Não é um aniversário muito lembrado, mas vale a pena registrar, especialmente diante dos eventos recentes no Irã, que a prisão e humilhação de Xiao Bin ocorreu há 20 anos e poucas semanas atrás.
Xiao Bin era um operário de fábrica desempregado de 42 anos que, um dia após a violenta repressão da China contra as manifestações pró-democracia na Praça Tiananmen, em Pequim, descreveu para a "ABC News" como os soldados chineses atiraram contra os manifestantes desarmados, dando um tiro extra neles após estarem mortos, ele disse.
Reveja especial Tiananmen
A descrição de Xiao, que era consistente com o depoimento de outras testemunhas, foi dada no momento errado, quando a vasta máquina de propaganda da China estava jogando o massacre no buraco da memória de Orwell, enchendo as ondas de radiodifusão e jornais com a mensagem de que a repressão, que talvez tenha resultado na morte de mil pessoas, nunca ocorreu.
"Nenhum estudante foi morto", disse um comandante do exército para a televisão chinesa, contradizendo o depoimento de Xiao, os relatos dos hospitais de Pequim e a amarga experiência dos pais cujos filhos foram mortos. Xiao foi preso e forçado a pedir desculpas por espalhar "rumores", além de sentenciado a 10 anos em um campo de trabalhos forçados. A declaração do comandante do exército rapidamente se transformou na crença obrigatória de toda a sociedade chinesa.
Os chineses tiveram sucesso nos últimos 20 anos em reprimir o comentário público a respeito do massacre, de forma que os jovens que crescem atualmente na China só aprendem a versão oficial: a de que as pessoas que morreram naquele dia foram os soldados que corajosamente removeram das ruas aqueles que foram rotulados de "baderneiros" na época. É possível sentir que esse sucesso provavelmente não passou desapercebido pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad e pelas forças de segurança iranianas, que têm usado gás lacrimogêneo e cassetetes para reprimir os manifestantes em Teerã.
É impossível dizer, é claro, como o caso iraniano se desdobrará e se o público virá a aceitar a versão oficial da recente eleição, a de que foi vencida por grande margem por Ahmadinejad e que os relatos de fraude eleitoral são mentirosos. Quanto a isso, é impossível saber se ele de fato foi preferido por 62% dos eleitores iranianos.
Mesmo assim, o modo como o Irã lidou com a eleição parece cada vez mais uma repetição do modelo chinês -supressão violenta seguida por um esforço orquestrado de propaganda para moldar a forma como os eventos recentes serão percebidos. A imprensa estrangeira foi expulsa; os esforços para controlar as comunicações na Internet prosseguem; as manifestações em massa estão sendo atribuídas a planos estrangeiros e sionistas perniciosos, e as mortes de manifestantes estão sendo atribuídas não às milícias Basij ou outras forças de segurança mas, como o próprio Ahmadinejad colocou, a "terroristas" e "vândalos" sem nome -um pouco como o "pequeno número de baderneiros" que, na visão oficial da China, foram responsáveis pela violência em Tiananmen.
Ao longo dos anos, acadêmicos escreveram muito sobre as técnicas de propaganda inventadas no início e meados do século 20 pelos regimes totalitários da Alemanha e da União Soviética -a Grande Mentira, inesquecivelmente satirizada por Orwell em "1984", sendo a mais grosseira delas. A China a utilizou e ainda utiliza. E surge a pergunta sobre se a resposta do regime iraniano aos protestos em massa pós-eleitorais não é outro exemplo de um regime recorrendo aos mesmos métodos.
Certamente há muita evidência de que sim. Ahmadinejad, cujas declarações no passado de negação do Holocausto certamente se enquadram como uma grande mentira, pediu na semana passada por uma investigação da morte de Neda Agha-Soltan, a jovem cujos últimos momentos foram vistos por milhões ao redor do mundo pelo YouTube. Você acha que Neda foi morta pela milícia? Bem, estão dizendo em Teerã que foi na verdade um jornalista britânico trabalhando para a BBC que organizou os baderneiros que a assassinaram, supostamente para incriminar os inocentes serviços de segurança iranianos.
Anos atrás, o filósofo polonês Leszek Kolakowski explicou a notável adesão dos ditadores totalitários à grande mentira, que Kolakowski distinguiu da desonestidade política comum -um excelente exemplo sendo a alegação recente do governador da Carolina do Sul, Mark Sanford, de que estava desfrutando um descanso realizando uma caminhada pelos Montes Apalaches, quando na verdade estava com sua amante na Argentina.
A mentira política comum, na visão de Kolakowski, não busca apagar "a distinção entre verdade e mentira", enquanto a grande mentira totalitária sim. Ela define a verdade como sendo aquela que os detentores do poder dizem que é, e, neste sentido, como escreveu Kolakowski em um artigo de 1983 para a revista "Commentary", está "no âmago de um sistema político, no coração de uma nova civilização".
"Ao treinar as pessoas nesta confusão", escreveu Kolakowski, "e ao inoculá-las a acreditar que nada é verdadeiro", isso "produzirá um novo 'homem socialista', desprovido de vontade e de resistência moral".
Isso poderia descrever o que aconteceu na China com a prisão de Xiao Bin em 1989. Mas também descreve o que está ocorrendo no Irã, que pode estar se tornando uma ditadura, mas decididamente não é um Estado totalitário ou socialista?
"Os iranianos estão dizendo mentiras medianas", disse Timothy Snyder, um professor de história do Leste Europeu em Yale em uma conversa nesta semana. A principal meta da propaganda iraniana é culpar inimigos externos por problemas internos, uma prática, disse Snyder, que foi usada pela primeira vez em grande escala na Europa de meados do século 19, muito antes da era de controle total do pensamento.
Ainda assim, parece haver mais do que um leve eco da grande mentira clássica no caso de Ahmadinejad e das ações dos serviços de segurança.
"Um motivo para a mentira ter que ser grande", disse Snyder, "é para as pessoas sentirem que se seus líderes têm tanta confiança a ponto de contar uma mentira tão grande, ou são loucos ou possuem uma poderosa força de segurança por trás deles".
Isso não significa que as mentiras que os líderes do Irã estão contando funcionarão. De fato, há muitos sinais de que não. Ao mesmo tempo, os eventos no Irã provaram que os líderes estão dispostos a controlar a informação e contam com o apoio de uma força de segurança poderosa e impiedosa.
Tradução: George El Khouri Andolfato