Apenas agora, um ano depois, é que o momento mais memorável na primeira corrida noturna da Fórmula 1 vem à tona: um acidente que revelou ser um dos piores casos de trapaça na história do esporte.
Todas as categorias de esporte a motor possuem seus incidentes de trapaça, e a principal de todas teve várias nos últimos anos. Mas nunca houve um caso como o que foi revelado no mês passado, quando Nelson Piquet Jr., um ex-piloto da equipe Renault, disse à Federação Internacional de Automobilismo (FIA), a entidade que rege o esporte, que os diretores de sua equipe lhe pediram que encenasse um acidente para ajudar seu companheiro de equipe, Fernando Alonso, a vencer o Grande Prêmio de Cingapura.
Não apenas era um cenário sem precedente, mas ia contra todos os princípios professados do esporte: segurança, justiça, triunfo da tecnologia superior e a integridade dos maiores pilotos de corrida do mundo.
Como resultado, a Renault recebeu uma punição da entidade na segunda-feira, por seu envolvimento no acidente. Em sua decisão, a FIA disse que equipe será banida da F1 se violar novamente as regras da federação.
Por seus papéis no caso, Flavio Briatore, 58 anos, o chefe da equipe Renault, foi banido para sempre dos esportes a motor, e Pat Symonds, 55 anos, que era o diretor de engenharia da equipe, foi suspenso por cinco anos. Ambos já tinham deixado a equipe em 16 de setembro.
Alonso, 28 anos, foi absolvido de qualquer responsabilidade no caso. Nelsinho Piquet, 24 anos, também não foi punido, pois recebeu imunidade pelos investigadores da FIA quando iniciaram sua investigação formal.
Agora, enquanto a categoria retorna neste fim de semana para seu segundo Grande Prêmio noturno pelas ruas de Cingapura, a Fórmula 1 está no meio de uma autoanálise raramente vista antes.
A pista de rua estreita de Cingapura, cercada por edifícios elevados, foi a joia da coroa da categoria no ano passado, com sua iluminação magnífica a tornando mais clara à noite do que de dia. Foi a própria natureza do circuito que se prestou à armação do acidente, como foi revelado por Piquet.
De fato, ela era mais adequada a esse cenário do que qualquer pista do calendário, exceto as ruas de Mônaco, o Grande Prêmio no qual Cingapura se inspirou, com seu glamour, vibração, cenário urbano e uma pista confinada entre paredes de concreto, onde pouca disputa real provavelmente acontecerá.
Em um circuito densamente povoado por carros de corrida e com poucas áreas de escape no caso de um acidente, a prova corria o risco de, como Mônaco, ser uma em que o vencedor seria aquele mais próximo da ponta que permanecesse mais tempo na prova. Os diretores da equipe Renault decidiram usar isso em prol de Alonso, disse Piquet, apesar de Alonso, duas vezes campeão do mundo, não ter sido informado da "estratégia".
O carro de Alonso foi rápido o bastante nos treinos de classificação no dia anterior para ficar na pole position, mas um problema técnico estragou suas chances e ele ficou apenas na 15ª posição. Piquet se classificou em 16º. A estratégia, portanto, era Alonso correr com pouco combustível no início, chamá-lo para um pit stop antecipado e então Piquet bater poucas voltas depois.
Segundo esse cenário, com a entrada do safety car na pista enquanto o carro de Nelsinho e os destroços eram removidos, os outros competidores à frente de Alonso fariam suas paradas e Alonso iria para a frente. Como aconteceu, os pilotos à frente de Alonso foram penalizados por entrar no pit lane enquanto estava fechado, e o líder da prova, Felipe Massa, sofreu um acidente em seu pit stop durante esse mesmo período, de forma que Alonso assumiu a ponta e venceu a corrida.
No passado, a maioria dos incidentes de trapaça na Fórmula 1 envolvia tecnologia. Em 2007, a McLaren Mercedes foi multada em US$ 100 milhões após ter reconhecido o roubo de segredos técnicos de sua rival, a Ferrari. Em 2005, a equipe BAR-Honda foi suspensa por duas provas por ter usado dois tanques de combustível, o que permitiu à equipe trapacear no peso do carro.
Também ocorreram vários casos de pilotos tirando uns aos outros da prova na tentativa de ganhar pontos, como os dois incidentes envolvendo Ayrton Senna e Alain Prost em 1989 e 1990, ou Michael Schumacher e Jacques Villeneuve em 1997.
Mas o que fez o incidente em Cingapura diferente foi o fato de ter sido uma estratégia premeditada pela equipe que não apenas falsificou o resultado da prova, mas também colocou em perigo o piloto que a equipe pediu para bater, assim como outros pilotos, fiscais de pista e o público.
