Tanto a Coreia do Norte quanto a Coreia do Sul, divididas pela ideologia e pelo temor provocado pelo desenvolvimento de armas nucleares pelo Norte, se classificaram pela primeira vez para a mesma Copa do Mundo.
Isso foi confirmado nas partidas de quarta-feira pelas eliminatórias regionais asiáticas para 2010. É a primeira vez que a Coreia do Norte chega à Copa do Mundo desde 1966.
Os quatro países classificados da Ásia são Austrália, Japão, Coreia do Norte e Coreia do Sul. A Ásia provavelmente terá um quinto classificado. Bahrein e Arábia Saudita disputarão dois jogos em setembro, com o vencedor disputando com a Nova Zelândia outro mata-mata por uma vaga na Copa do Mundo. E com base na semana passada, a Nova Zelândia não tem muita chance: ela pode ser gigante na Oceania, mas é uma anã na esfera mundial.
Mas apesar da Coreia do Norte de forma metódica e chata ter obtido o empate em 0 a 0 que precisava para superar a Arábia Saudita em Riad, algo além do esporte estava acontecendo em Seul.
Seis jogadores iranianos usaram pulseiras verdes em uma demonstração de solidariedade para com aqueles que marchavam nas ruas de Teerã, após a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad. E apesar de cinco jogadores terem removido as pulseiras no intervalo, o capitão Mehdi Mahdavikia manteve a sua até o final.
Mahdavikia, 31 anos, é conhecido na Alemanha, onde joga há 11 anos, como ala e jogador de talento. Ele conhece as regras do jogo e da vida. Ele fez tudo o que pôde em Seul, mas o resultado de 1 a 1 eliminou sua equipe da Copa do Mundo.
Enquanto os jogadores atuavam em campo, seguranças à paisana -supostamente funcionários da embaixada iraniana- brigavam para remover as faixas e bandeiras dos torcedores iranianos no estádio em Seul. Uma dizia "Libertem o Irã", outra "Vá para o Inferno, Ditador".
A federação de futebol sul-coreana disse após a partida que as brigas foram pequenas. Dificilmente é como a Fifa, a federação internacional de futebol, vê a situação. A Fifa tenta proibir a presença de quaisquer gestos políticos no seu esporte.
Mas até mesmo a Fifa está ciente de que a vida não está normal na Península Coreana. Ao longo do ano passado, ela teve que ordenar que a Coreia do Norte jogasse sua partida em casa contra a Coreia do Sul em território neutro, em Xangai, porque a Coreia do Norte se recusava a autorizar a bandeira ou hino da Coreia do Sul em Pyongyang.
Após a partida de volta em Seul, o Norte protestou que sua derrota por 1 a 0 ocorreu por culpa de envenenamento deliberado da comida de seus jogadores e pelo adversário ter sido favorecido pelo juiz de Omã.
O fato é que a concentração da Coreia do Norte na defesa conquistou pontos suficientes. Em oito partidas da fase final do grupo asiático, ela marcou apenas sete gols, mas tomou apenas cinco. Na fase preliminar, sua defesa só levou um gol em seis jogos.
Tudo isso faz lembrar a Itália, que foi famosamente derrotada pela Coreia do Norte por 1 a 0 na Copa do Mundo na Inglaterra, em 1966. A acrimônia nos esportes que espelha a política parece distante do espírito das duas Coreias marchando juntas como uma, nos Jogos Olímpicos de Atenas ou nos Jogos Asiáticos.
"Nós temos duas equipes, mas temos o mesmo sangue", disse Yun Jong-su, o técnico da Coreia do Norte, em 2004. "No momento nós estamos separados, mas espero que algum dia possamos nos classificar juntos para a Copa do Mundo, e irmos para lá unidos."
Essas esperanças parecem distantes agora.
A referência de Jong ao mesmo sangue me recorda de um dos dias mais comoventes dos meus 40 anos cobrindo esportes.
Foi em um amanhecer de abril de 1996 quando, de seu apartamento com vista para o Rio Han em Seul, um idoso descreveu seu sentimentos de estar exilado no Sul, mas tendo jogado como goleiro pelas duas Coreias.
Hong Duk-young foi o goleiro da Coreia do Sul na Copa do Mundo de 1954, na Suíça, e posteriormente árbitro. Sob seu apartamento no dia seguinte, eu participei de uma partida em um campo de pedriscos às margens do rio. Os participantes eram na maioria septuagenários.
Toda manhã às 7h, independente do clima, eles vinham para compor os jogadores das Cinco Províncias da Coreia do Norte. Um desses jogadores, Park Hyung-kun, tinha 76 anos. Magro e musculoso, cego de um olho mas com a mente aguçada, Park vivia para jogar aquelas partidas.
"Todos nós", ele disse. Nascido no Norte, exilado no Sul, Park disse que sonhava que seus irmãos, primos e conterrâneos estariam jogando do outro lado da fronteira.
"Espero algum dia jogar com nossos irmãos", ele disse. "Quem sabe se chegarmos à Copa do Mundo, isso promova um diálogo."
"Quem sabe então eu possa jogar ou ao menos ser enterrado na grande área do local onde nasci, a província de Hwanghae."
Seu sonho não está mais próximo de realizar do que parecia em 1988, quando os Jogos Olímpicos foram realizados em Seul. O mundo veio jogar, mas Pyongyang permaneceu de fora dos Jogos. Uma janela se fechou. Agora, pelo menos, as Coreias estão convidadas para a mesma Copa do Mundo, na África do Sul em 2010.
Tradução: George El Khouri Andolfato