UOL Notícias Internacional
 

05/10/2009

Discórdia quanto às emissões nos EUA

International Herald Tribune
Tom Zeller Jr.
Em Nova York
Se alguém na comunidade internacional ainda estava com dificuldades para ver onde estavam as rachaduras no debate norte-americano sobre a mudança climática, a semana passada proporcionou alguma clareza.

  • Saul Loeb/AFP - 23.set.2009

    "Perigo: destruição climática à frente; reduza emissões de CO2 já", diz faixa pendurada por ativistas da ONG Greenpeace em ponte de Pittsburgh (EUA), onde ocorreu reunião do G20; ambientalistas reclamam de desinteresse de líderes mundiais pela crise do clima

A própria saída pública de várias grandes empresas da Câmara de Comércio dos EUA, que descreve a si mesma como "a maior federação mundial que representa três milhões de empresas de todos os tamanhos", foi enfatizada na quarta-feira com um anúncio da fabricante de tênis Nike de que ela, também, estava em desacordo com as posições da câmara sobre o aquecimento global e como ele deve ser combatido.

"Nós discordamos essencialmente da Câmara de Comércio dos EUA quanto ao tema da mudança climática", explicou a companhia numa declaração pública ao anunciar que estava renunciando à sua posição no quadro de diretores da Câmara.

"É importante que as empresas norte-americanas sejam representadas por uma Câmara forte e efetiva que reflita os interesses de todos os seus membros em vários assuntos", acrescentava a declaração. "Acreditamos que no tema da mudança climática, a Câmara não representa a diversidade de perspectivas do quadro de diretores."

A Nike disse que continuaria sendo membro da Câmara "para advogar por uma legislação sobre a mudança climática dentro da estrutura do comitê", mas sua declaração de oposição contra a posição da Câmara quanto à mudança climática veio apenas dias depois que várias companhias que prestam serviços públicos - incluindo a Pacific Gas & Electric, PNM Resources e a Exelon, a maior operadora de usinas nucleares dos EUA - deixaram a associação de uma só vez.

Como meus colegas Cliffor Krauss e Kate Galbraith reportaram na semana passada, a importância da disputa está aberta a interpretações.

Afinal, as companhias que dependem principalmente de energia nuclear livre de emissões devem se sair bem caso o Congresso norte-americano aprove o tipo de legislação de redução de emissões de carbono que está em discussão, e em relação à qual a câmara foi até agora veementemente contra.

Ainda assim, a oposição causou transtorno suficiente para que a Câmara de Comércio divulgasse uma resposta através de seu diretor-executivo, Thomas J. Donohue, que argumentou numa declaração na semana passada que o lobby das empresas "continua a apoiar uma forte legislação federal e um firme acordo internacional" para reduzir as emissões de dióxido de carbono.

"Algumas pessoas do movimento ambientalista acham que, por causa de nossa oposição a uma lei ou abordagem específica, devemos ser contra todos os esforços para reduzir os gases de efeito estufa ou que negamos a existência de qualquer problema", continuou Donohue. "Elas estão completamente erradas."

Alguns membros da comunidade ambiental, naturalmente, foram rápidos em questionar a sinceridade da afirmação - e ela veio justamente quanto dois senadores democratas, John Kerry de Massachusetts e Barbara Boxer da Califórnia, deram sua resposta à lei climática aprovada pela Câmara dos deputados em junho.

Boxer atraiu a atenção para a divisão de opinião dentro da comunidade empresarial. "Sentimos que com o fato de a Exelon ter deixado a Câmara de Comércio, porque sentem que eles são contra os negócios, temos o momento certo a nosso favor em termos das empresas que estão chegando para nos apoiar", disse ela.

Numa declaração a um repórter da Greenwire, Bruce Josten, vice-presidente para assuntos governamentais da Câmara de Comércio, sugeriu que a discórdia dentro do lobby não era nada demais e era pouco provável que acelerasse a aprovação da lei climática no Congresso.

"Sinto-me muito bem hoje quando 75% de nossos membros concordam em alguma coisa", teria dito Josten - acrescentando: "O fato de três companhias deixarem a câmara não significa que é o momento ideal para a senadora Boxer".

Pode ser que o presidente Obama compartilhe dessa impressão. Em meio ao cenário de desentendimentos na Câmara de Comércio - e no mesmo dia que o projeto de lei do Senado foi revelado - o governo anunciou que estava indo adiante com os planos para que a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) passe a regular as emissões industriais de gases de efeito estufa por conta própria.

O movimento foi visto por alguns como uma tentativa de forçar o Congresso a chegar a um acordo sobre a lei climática ainda este ano - e antes do encontro climático global em dezembro em Copenhague, onde os delegados esperam estabelecer um acordo sucessor do Protocolo de Kyoto, que expira em 2012.

Mas com a probabilidade de uma ação do Congresso diminuindo, e o governo enfrentando a perspectiva de chegar a Copenhague sem nenhuma prova concreta de que os Estados Unidos estão dispostos a combater sua enorme pegada de carbono, fazer com que a EPA comece a regular as emissões pode ser a única carta que a delegação norte-americana terá para jogar em dezembro.

De fato, o governo pareceu reconhecer isso na sexta-feira, quando Carol Browner, diretora do Escritório de Política Energética e Mudança Climática da Casa Branca, disse a um grupo em Washington que os Estados Unidos não teriam uma lei climática em mãos em Copenhague.

"Obviamente nós gostaríamos de ter concluído o processo" de elaborar a legislação, disse Browner. "Mas isso não vai acontecer."

É claro, até mesmo a capacidade da EPA para regular as emissões é incerta. De acordo com as regras propostas divulgadas na semana passada, a agência sugeriu que seu principal alvo será apenas os emissores industriais: "Esta é uma regra de bom senso cuidadosamente elaborada para ser aplicada apenas às maiores fontes", disse Lisa Jackson, administradora da EPA, numa declaração.

Os grandes emissores responderam rapidamente, sugerindo que se a EPA tivesse como objetivo regular as emissões de gases de efeito estufa como poluição, seria melhor fazer isso uniformemente. "Não dá para escolher qual indústria e qual emissor a EPA irá regular", disse Charles T. Drevna, presidente do grupo, numa conversa com Kate Galbraith para o blog Green.Inc.

Dado que a indústria, em sua maior parte, contesta os direitos da EPA, de acordo com o Ato do Ar Limpo, de regular qualquer emissão de gases de efeito estufa, a estratégia aqui é quase certamente forçar a agência em direção a um atoleiro de regulamentação, no qual todas as fontes comerciais de dióxido de carbono - desde o gado flatulento até a padaria da esquina - exigiriam supervisão federal.

E as associações de comércio - incluindo a Câmara de Comércio dos EUA - já ameaçaram questionar judicialmente o papel da EPA para administrar as emissões.

"Nossa posição é simples", afirmou a Câmara de Comércio em suas "Cinco Posições sobre Energia e o Meio Ambiente" publicadas em seu site.

"Deve haver uma solução legislativa ampla que não prejudique a economia, reconheça que o problema é de magnitude internacional e promova agressivamente novas tecnologias e eficiência."

"Proteger nossa economia e o meio ambiente para as futuras gerações", continua a câmara, "são objetivos que podem ser atingidos simultaneamente".

Tradução: Eloise De Vylder

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