode ser gigantesca, os modelos de negócios são arraigados e os incentivos financeiros favorecem o modo já estabelecido de fazer as coisas.

"Percebi há alguns anos atrás que por mais animador que fosse ter esses dois grupos de inovadores, não havia conexão entre os dois", disse Stuart L. Hart, organizador chefe do fórum, professor da Escola Johnson de Administração da Universidade Cornell e autor do livro "Capitalism at the Crossroads: The Unlimited Business Opportunities in Solving the World's Most Difficult Problems" [algo como "O Capitalismo na Encruzilhada: Oportunidades de Negócios Ilimitadas para Resolver os Problemas Mais Difíceis do Mundo"].

"Isso não era um bom presságio a longo termo", disse Hart, "e 80% desse encontro foi para colocar essas pessoas na mesma sala."

Cerca de 100 delegados - do mundo acadêmico, industrial, financeiro e de negócios - participaram do evento, que encerrou na noite de quarta-feira com uma discussão animada numa mesa redonda que incluiu Gore e Hart, assim como Ratan N. Tata, presidente da indústria de carros indiana Tata Group e fabricante do novo e barato Nano, e H. Fisk Johnson, presidente e diretor-executivo da gigante de produtos domésticos S.C. Johnson & Son.

Johnson, cuja companhia foi elogiada por Gore como "uma das mais sustentáveis do mundo", falou sobre o desenvolvimento de inseticidas naturais da S. C. Johnson em Ruanda e sobre o uso de biocombustíveis pela companhia em suas fábricas no Vietnã e na Indonésia.

"Uma ruptura", disse Hart, invocando a palavra-chave da noite.

O senhor Tata apontou para a onipresença dos telefones celulares no mundo em desenvolvimento como um exemplo de uma tecnologia de ruptura e avanço (apesar de não exatamente uma tecnologia verde) que proliferou nos países mais pobres, fornecendo um meio de comunicação para milhares de pessoas em lugares onde a infraestrutura de linhas terrestres continua esparsa ou inexistente.

"Quando eu era criança, você tinha que esperar sete anos por uma linha de telefone", diz ele.

Tata espera que o Nano, o novo carro barato, também seja uma ponte para o abismo da mobilidade que existe entre os ricos e os pobres. O Nano, com alguns modelos à venda por menos de US$ 2.500, passou por um período de pré-venda de duas semanas em abril. Durante esse tempo breve, a companhia relatou 203 mil vendas. Ela deve começar a entregar os carros em julho.

Que tipo de milhagem ele faz? "27 quilômetros por litro", disse Tata, que foi aplaudido. Isso equivale a 3,6 litros para percorrer 100 quilômetros.

E no espírito de fazer marketing a partir da base da pirâmide, a companhia espera começar a vender a versão do carro nos Estados Unidos e na Europa dentro dos próximos anos, anunciou Tata.

É claro, alguns críticos - incluindo Rajendra Pachauri, vencedor do prêmio Nobel da Paz e chefe do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, que foi citado no começo desse ano dizendo que estava "tendo pesadelos" com o Nano - preocupam-se com o impacto de milhões de carros extremamente baratos e emissores de CO2 sobre o clima.

Mas os engenheiros do Tata dizem que o veículo emite 120 gramas de dióxido de carbono por quilômetro - bem menos do que a média atual europeia, de cerca de 160 gramas por quilômetro. E o senhor Tata disse na reunião na quarta-feira que a companhia está planejando lançar uma versão elétrica do carro em setembro.

(Mais aplausos.)

O mesmo pode acontecer com inovações como a produção em pequena escala de energia solar e eólica, geradas nas comunidades ou até mesmo nas casas, observou Hart - tecnologias que, no mundo desenvolvido, lutam contra um status quo infraestrutural que favorece a produção de energia centralizada e a transmissão à longa distância.

O mundo em desenvolvimento fornece um laboratório ideal, segundo a tese, para aperfeiçoar tecnologias renováveis de distribuição em pequena escala, que podem reduzir a perda de energia - assim como os custos com infraestrutura - evitando a transmissão à longa distância.

Nesse cenário, os empreendedores de tecnologias limpas se beneficiam com o mercado pronto e necessitado dos países mais pobres, o clima se beneficia ao estabelecer um patamar de energia renovável no extremo mais pobre da escala socioeconômica, e, à medida que a tecnologia é aperfeiçoada, formas similares de distribuição de energia podem ser transferidas para os países ricos, onde se tornarão parte de um portifólio mais amplo de fontes energéticas que substituirão os combustíveis fósseis.

É claro, raramente as coisas são tão simples, e assim como Hart confessou numa conversa por telefone na semana passada, a base da pirâmide dificilmente está livre de barreiras. Os subsídios ao querosene na Índia, por exemplo, favorecem seu uso continuado em detrimento de alternativas mais limpas. E até mesmo organizações de desenvolvimento bem intencionadas oferecendo doações em dinheiro podem tornar as coisas mais difíceis.

"Quando as agências de auxílio derramam dinheiro em energia solar", disse Hart, "isso acaba com o mercado."

Mas é para ajudar a superar esse tipo de coisa é que o fórum foi concebido - através da criação de redes e construção de iniciativas.

"Não tem como isso chegar cedo demais", sugeriu Gore. "Os ponteiros estão girando", disse.

"Essa frase pode soar estridente para muitos ouvidos", acrescentou, "mas infelizmente, está absolutamente correta."

Tradução: Eloise De Vylder

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