Se alguém na comunidade internacional ainda estava com dificuldades para ver onde estavam as rachaduras no debate norte-americano sobre a mudança climática, a semana passada proporcionou alguma clareza.
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"Perigo: destruição climática à frente; reduza emissões de CO2 já", diz faixa pendurada por ativistas da ONG Greenpeace em ponte de Pittsburgh (EUA), onde ocorreu reunião do G20; ambientalistas reclamam de desinteresse de líderes mundiais pela crise do clima
A própria saída pública de várias grandes empresas da Câmara de Comércio dos EUA, que descreve a si mesma como "a maior federação mundial que representa três milhões de empresas de todos os tamanhos", foi enfatizada na quarta-feira com um anúncio da fabricante de tênis Nike de que ela, também, estava em desacordo com as posições da câmara sobre o aquecimento global e como ele deve ser combatido.
"Nós discordamos essencialmente da Câmara de Comércio dos EUA quanto ao tema da mudança climática", explicou a companhia numa declaração pública ao anunciar que estava renunciando à sua posição no quadro de diretores da Câmara.
"É importante que as empresas norte-americanas sejam representadas por uma Câmara forte e efetiva que reflita os interesses de todos os seus membros em vários assuntos", acrescentava a declaração. "Acreditamos que no tema da mudança climática, a Câmara não representa a diversidade de perspectivas do quadro de diretores."
A Nike disse que continuaria sendo membro da Câmara "para advogar por uma legislação sobre a mudança climática dentro da estrutura do comitê", mas sua declaração de oposição contra a posição da Câmara quanto à mudança climática veio apenas dias depois que várias companhias que prestam serviços públicos - incluindo a Pacific Gas & Electric, PNM Resources e a Exelon, a maior operadora de usinas nucleares dos EUA - deixaram a associação de uma só vez.
Como meus colegas Cliffor Krauss e Kate Galbraith reportaram na semana passada, a importância da disputa está aberta a interpretações.
Afinal, as companhias que dependem principalmente de energia nuclear livre de emissões devem se sair bem caso o Congresso norte-americano aprove o tipo de legislação de redução de emissões de carbono que está em discussão, e em relação à qual a câmara foi até agora veementemente contra.
Ainda assim, a oposição causou transtorno suficiente para que a Câmara de Comércio divulgasse uma resposta através de seu diretor-executivo, Thomas J. Donohue, que argumentou numa declaração na semana passada que o lobby das empresas "continua a apoiar uma forte legislação federal e um firme acordo internacional" para reduzir as emissões de dióxido de carbono.
"Algumas pessoas do movimento ambientalista acham que, por causa de nossa oposição a uma lei ou abordagem específica, devemos ser contra todos os esforços para reduzir os gases de efeito estufa ou que negamos a existência de qualquer problema", continuou Donohue. "Elas estão completamente erradas."
Alguns membros da comunidade ambiental, naturalmente, foram rápidos em questionar a sinceridade da afirmação - e ela veio justamente quanto dois senadores democratas, John Kerry de Massachusetts e Barbara Boxer da Califórnia, deram sua resposta à lei climática aprovada pela Câmara dos deputados em junho.
Boxer atraiu a atenção para a divisão de opinião dentro da comunidade empresarial. "Sentimos que com o fato de a Exelon ter deixado a Câmara de Comércio, porque sentem que eles são contra os negócios, temos o momento certo a nosso favor em termos das empresas que estão chegando para nos apoiar", disse ela.
Numa declaração a um repórter da Greenwire, Bruce Josten, vice-presidente para assuntos governamentais da Câmara de Comércio, sugeriu que a discórdia dentro do lobby não era nada demais e era pouco provável que acelerasse a aprovação da lei climática no Congresso.
"Sinto-me muito bem hoje quando 75% de nossos membros concordam em alguma coisa", teria dito Josten - acrescentando: "O fato de três companhias deixarem a câmara não significa que é o momento ideal para a senadora Boxer".
Pode ser que o presidente Obama compartilhe dessa impressão. Em meio ao cenário de desentendimentos na Câmara de Comércio - e no mesmo dia que o projeto de lei do Senado foi revelado - o governo anunciou que estava indo adiante com os planos para que a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) passe a regular as emissões industriais de gases de efeito estufa por conta própria.
O movimento foi visto por alguns como uma tentativa de forçar o Congresso a chegar a um acordo sobre a lei climática ainda este ano - e antes do encontro climático global em dezembro em Copenhague, onde os delegados esperam estabelecer um acordo sucessor do Protocolo de Kyoto, que expira em 2012.
Mas com a probabilidade de uma ação do Congresso diminuindo, e o governo enfrentando a perspectiva de chegar a Copenhague sem nenhuma prova concreta de que os Estados Unidos estão dispostos a combater sua enorme pegada de carbono, fazer com que a EPA comece a regular as emissões pode ser a única carta que a delegação norte-americana terá para jogar em dezembro.
De fato, o governo pareceu reconhecer isso na sexta-feira, quando Carol Browner, diretora do Escritório de Política Energética e Mudança Climática da Casa Branca, disse a um grupo em Washington que os Estados Unidos não teriam uma lei climática em mãos em Copenhague.
"Obviamente nós gostaríamos de ter concluído o processo" de elaborar a legislação, disse Browner. "Mas isso não vai acontecer."
É claro, até mesmo a capacidade da EPA para regular as emissões é incerta. De acordo com as regras propostas divulgadas na semana passada, a agência sugeriu que seu principal alvo será apenas os emissores industriais: "Esta é uma regra de bom senso cuidadosamente elaborada para ser aplicada apenas às maiores fontes", disse Lisa Jackson, administradora da EPA, numa declaração.
Os grandes emissores responderam rapidamente, sugerindo que se a EPA tivesse como objetivo regular as emissões de gases de efeito estufa como poluição, seria melhor fazer isso uniformemente. "Não dá para escolher qual indústria e qual emissor a EPA irá regular", disse Charles T. Drevna, presidente do grupo, numa conversa com Kate Galbraith para o blog Green.Inc.
Dado que a indústria, em sua maior parte, contesta os direitos da EPA, de acordo com o Ato do Ar Limpo, de regular qualquer emissão de gases de efeito estufa, a estratégia aqui é quase certamente forçar a agência em direção a um atoleiro de regulamentação, no qual todas as fontes comerciais de dióxido de carbono - desde o gado flatulento até a padaria da esquina - exigiriam supervisão federal.
E as associações de comércio - incluindo a Câmara de Comércio dos EUA - já ameaçaram questionar judicialmente o papel da EPA para administrar as emissões.
"Nossa posição é simples", afirmou a Câmara de Comércio em suas "Cinco Posições sobre Energia e o Meio Ambiente" publicadas em seu site.
"Deve haver uma solução legislativa ampla que não prejudique a economia, reconheça que o problema é de magnitude internacional e promova agressivamente novas tecnologias e eficiência."
"Proteger nossa economia e o meio ambiente para as futuras gerações", continua a câmara, "são objetivos que podem ser atingidos simultaneamente".
Tradução: Eloise De Vylder