Quando Angela Merkel assumiu o cargo de chanceler da Alemanha há quase quatro anos, ela rompeu com a tradição dos líderes anteriores, tendo concentrado-se primeiramente na política externa. Olhar para fora foi uma visão incomum, mas, segundo os assessores dela, necessária: as relações da Alemanha com os Estados Unidos, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), os seus vizinhos europeus orientais e até mesmo a União Europeia estavam extremamente ruins.
Mas neste momento em que Merkel, 55, prepara-se para uma eleição nacional no próximo domingo, da qual acredita-se que sairá vencedora, ela vem fazendo uma campanha discreta, voltada quase que totalmente para o cenário interno, sem exibir ideias a respeito do que pretende realizar nos próximos quatro anos e focando-se principalmente nela mesmo, e não no seu partido ou em posições políticas, segundo os especialistas em pesquisas e os analistas políticos.
Durante os seus 59 comícios eleitorais pelo país, Merkel evitou as questões polêmicas como a manutenção da energia nuclear e a redução de impostos. Por exemplo, no final do mês passado, ela disse a eleitores em Binz, uma cidade litorânea no nordeste da Alemanha, que o seu partido apoia a energia nuclear, "mas é claro que não indefinidamente". A multidão, ensopada pela chuva, aplaudiu a chanceler educadamente e sem entusiasmo, apesar de aquele ser um reduto eleitoral dela.
É improvável que ela mude esse roteiro na noite de sábado, quando fará o seu último comício no parque Treptower, na zona leste de Berlim, mesmo que as pesquisas indiquem que um quinto do eleitorado ainda encontre-se indeciso.
Alguns dos seus apoiadores dizem ter saudade da convicção com que Angela Merkel costumava falar sobre liberdade, direitos humanos e o papel da Alemanha na Europa. Esses tópicos foram substituídos por um pragmatismo ríspido com o objetivo de assegurar aos eleitores que a Alemanha superará a sua pior recessão em várias décadas.
Esse tema é apoiado pelo partido dela em cartazes eleitorais, que proclamam pouco mais do que a frase, "Nós temos a força".
Apesar dessa mensagem vaga - ou, talvez, por causa dela - a popularidade de Angela Merkel permanece intacta. Ela obteve 76% de aprovação em uma pesquisa de opinião publicada nesta semana na revista "Der Spiegel".
Karl-Theodor zu Guttenberg, o ministro da Economia conservador, defende o estilo de Merkel e diz que a cautela que ela vem exibindo na campanha não é nenhum problema. "É verdade que a campanha tem sido mais silenciosa do que o normal", afirmou ele em uma entrevista neste mês.
"Nesta situação, temos que deixar claro para o povo que só deixaremos de trabalhar quando concluirmos o nosso último dia no cargo".
Mesmo assim, nas maiores cidades, onde os apoiadores do partido dela são bem mais animados -vários jovens agitam cartazes com a inscrição "Angie"-, Angela Merkel, a primeira mulher chanceler da Alemanha, recebeu com frequência uma recepção entusiasmada. De fato, frequentemente, quanto menos ela fala, melhores são os seus resultados, em parte porque, quando faz discursos preparados, ou discorre sobre questões minuciosas, ela pode dar a impressão de ser fria e estática.
Foi isso o que ocorreu há quase três semanas, durante o único debate televisionado com o seu adversário, o ministro social-democrata das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier. Quando ele perguntou o que ela conseguiu realizar em uma grande coalizão de conservadores e social-democratas, Merkel respondeu: "O passado foi bom, e você não vai mudar a minha opinião quanto ao fato de termos feito muita coisa. Mas eu creio que é bom para a democracia quando as grandes coalizões não se tornam um fato normal".
Steinmeier, cuja popularidade tem aumentado de forma consistente nas pesquisas de opinião, à medida que ele se torna mais conhecido pela população, deu respostas concisas e gargalhou e sorriu com frequência, algo que ele não costuma fazer.
