A Copa do Mundo de 2010 na África do Sul está começando a tomar forma. As primeiras quatro seleções a se classificarem para o torneio são Austrália, Japão, Holanda e Coreia do Sul.
Com o devido respeito a esses países, esta é uma façanha relativamente fácil nas suas respectivas regiões. Eles são os finalistas esperados, os peixes grandes na piscina dos que disputam a vaga.
A seleção "Samurai Azul" do Japão recebeu tributos florais quando a equipe aterrissou em Tóquio, no domingo.
"A Primeira Classificada!", dizia a manchete do "Nikkan Sports Daily" após a vitória de 1 a 0 sobre o Uzbequistão que selou a classificação japonesa. Foi necessária a figura de Shunsuke Nakamura, o jogador mais experiente da equipe, para colocar a façanha em perspectiva.
"O Japão ainda será o segundo melhor contra o melhor do mundo em termos de habilidade individual", afirmou Nakamura. "Temos que entender bem a situação desta equipe. Temos que jogar como uma equipe e com uma extraordinária ética de trabalho".
No sábado e no domingo 88 nações disputaram pontos para a Copa do Mundo em todo o globo. Muitas correrão novamente atrás de pontos na próxima quarta-feira. Várias delas enfrentarão meses duros de disputas pela classificação.
Em nenhum outro lugar o processo é mais árduo, mais difícil e mais técnico do que na América do Sul.
No sábado (5) o Brasil exibiu um jogo notável para vencer o Uruguai por 4 a 0. A Argentina, abalada pela derrota calamitosa por 6 a 1 na Bolívia em abril, arrancou uma vitória de 1 a 0 da Colômbia em Buenos Aires. O Paraguai, o líder da cansativa disputa de dez países pela qualificação, amargou uma derrota em casa por 2 a 0 para o Chile.
As disparidades que abundam na Europa são quase inexistentes na América do Sul. A vitória rotineira de 4 a 0 da Inglaterra sobre o Cazaquistão não traz nenhuma semelhança com a vitória do Brasil pelo mesmo placar em Montevidéu.
A vitória da Inglaterra foi sólida, profissional e previsível. Uma indicação da desigualdade entre os dois times surgiu quando Fabio Capello, o técnico da Inglaterra, foi mais uma vez capaz de trazer David Beckham para os últimos 15 minutos do jogo para mais uma exibição internacional barata. Ele esperou até que o ritmo do Cazaquistão se degradasse, virando aquela caminhada confusa que é o que Beckham atualmente prefere.
Nada do gênero ocorreu em Montevidéu. O Uruguai pode ser um pequeno vizinho do Brasil, mas desde a primeira Copa do Mundo - no Uruguai - o país tem sido um concorrente aguerrido do seu irmão maior. Até o sábado, o Brasil jamais havia vencido um jogo competitivo em solo uruguaio.
Imaginem, portanto, o clima no estádio Centenário. Imaginem as pressões sobre as mentes dos brasileiros. O técnico da Seleção Brasileira, Carlos Dunga, está tentando impor uma ética de trabalho sobre o Brasil. Ele retirou Ronaldinho do time, talvez para sempre. Ronaldinho não se encaixa no esquema pragmático de Dunga.
Dunga transformou o Brasil no time do continente contra o qual é mais difícil marcar gols, e poder-se argumentar que foi neste último final de semana que a "Dungaização" do Brasil realmente firmou raízes.
Seis homens estavam na defesa a todo momento. Os criadores de lances de meio de campo recuavam ao menor sinal de perigo. Até mesmo Robinho, Kaká e Fabiano lutavam quando o Uruguai atacava. Mas eles disparavam para a frente, culminando os seus esforços com investidas rápidas e dinâmicas através da defesa do Uruguai nos momentos de contra-ataque.
A vitória foi auxiliada e encorajada pelo goleiro uruguaio, Sebastian Viera. O goleiro passou a maior parte da última temporada como reserva do clube espanhol Villarreal, e parecia despreparado quando um chute de sondagem de longa distância dado por Daniel Alves passou por ele na jogada que resultou no primeiro gol.
Viera também calculou mal uma cobrança de escanteio que permitiu que o zagueiro Juan marcasse de cabeça o segundo gol. Entre as duas jogadas, quando o Uruguai atacou com uma ambição febril, o goleiro brasileiro, Júlio César, mostrou-se imbatível.
O terceiro gol do Brasil, após 52 minutos, foi uma joia. Robinho, Kaká e Elano fizeram passes intuitivos até que Fabiano disparasse um tiro de potência temível que ninguém seria capaz de defender.
Mais tarde Fabiano foi expulso, supostamente por simular um pênalti. Ele já havia recebido um cartão amarelo. Mas a expulsão em nada mudou o jogo. Kaká, o armador que na próxima segunda-feira provavelmente confirmará a sua transferência do Milan para o Real Madri, continuou exibindo lampejos da sua habilidade para criar jogadas a partir do nada.
Ele sofreu e cobrou um pênalti para fechar o placar.
A filosofia de Dunga cresce no time. Desde a Copa do Mundo de 1966, quando Pelé foi impiedosamente chutado pelos búlgaros, alguns brasileiros têm procurado sacrificar a técnica em nome da dureza.
Essa tática nunca foi tão aplicada, ou pareceu tão convincente, quanto no sábado. Os românticos não gostaram. Mas Dunga conta com as vitórias, e por ora os astros estão dançando de acordo com a sua música.
Já Diego Maradona, da Argentina, encontra-se em uma posição mais perigosa depois que o seu time foi destruído pela altitude na Bolívia. Apesar de ele ter sido um grande jogador, há muitas dúvidas quanto à sua capacidade como técnico.
No sábado, no nível do mar, os jogadores pareciam desconfortáveis e confusos contra a Colômbia. O plano tático de Maradona - usar três defensores centrais e nenhum zagueiro, colocando quatro homens no meio de campo e usando três atacantes - concedeu a posse de bola à Colômbia.
Nos bancos, o próprio Maradona parecia atônito e inerte. Mas ele afirmou que merece crédito por ter revertido a situação.
"Durante a metade do tempo jogado eu estive furioso", disse ele mais tarde. "No primeiro tempo, a Colômbia ganhou todas as bolas divididas. Isto não pode ocorrer no nosso próprio estádio".
Maradona, ou outra pessoa, modificou o time ao convocar o ex-capitão Javier Zanetti. E ele mudou a formação para um convencional 4-4-2. Foi um zagueiro, Daniel Diaz, que deu o chute que garantiu a vitória argentina. Maradona foi poupado. Mas, na quarta-feira, a Argentina precisará vencer novamente - à grande altitude, contra o Equador, em Quito.
Tradução: UOL