O primeiro-ministro da República Tcheca, Jan Fischer, disse na quarta-feira que espera que seu país ratifique o tratado de reforma da União Europeia neste ano, mas suas garantias não conseguiram afastar o temor de que disputas políticas internas em Praga possam atrasar ou mesmo minar os planos ambiciosos para promover o lugar do bloco no cenário global.
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Na República Tcheca, a aprovação do plano de reforma da União Europeia (UE) deve primeiro vir
do Tribunal Constitucional e depois do presidente Vaclav Klaus (foto), que é um crítico franco do tratado e da própria UE. Todos os 27 países
do bloco econômico precisam ratificar o acordo
Frustrado até mesmo em sua tentativa de chegar a Bruxelas devido a um problema em seu avião, Fischer assegurou a altos funcionários da UE, por um link de vídeo, que estava "plena e profundamente convencido de que não há motivo para ansiedade na Europa" em relação ao destino do Tratado de Lisboa.
"Na República Tcheca, o problema não é sim ou não, mas quando", ele acrescentou.
Todos os 27 países da UE precisam ratificar o acordo para que entre em vigor; na República Tcheca, a aprovação deve primeiro vir do Tribunal Constitucional e depois do presidente Vaclav Klaus, que é um crítico franco do tratado e da própria UE.
Quase 20 anos após o mundo ter ficado hipnotizado por sua Revolução de Veludo, os tchecos agora se veem objeto de um escrutínio menos benevolente, com a UE à mercê de um debate legal e político em um de seus países membros mais novos e menores.
A Polônia, o outro país que ainda precisa completar a ratificação do tratado, provavelmente o fará nesta semana, disse José Manuel Barroso de Portugal, o presidente da Comissão Europeia.
Fischer, que defende o tratado, disse que espera que a ratificação seja "concluída na República Tcheca até o final deste ano". Mas não houve nenhuma palavra de Klaus e Fischer é um primeiro-ministro sem forte apoio doméstico.
O primeiro-ministro da Suécia, Fredrik Reinfeldt, que ocupa a presidência rotativa da UE, ressaltou a ansiedade em relação à posição de Klaus, notando que o presidente tcheco ainda não atendeu seu telefonema.
A UE "ainda não tem todas as respostas e esclarecimentos que precisamos", disse Reinfeldt, acrescentando que não pode iniciar as consultas sobre quem deveria assumir o novo cargo criado pelo tratado, o de presidente da UE.
Os líderes da UE deveriam decidir isso - e pelo menos mais um outro grande cargo - em um encontro de cúpula em Bruxelas, em 29 de outubro. Essas decisões agora poderão ser adiadas até dezembro.
Também permanece incerto se será possível nomear uma nova Comissão Europeia em outubro sem mais clareza. Isso porque o Tratado de Lisboa muda o número de comissários em relação ao tratado atualmente em vigor.
As conversações de quarta-feira por link de vídeo reuniram Fischer, Reinfeldt, Barroso e Jerzy Buzek, um polonês recém-eleito presidente do Parlamento Europeu.
Novas discussões ocorrerão nesta semana, porém mais clareza é improvável até a próxima semana, quando o Tribunal Constitucional tcheco deverá se pronunciar sobre um caso montado por 17 senadores tchecos a respeito do tratado.
O tribunal poderia rejeitar o caso - abrindo caminho para uma ratificação mais rápida - ou marcar a data para uma audiência, que dificilmente ocorreria antes do encontro de cúpula em outubro.
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Festa com fogos de artifício, ao lado da catedral de Praga, na República Tcheca, celebram a ampliação dos países integrantes da União Europeia. Os tchecos passaram a integrar o bloco em 2004
Buzek disse que uma interferência aberta do exterior poderia ser contraproducente. Klaus está sob crescente pressão doméstica para assinar, sob risco de isolar a si mesmo e ao país.
Klaus indicou na segunda-feira, em uma viagem à Albânia, que decidiria o que fazer apenas após a decisão final do Tribunal Constitucional. Especialistas legais notaram que ambas as casas do Parlamento Tcheco já aprovaram o tratado e que o tribunal dificilmente reverterá sua decisão anterior de rejeitar outra contestação legal ao documento.
Jiri Paroubek, o líder do Partido Social-Democrata, um dos dois principais partidos tchecos, disse em uma entrevista que é imperativo que Klaus assine.
"Se o presidente se recusar a assinar o tratado, então a República Tcheca será a terceira divisão da Europa", ele disse. "Mas eu acredito que o presidente Klaus é um estadista e entende o que está em jogo."
Alguns observadores veteranos de Klaus em Praga acreditam que ele adoraria ser o cruzado solitário que ajudou a destruir um tratado que ele alertou que criaria um superestado europeu.
A imprensa tcheca está cada vez mais crítica nos últimos dias. O "Mlada Fronta Dnes", um importante jornal, publicou um editorial na segunda-feira intitulado: "Estrelando Vaclav Klaus". Ele começa: "Ator: Vaclav Klaus. Roteiro: Vaclav Klaus. Direção: Vaclav Klaus".
Em um comício antitratado no sábado, após a votação irlandesa favorável ao tratado, apenas poucas centenas de pessoas se reuniram do lado de fora do Castelo de Praga, onde Klaus tem se recusado a hastear a bandeira da UE.
Os manifestantes gritaram "Vida Longa a Klaus" e "UE -o Quarto Reich". Um segurava um cartaz mostrando as estrelas amarelas da UE cercando um martelo e foice comunistas.
"Eu entendo esses slogans", Klaus disse aos seus simpatizantes. "Eu me sinto basicamente da mesma forma que vocês - apesar de que, como presidente, eu precise diluir um pouco."
Então ele indicou que o referendo irlandês tinha sido a palavra final: "Após o referendo irlandês de hoje, não haverá outro referendo na Europa".
Tradução: George El Khouri Andolfato