UOL Notícias Internacional
 

21/10/2009

Irã culpa EUA e Reino Unido por ataques suicidas

International Herald Tribune
Michael Slackman
Em Riad (Arábia Saudita)
As autoridades iranianas alegaram na segunda-feira ter evidência de envolvimento americano e britânico nos piores ataques suicidas a bomba no país em anos, aumentando as tensões enquanto o Irã se reúne com os países ocidentais para outra rodada de negociações delicadas envolvendo seu programa nuclear.
  • Lucas Jackson/Reuters

    O presidente Mahmoud Ahmadinejad prometeu "que os responsáveis por esses atos criminosos
    e inumanos receberão sua resposta em breve"



Pelo menos cinco comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica de elite do Irã morreram e dezenas de outras pessoas foram mortas e feridas no domingo, em dois atentados no rebelde sudeste, ao longo da fronteira do Irã com o Paquistão, segundo as agências de notícias estatais iranianas.

O ataque coordenado, um dos maiores contra a Guarda na região, pareceu marcar uma escalada nas hostilidades entre a liderança do Irã e a minoria étnica balúchi. As autoridades iranianas acusaram inimigos estrangeiros de apoiar os insurgentes, apontando as agências de inteligência dos Estados Unidos, Reino Unido e Paquistão.

Mohammad Ali Jafari, o comandante-em-chefe da Guarda, disse na segunda-feira à agência de notícias semioficial "ISNA": "Por trás dessa cena está o aparato de inteligência americano e britânico e haverá ações retaliatórias para puni-los", acrescentando que o Irã possui documentos provando o envolvimento deles e dos paquistaneses.

O grupo insurgente balúchi Jundallah - ou Soldados de Deus - assumiu a responsabilidade pelos atentados, que incluíram um ataque suicida contra uma reunião comunitária liderada pela Guarda Revolucionária e um ataque em estrada contra um carro cheio de membros da Guarda, ambos na área da cidade de Pishin.

O Jundallah, cujos membros são muçulmanos sunitas, reivindicou responsabilidade por outros ataques na região nos últimos anos e supostamente matou centenas de civis e soldados iranianos. A província do sudeste de Sistão-Baluquistão já foi cenário de ataques no passado e em abril o governo colocou a Guarda no controle da segurança local para tentar impedir uma escalada da violência.

A agência de notícias oficial "Fars" noticiou na segunda-feira que os ataques mataram 42 pessoas e feriram 28 outras. Não se sabe quantos civis foram mortos, mas vários líderes tribais estavam entre os mortos, informaram outras órgãos de imprensa oficiais.

O presidente Mahmoud Ahmadinejad prometeu "que os responsáveis por esses atos criminosos e inumanos receberão sua resposta em breve", divulgou a "Press TV" estatal.

As autoridades iranianas disseram ter evidência de que o ataque foi lançado de dentro do Paquistão, onde fica a base do Jundallah, e o Ministério das Relações Exteriores convocou o charge d'affaires do Paquistão, disse a "Press TV".

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores paquistanês, Abdul Basit, disse ao jornal "Daily Times": "O Paquistão não está envolvido em atividades terroristas", acrescentando que "nós estamos lutando para erradicar essa ameaça".

Ali Larijani, o porta-voz do Parlamento, disse que os Estados Unidos têm certa responsabilidade pelos ataques. "Se eles quiserem ter relações com o Irã, eles precisam ser francos", ele disse, segundo a agência de notícias semioficial "ISNA", acrescentando: "Nós consideramos a recente ação terrorista o resultado das medidas americanas".

No passado, as autoridades iranianas acusaram os Estados Unidos de financiar e armar o Jandallah.

Os Estados Unidos condenaram os atentados e negaram qualquer ligação com eles. "Nós condenamos esse ato de terrorismo e lamentamos a perda de vidas inocentes", disse Ian C. Kelly, um porta-voz do Departamento de Estado. "Os relatos do suposto envolvimento americano são completamente falsos."

O governo britânico rejeitou "nos termos mais fortes" as alegações de que tenha ajudado os rebeldes, disse um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores para a agência de notícias "Reuters", na segunda-feira.

Os homens-bomba atacaram na manhã de domingo, enquanto a Guarda se preparava para reunir os líderes xiitas e sunitas regionais para uma conferência em Pishin, para tentar melhorar as relações entre as diferentes comunidades, segundo o noticiário iraniano.

Em um ataque, um homem-bomba trajando uniforme militar e usando um cinto de explosivos entrou em uma mesquita onde os comandantes da Guarda estavam organizando um encontro de reconciliação, segundo a agência de notícias semioficial "ILNA".

No segundo ataque, um carro que levava um grupo de membros da Guarda foi atacado a bomba, disseram as agências de notícias estatais.

Segundo a "Fars", que é afiliada à Guarda, entre os mortos estavam o comandante das forças de terra, o general Nourali Shoushtari, assim como os comandantes da província do Sistão-Baluquistão, da Corporação Iranshahr, da Corporação Sarbaz e da Brigada Amiralmoemenin.

Os balúchis, que são na maioria sunitas, são uma das muitas minorias étnicas e religiosas que se queixam de discriminação no Irã, um país predominantemente muçulmano xiita e etnicamente persa.

O Jundallah, que diz estar lutando por uma maior autonomia para os balúchis no Irã e no Paquistão, atacou a bomba em maio uma mesquita xiita em Zahedan, a capital do Sistão-Baluquistão, matando 25 pessoas. Os rebeldes do Jundallah capturaram e mataram 16 soldados iranianos no final do ano passado e realizaram um atentado a bomba contra um ônibus que transportava membros da Guarda em 2007, matando 11.

As autoridades iranianas enforcaram 13 membros do grupo em maio e executaram outros antes.

Mustafa El Labbad, diretor do Centro para Estudos Estratégicos e Regionais do Oriente, no Cairo, disse que as divisões étnicas e sectárias tornam a região particularmente volátil. "Há balúchis contra persas, há sunitas contra xiitas", ele disse. "Ela também se encontra na fronteira com o Paquistão, que não é totalmente segura - armas podem passar por ela. Logo, há uma mistura muito explosiva ali."

A Guarda ascendeu como o grupo mais poderoso sócio-político e econômico do país, ofuscando até mesmo o clero e os conservadores. Após a contestada eleição presidencial do Irã, a Guarda assumiu o controle da segurança nacional, supervisionando a repressão violenta aos protestos assim como as prisões em massa de manifestantes e críticos.

Neste contexto, disse Labbad, um ataque contra a Guarda -independente de qual seja a motivação - tem um peso simbólico. "Ele visa afetar a imagem do Irã", ele disse.

As autoridades iranianas deverão se encontrar na segunda-feira, em Viena, com as autoridades de vários países para discutir um acordo de envio de urânio para a Rússia para enriquecimento, parte de um esforço do Ocidente para tentar deter o programa nuclear do Irã.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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