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14/10/2009

Mercado de bens de luxo se transfere para o Oriente

International Herald Tribune
Bettina Wassener
Em Hong Kong
Em dezembro, a Christie's colocará a venda o "Vivid Pink", um diamante cor-de-rosa de cinco quilates com valor estimado entre US$ 5 milhões e US$ 7 milhões (R$ 8,6 milhões e R$ 12 milhões). Mas em vez de marcar a venda em Nova York ou Genebra, a famosa casa de leilões britânica escolheu Hong Kong.

O papel da Ásia no mercado de bens de alto luxo está crescendo rapidamente, refletindo uma inclinação tectônica para o Oriente na balança mundial do poder aquisitivo - uma mudança que vem se anunciando há anos, mas que ganhou mais força com a recente crise econômica global.

A Christie's e sua rival Sotheby's dizem que durante os últimos anos suas filiais asiáticas, no centro financeiro de Hong Kong, se tornaram um dos principais pontos para suas vendas de joias, gemas e vinhos milionários. Os asiáticos também se transformaram em grandes compradores de bens de alto luxo em suas casas de leilão em cidades como Londres, Nova York e Genebra.

A Rolls-Royce, que não tinha nenhuma concessionária na Ásia até 2003, recebeu 20 pedidos do seu novo carro Ghost, de US$ 250 mil (R$ 431 mil), logo depois de apresentá-lo em Hong Kong no mês passado, apesar dos impostos que efetivamente dobram o preço do veículo.

Para a Christie's e outras empresas, transferir os leilões e os negócios para a Ásia é uma decisão calculada que reflete a mudança na base de consumidores.

Em maio do ano passado, a Christie's vendeu o diamante Shizuka de 101 quilates em Hong Kong por US$ 6,2 milhões. Esta venda e a do diamante cor-de-rosa que será realizada em 1º de dezembro "são bons exemplos que mostram como esse mercado se tornou importante para os bens de luxo", disse Vickie Sek, chefe de joalheria da Christie's Ásia.

"Ambas as gemas teriam sido oferecidas em Nova York ou Genebra há alguns anos atrás", disse ela.

Atingidas pela crise financeira no ano passado, muitas economias mundiais estão com dificuldades para crescer. Bilionários da Rússia e do Oriente Médio estão sendo afetados pela baixa nos preços do petróleo. E os consumidores dos Estados Unidos, que costumavam ser uma grande potência de consumo, estão carregados de dívidas e deverão ser mais cautelosos ao abrirem suas carteiras por um bom tempo.

"O consumidor norte-americano acabou vivendo além dos seus meios ao emprestar dinheiro em meio a uma bolha de ativos", disse Stephen Roach, presidente de operações do Morgan Stanley na Ásia, em um discurso em Hong Kong na semana passada. Como resultado, "os Estados Unidos estão em um dos primeiros estágios de uma contenção de gastos que durará anos".

Por outro lado, os gastos domésticos nas nações em desenvolvimento da Ásia devem aumentar à medida que o crescimento econômico, o aumento populacional e a melhora dos serviços de saúde a previdência reduzem a necessidade das famílias de guardar dinheiro para os tempos difíceis.

O resultado é um reequilíbrio gradual na balança do poder aquisitivo mundial, que se inclina em direção às nações emergentes da Ásia - principalmente a China.

O Japão, estagnado em um longo declínio econômico, é a grande exceção da Ásia. Na semana passada, o estilista Yohji Yamamoto entrou com um pedido de proteção à falência, e a grife de moda italiana Gianni Versace anunciou que fecharia suas lojas no país.

Mas a China, a nação mais populosa do mundo, já se tornou o maior mercado para automóveis do mundo, tendo superado os Estados Unidos no começo deste ano. E o Credit Suisse previu, no mês passado, que a fatia da China no consumo mundial superará a dos Estados Unidos em 2020.

A população de milionários da China ultrapassou a da Grã-Bretanha pela primeira vez no ano passado, de acordo com um estudo anual publicado pela Capgemini e Merril Lynch em junho. América do Norte, Japão e Alemanha juntos ainda respondem por cerca de 54% do total global, mas os autores do relatório também previram que a região Ásia-Pacífico superará a América do Norte em 2013.

No mês passado, uma lista compilada pela Hurun Report, uma empresa de pesquisa e editora de Xangai, descobriu que o número de bilionários (em dólares) conhecidos na China havia aumentado para 130, acima dos 101 registrados em 2008.