Para consternação dos seus apoiadores, Merkel não apresentou nenhuma das suas convicções políticas ou tiradas inteligentes. "O debate não serviu para me esclarecer nada a respeito da posição de Angela Merkel", afirmou Silke Vogt, 42, uma consultora de questões tributárias de Berlim, que votou em Merkel em 2005, mas que afirmou que não votará de novo na chanceler no domingo.
Dias após o debate, ao ser questionada a respeito da falta de animação da sua campanha, Angela Merkel respondeu: "As pesquisas de opinião nos energizam e motivam para que façamos uma campanha eleitoral ainda mais
forte".
Para Henning Riecke, especialista em segurança do Conselho Alemão de Relações Exteriores, em Berlim, a campanha demonstra como "Angela Merkel tornou-se extremamente cautelosa na hora de assumir uma posição quanto a qualquer questão que possa prejudicá-la".
Riecke acrescenta que essa cautela provavelmente será refletida nas futuras políticas do país, caso ela continue no cargo, pouco contribuindo para definir a política externa alemã de forma a torná-la mais global sob o ponto de vista estratégico.
"Não estou me referindo à projeção de poder por parte da Alemanha", afirma ele. "Mas sim à formulação de políticas externas na região, na União Europeia e até mesmo na Otan".
O grande sucesso de Merkel na região tem sido as relações da Alemanha com a Polônia. Ela deu uma atenção particular ao reparo destas relações, depois que estas ficaram prejudicadas durante a era do seu antecessor, Gerhard Schroder. Isso ocorreu quando Schroder estabeleceu uma amizade próxima com Vladimir V. Putin, que na época era o presidente da Rússia, e que, na opinião dos poloneses, trabalhava contra os interesses nacionais da Polônia.
De fato, o líder europeu mais próximo à chanceler é Donald Tusk, o primeiro-ministro polonês. "Temos uma relação acima da média", disse Tusk à Rádio Alemã na última quarta-feira.
Mas Merkel não utilizou essa relação com a Polônia em proveito da União Europeia, afirmam certos diplomatas. "Eu questiono se Angela Merkel contribuiu para a criação de uma política externa europeia comum", diz Denis MacShane, legislador britânico e ex-ministro para a Europa. Tendo em vista os vínculos econômicos estreitos da Alemanha com a Rússia, MacShane afirma que Angela Merkel encontrava-se em uma posição de força para influenciar a política europeia em relação à Rússia. "Mas ela não fez nada nesse sentido".
Nos Estados Unidos, o governo acusa frequentemente a Alemanha de não investir o suficiente no estímulo ao crescimento. Mas Angela Merkel e Guttenberg responderam dizendo que fizeram mais do que tem sido reconhecido, e que não estão preparados para gastar mais bilhões de euros dos contribuintes apenas para estimular os mercados ou os gastos dos consumidores.
Talvez o exemplo mais esclarecedor da virada introspectiva de Angela Merkel seja a forma como ela evita falar sobre o Afeganistão. Mas o assunto veio à tona neste mês, depois que um avião da Otan, solicitado pelo comandante alemão na província alemã de Kunduz, matou vários civis ao bombardear um caminhão que fora sequestrado por insurgentes do Taleban.
Merkel foi obrigada a usar a última sessão do parlamento para abordar a questão. Embora tenha dito que "lamenta profundamente" as vítimas inocentes, ela afirmou que não está disposta a aceitar "julgamentos prematuros" de críticos sobre o ataque aéreo.
Mas, apesar de todas as críticas ao fato de Angela Merkel não ter se concentrado nas questões externas, ela tentou reduzir essa imagem antes de viajar a Pittsburgh na última quinta-feira para participar do encontro de cúpula do Grupo dos 20 (G20). Ela disse a jornalistas em Berlim que os líderes precisavam concordar quanto a controles mais rígidos dos mercados financeiros para evitar uma outra crise financeira global que acabaria com a incipiente recuperação da Alemanha.
Não se sabe se os líderes presentes no encontro irão tão longe. O que é certo é que tanto europeus quanto norte-americanos concordam quanto àquilo que esperam da Alemanha. "Será que os europeus ficariam de fato mais satisfeitos se a Alemanha adotasse uma postura política agressiva?", pergunta MacShane. "A resposta é não".
Tradução: UOL