Piquet descreveu o plano em sua declaração à FIA: "Symonds me chamou para um canto e, usando um mapa, apontou a curva exata onde eu deveria bater. Essa curva foi escolhida porque não havia lá nenhum guincho que pudesse içar o carro, nem tinha saídas laterais, o que forçaria a entrada da equipe para retirar o carro danificado da pista".
Na volta 14, Piquet não entrou corretamente na curva, derrapou, deslizou de lado e bateu seu carro contra o muro no lado oposto. O carro foi destruído. Piquet não se machucou.
"Lamento, eu escapei um pouco", disse Piquet pelo rádio do carro ao box, aparentemente em benefício dos membros da equipe que não sabiam que o acidente tinha sido intencional.
O acidente pareceu tão real que o piloto atrás de Piquet no momento, Adrian Sutil, da equipe Force India, tinha certeza que não tinha sido intencional.
"Pareceu um acidente normal de corrida", disse Sutil. "Eu estava pressionando ele por algumas voltas, realmente próximo. Ele acelerou um pouco cedo, o carro escorregou e ele bateu no muro. Se foi de propósito, foi algo realmente profissional e ele fez um excelente trabalho."
Mas a motivação por trás dele não foi nada profissional.
Nos últimos anos, os valores em jogo na categoria subiram para alturas vertiginosas, com as equipes de Fórmula 1 gastando bilhões de dólares em Grandes Prêmios ao redor do mundo e nos carros de corrida mais caros já construídos. A prova de Cingapura foi rotulada como uma para desafiar Mônaco em glamour e prêmios em dinheiro.
O que aconteceu em Cingapura, em setembro do ano passado, apresentava a mesma mentalidade que levou ao colapso econômico mundial, que ocorreu apenas dias antes da corrida.
Basicamente, ela reflete um desejo de tomar atalhos para chegar a um objetivo, o que o escritor britânico Colin Wilson notou ser o que define os atos criminosos por toda a história.
"A criminalidade não é uma disposição pervertida de fazer o mal em vez do bem", escreveu Wilson em "A Criminal History of Mankind". "É apenas uma tendência infantil de tomar atalhos. Todo crime tem a natureza de um saque, de quebrar vitrine e tomar algo; é uma tentativa de conseguir algo por nada. O ladrão rouba em vez de trabalhar pelo que quer."
De fato, a estratégia em Cingapura aparentemente foi um saque para os diretores e piloto da Renault.
"Durante aquela conversa, eu estava em um estado mental e emocional muito frágil" disse Piquet, que estava em sua primeira temporada na Fórmula 1, em sua declaração. "Isto se deu devido ao intenso estresse causado pelo fato de que Briatore recusou informar se meu contrato seria ou não renovado na próxima temporada."
"Quando me pediram para bater, aceitei porque esperava que isso melhorasse a minha posição dentro da equipe. Em nenhum momento ninguém me disse que, se eu causasse o acidente, teria meu contrato renovado. Mas, naquele contexto, eu pensei que ajudaria."
Em outras palavras, ele viu aquilo como um atalho para manter sua posição na equipe -em vez de pilotar melhor.
Briatore e Symonds também estavam sob pressão por resultados. Após conquistar títulos mundiais com Alonso em 2005 e 2006, a Renault não vencia uma corrida desde o Grande Prêmio do Japão de 2006 e a equipe estava ansiosa em manter Alonso como piloto, para agradar Carlos Ghosn, o presidente da fábrica de carros Renault, que é dona da equipe, e que gosta de cortar custos. Que melhor forma do que um bom resultado na primeira corrida noturna da história da categoria, uma que estava recebendo mais cobertura da mídia que os demais grandes prêmios.
Na verdade, Briatore e Symonds poderiam simplesmente ter aguardado pela corrida seguinte, o Grande Prêmio do Japão, no qual Alonso venceu sem trapaças.
Poucos presentes na corrida do ano passado podiam acreditar que o acidente foi forjado, apesar de muitos terem imaginado.
"Havia alguns cínicos (sempre há) que acharam que a estratégia da equipe era fazer o Nelson bater logo após a parada de Fernando, criando uma situação na qual Fernando teria uma vantagem sobre todos os demais", escreveu Joe Saward em sua reportagem a respeito do Grande Prêmio, no dia seguinte ao da corrida. "Há uma base para tal argumento, mas é preferível acreditar que nenhuma equipe estaria tão desesperada a ponto de pedir para que um piloto batesse seu carro contra um muro."
Tradução: George El Khouri Andolfato