Esta se tornou uma cidade de sussurros. Muitas pessoas com as quais falei quando cheguei na semana passada estão na prisão. Tiros e facadas pontuam a noite. O medo toma os becos e ruas sem saída. Mesmo assim, os sussurros continuam.
"Amanhã, Praça Vanak." Ou "Quatro horas, Praça Imã Khomeini". Ou "Todo mundo de preto".
Um resultado eleitoral foi anunciado há uma semana que, nas palavras do mais importante aiatolá de oposição, Hossein Ali Montazeri, "nenhuma pessoa em seu juízo perfeito consegue acreditar".
A força tentou impor o falso, mas ainda assim ele não colou. Chaves foram desligadas para bloquear mensagens de texto e celulares. Mesmo assim os sussurros continuaram.
Por parte de um menino de quatro anos: "Ahmadi-bye bye" - se referindo ao presidente Mahmoud Ahmadinejad. De uma mulher jovem com uma foto de Mir Hussein Moussavi, o líder de oposição cujas aparições ocasionais causam abalos: "Cinco horas, Praça Vali Asr".
O sussurro é ouvido no silêncio da multidão. É o mecanismo do boca a boca do levante do Irã. Eu nunca vi tamanha disciplina conseguida com tão pouco, milhões convocados e coordenados quase sem emitir um som. "O silêncio vencerá as balas", dizia uma faixa.
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O colunista do UOL, Luiz Felipe de Alencastro, comenta a crise política no Irã. Para Alencastro, o discurso do aiatolá Ali Khamenei deve fazer aumentar ainda mais os protestos da oposição.
As chances ainda são contra isso. Mas Ahmadinejad, em seu habitual modo bipolar (mas maníaco), está fazendo o papel de bonzinho. "Nós gostamos de todos", ele agora diz. Eu suponho que fale daqueles que não estão na prisão, no hospital ou no cemitério.
Entretanto, o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo do país, adotou um tom duro no sermão das orações de sexta-feira, ameaçando um banho de sangue caso os protestos continuem, culpando a mídia estrangeira "sionista" pelas perturbações, e saudando a vitória de Ahmadinejad como "uma demonstração magnífica de responsabilidade por parte do povo".
Os fatos são duros. Dois Irãs se enfrentam. Um das conquistas da revolução de 1979 foi que ela levou educação para muito mais iranianos. Eu falei outro dia com uma médica. Ela usava uma máscara cirúrgica enquanto marchava. Ela trabalha em uma clínica de uma empresa estatal de petróleo. Ela tinha 20 em 1979 e também marchou naquela época.
"As pessoas são muito mais instruídas e cultas agora", ela me disse. "Elas sabem os riscos. Isto é profundo. Moussavi irá até o fim por nossa liberdade."
O Irã busca a independência e alguma forma de democracia há mais de um século. Ele agora possui a primeira, mas esta eleição deixou claro, para grande parte da população jovem, a completa negação da segunda por parte da República Islâmica.
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O sentimento na população parece ser: é agora ou nunca, todos juntos agora e empurrem!
Um homem mostra seu celular para mim: um vídeo de um homem baleado na cabeça na segunda-feira. Um homem de 28 anos sussurra: "O governo empregará mais violência, mas alguns de nós precisam fazer o sacrifício".
Outro sussurro: "De onde você é? Quando disse que dos Estados Unidos, ele respondeu: "Por favor, mande lembranças à liberdade".
O que me traz ao presidente Barack Obama, que disse em seu discurso de posse: "Aqueles que se agarram ao poder por meio da corrupção, logro e silenciamento da dissidência, saibam que vocês estão no lado errado da história; mas que estenderemos a mão caso estiverem dispostos a abrir seu punho".
Raramente um punho se mostrou mais cerrado do que após este resultado eleitoral. O logro e a tentativa de silenciar a dissidência agora são a moeda corrente do Irã. Nesta cidade de sussurros, um deles agora é: Onde está Obama?
O presidente está certo em pisar com cuidado, dada a venenosa história entre os Estados Unidos e o Irã, mas tem exagerado na cautela. Ele soa mais como um homem ensaiando falas preparadas do que o líder do mundo livre. Uma condenação mais forte da violência e repressão é necessária. Obama também precisa retificar seu erro ao igualar, do ponto de vista da segurança nacional americana, Ahmadinejad a Moussavi.
Ahmadinejad é o Sr. Nuclear do Irã. Ele promoveu um rápido avanço do programa e, por meio de pregação em cada mesquita de aldeia, o associou com sucesso à nacionalização da indústria do petróleo, como sendo uma afirmação do nacionalismo iraniano.
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Por sua vez, Moussavi não rejeitou o programa, mas tem atacado a política externa "ilusória" e "aventureira" de Ahmadinejad. Estas são diferenças essenciais.
Obama deve pensar bastante sobre se este golpe nas urnas não se trata de dar precisamente a Ahmadinejad e seu círculo industrial-militar mais quatro anos para alçar o Irã pelo menos ao status virtual de potência nuclear.
Ele também deve pensar muito a respeito das diferenças de caráter: Ahmadinejad é volátil e teimoso, o interlocutor do inferno, enquanto Moussavi é estável e comedido.
Ignorar estas distinções como um professor isento, em um momento em que as pessoas estão morrendo nas ruas do Irã, não é uma forma de honrar esta frase do seu discurso de posse: "Saibam que a América é amiga de cada nação e cada homem, mulher e criança que busca um futuro de paz e dignidade, e que estamos prontos para liderar novamente".
Quando estive aqui no início deste ano, eu argumentei que o Irã era uma sociedade repressiva e não livre, mas também uma nação oferecendo margens significativas de liberdade, pelo menos segundo os padrões regionais, algo que os Estados Unidos de Obama deveriam apoiar. Depois do Iraque, eu fiquei profundamente preocupado com a possibilidade do estereótipo fácil de uma sociedade de "mulás malucos", inclinados ao Armageddon nuclear, poder colocar os Estados Unidos de novo no caminho de uma guerra.
Eu subestimei quão brutal o regime podia ser. Mas minhas críticas subestimaram quão forte e ampla a coragem cívica e o impulso democrático do Irã podem ser, e elas se equivocaram em quão importante era esta eleição, ao menosprezá-la como sendo um exercício inútil de uma ditadura clerical.
Eu ainda acredito que não há alternativa para o diálogo. Mas não é hora de Obama falar sobre diálogo. Ele deve falar sobre seu ultraje com a violência.
SOBRE O AUTOR
Roger Cohen é o editor do "The International Herald Tribune"
Esta é a cidade dos sussurros. Seu povo anseia por saber que suas vozes sussurradas estão sendo ouvidas. Obama, um amante de palavras, é o mensageiro. "Mensagem recebida" é o que ele deve transmitir.
Tradução: George El Khouri Andolfato