É claro que a mudança no consumo e na riqueza é lenta, e muito vai depender da velocidade com que os governantes asiáticos conseguirem melhorar as redes de seguridade social, estimulando assim os gastos domésticos e livrando suas economias da necessidade de exportar bens.

A China até agora só "engatinhou" nessa direção, disse Roach.

Mesmo assim, a Ásia já presenciou um aumento massivo do número de indivíduos capazes de fazer gastos extravagantes nos venerados salões da Christie's e Sotheby's.

Compradores dos leilões de outono da Sotheby's em Hong Kong neste mês desembolsaram US$ 7,9 milhões (R$ 13,6 milhões) em vinhos finos - bem acima dos US$ 6,1 milhões (R$ 10,5 milhões) estimados e acima dos US$ 6,4 milhões (R$ 11 milhões) levantados nas vendas de primavera em Hong Kong. Uma pintura do mestre chinês Sanyu superou com folga as expectativas, sendo vendida por US$ 4,7 milhões (R$ 8,1 milhões) para um comprador chinês que deu lances por telefone.

E o leilão de joias da Sotheby's na última quarta-feira levantou mais de US$ 32,6 milhões (R$ 56,3 milhões), acima dos US$ 20 milhões (R$ 34,5 milhões) do ano passado. Um diamante redondo com lapidação de brilhante de 28,88 quilates, do tamanho de uma amêndoa, conseguiu US$ 4,7 milhões (R$ 8,1 milhões). E um "extravagante diamante azul intenso" foi vendido por US$ 5,6 milhões (R$ 9,6 milhões), pouco acima do preço recorde por quilate para um diamante desse tipo, conseguindo aplausos dos que estavam no salão.

Apesar de alguns preços continuarem abaixo dos picos atingidos antes da crise, os resultados indicaram bons sinais para a temporada de vendas de outono da Christie's em dezembro, e revelaram a capacidade cada vez maior dos milionários da Ásia para comprar gemas de US$ 5 milhões (R$ 8,6 milhões), garrafas e vinhos que valem dezenas de milhares de dólares, e carros de um quarto de milhão.

Em dezembro do ano passado, quando a redução de crédito desencadeada pelo colapso do Lehman Brothers estava em seu momento mais severo, a Christie's levantou US$ 33,5 milhões (R$ 57,8 milhões) em sua venda de joias em Hong Kong - mais do que qualquer outro leilão de joias realizado em outros lugares naquela temporada.

Em meados dos anos 90, os leilões de joias da Sotheby's em Hong Kong levantavam apenas 5% da renda total da casa de leilões nessa categoria, disse Terry Chu, chefe do departamento de joalheria da Sotheby's na Ásia.

Por volta de 2000, essa fração havia subido para 20% a 25%. Em 2004, o leilão de joias da Sotheby's Hong Kong levantou US$ 47 milhões (R$ 81 milhões), ultrapassando o leilão de Genebra pela primeira vez. Desde então, os eventos em Hong Kong representam cerca de um terço do total todos os anos.

No mundo dos vinhos finos, os compradores asiáticos também ganharam a cena.

Segundo a Christie's, os compradores asiáticos responderam por 61% do total de vendas em seus leilões de vinhos em Nova York, Londres e Hong Kong na primavera passada. Quatro anos antes, eles respondiam por apenas 7%.

Os leilões de vinho da Christie's em Hong Kong, além disso, têm o maior preço médio por lote - quase três vezes o valor de Nova York ou Londres - porque a casa de leilões coloca apenas os vinhos vintage mais raros e caros para venda na cidade, diz David Elswood, chefe internacional de vinhos para a Christie's.

E a grande maioria dos compradores asiáticos, diz ele, quer beber os vinhos que compra: "É muito mais pelo prestígio do que pelo investimento - não dá para você mostrar que tem um vinho sem abri-lo e bebê-lo".

"As pessoas aqui na Ásia não se sentem constrangidas ao mostrar sua riqueza", concorda Colin Kenny, diretor regional da Rolls-Royce na Ásia-Pacífico.

A fabricante de carros de luxo vendeu apenas 1.212 carros no mundo todo no ano passado. Mais de 200 deles - cerca de 90% deles personalizados - foram para compradores da região da Ásia-Pacífico.

Esse número não passava de um punhado em 2003.

"Esperamos que essa porcentagem aumente nos próximos anos", diz Kelly.

Tradução: Eloise De Vylder

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