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15/06/2009

Um dia de aflição no Irã

International Herald Tribune
Por Roger Cohen
Em Teerã (Irã)
Ela estava aos prantos, como muitas mulheres nas ruas da violenta capital iraniana. "Jogue fora sua caneta e papel e venha nos ajudar", disse, apontando para meu bloco de notas. "Não há liberdade aqui."

E ela se foi, entre a multidão confusa próxima ao Ministério de Interior fechado, de onde saiam pick-ups cheias de policiais de choque vestidos de preto. A "onda verde" de euforia pré-eleitoral do Irã ficou negra.

No fim da rua, do lado de fora do comitê de campanha abandonado do candidato reformista derrotado, Mir Hussein Mousavi, a polícia vinha em uma falange barulhenta, de cassetete em mão: dois em cada motocicleta, espantando as pessoas e batendo nelas.

"Dispersem ou faremos outras coisas e aí vocês vão ver". A voz, que vinha de um megafone da polícia, era firme em sua ameaça. "Você, aí, de chapéu branco, estou falando com você."

A raiva pairava no ar, uma névoa taciturna envolvia a cidade, mais densa do que a poluição, tão amarga quanto a esperança destruída.

Eu disse "derrotado". Mas tudo o que vi sugere que Mousavi, que segundo os rumores está sob prisão domiciliar, foi enganado, que o povo iraniano foi fraudado, no que Mousavi chamou de um ato de "feitiçaria" oficial.

Duas horas depois do fechamento das urnas, contrariando experiências anteriores e regras eleitorais, o Ministério de Interior, através da agência de notícias estatal, anunciou uma vitória esmagadora do presidente Mahmoud Ahmadinejad, cuja abordagem fantástica do mundo e da história mundial parece ter criado outro episódio fantástico.

Em todo o país, em regiões de grandes disparidades étnicas e sociais, incluindo as áreas da etnia Azeri, que havia indicado forte apoio a Mousavi (ele próprio um Azeri), a margem de Ahmadinejad mal oscilou, terminando com uma porcentagem oficial de 62,63%. Isso significa 24,5 milhões de votos, espantosos 8 milhões a mais do que ele recebeu há quatro anos.

Nenhum dado que eu encontrei sobre a base de apoio de Ahmadinejad entre os pobres das regiões rurais e urbanas, conservadores religiosos e ideólogos revolucionários chega a 6 milhões de votos daquele número.

Ahmadinejad venceu nas cidades natais de outros candidatos, incluindo na de Mousavi. Ele venceu em todas as principais cidades exceto Teerã. Ele venceu com ampla vantagem, no cenário de crise econômica.

  • Arte UOL


Ele venceu enquanto o Ministério do Interior era fechado, sites de oposição foram tirados do ar, mensagens de textos foram cortadas, telefones celulares interrompidos, acesso à internet impedido, dezenas de nomes da oposição foram presos, universidades fechadas e uma massiva demonstração de força foi orquestrada para convencer o público incrédulo do resultado.

Da noite para o dia, todo um movimento e um sentimento evaporaram, ao ponto que acabaram parecendo uma alucinação.

As multidões chamaram a situação de "golpe de Estado". Elas gritavam "Marg Bar Dictator" - "Morte ao ditador". Com os olhos em fúria.

Argumentei pelo diálogo com o Irã e ainda acredito nisso, mas agora, em nome dos milhões de pessoas defraudadas, a iniciativa do presidente Obama precisa esperar um certo tempo.

Também argumentei que, apesar de repressora, a República Islâmica oferece uma margem significativa de liberdade para os parâmetros regionais. Errei ao subestimar a brutalidade e o cinismo de um regime que sabe como usar a crueldade.

"Este é o meu país", disse uma jovem para mim, com a voz trêmula. "Isto é um golpe. Eu poderia ter ido trabalhar na Europa, mas voltei por causa do meu povo". E ela, também, chorava.

"Não chore, seja corajosa", um homem a aconselhava.

Ele trabalhava no Ministério de Interior. Ele mostrou sua carteira de identificação. Disse que havia trabalhado lá 30 anos. Ele falou que foi proibido de entrar; assim como a maioria dos outros funcionários. Ele disse que os votos nunca foram contados. Ele falou que os números foram simplesmente atribuídos a cada candidato.

Ele disse que perguntou à polícia porque uma "vitória" precisava de tanta opressão. Ele disse que lutou na guerra do Iraque em 1980-1988, seu irmão foi um mártir e agora sua juventude parece perdida e o sacrifício do país parece ter sido em vão.

Citando Ferdowsi, o poeta épico, ele disse: "Se não há Irã, que eu não seja". Os poetas são o refúgio de todas as nações feridas - basta perguntar aos poloneses - e nenhum outro lugar está mais ferido do que aqui nesse momento.

O Irã ainda existe, é claro, mas hoje é um lugar deslocado. As divisões foram expostas, entre os patronos da revolução - o líder supremo Ayatollah Ali Khamenei e o ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani - e entre o regime e o povo.

Khamenei, sob pressão de Rafsanjani, parecia pronto a permitir que a eleição acontecesse, mas ele mudou o rumo, sob a pressão, ou talvez até sob ordem da Guarda Revolucionária e de outras bases políticas poderosas.

Uma repressão dura está a caminho. Não está claro até que ponto, e por quanto tempo, os iranianos podem resistir.

Em Vali Asr, a bela avenida que estava em festa até a votação, multidões caminhavam ao anoitecer, confrontando a polícia de choque e o gás lacrimogênio. "Mousavi, Mousavi. Devolvam nossos votos", elas cantavam.

Majir Mirpour me agarrou. Uma escoriação roxa desfigurava seu braço. Ele levantou a camisa para mostrar um ferimento vermelho em suas costas. "Eles me bateram como a um porco", disse ele, sem fôlego. "Bateram enquanto eu tentava ajudar um mulher que chorava. Não ligo para a dor física. É a dor no meu coração que machuca."

Ele olhou para mim e a raiva em seus olhos fez com que eu quisesse jogar longe meu bloco de notas.

Roger Cohen é colaborador do International Herald Tribune.



Tradução: Eloise De Vylder

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