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23/10/2009

França aprova ampla repressão contra pirataria na Internet

International Herald Tribune
Eric Pfanner
Em Paris (França)
A França se lançou na vanguarda da batalha global contra a pirataria digital na quinta-feira, aprovando um plano para negar acesso à Internet a pessoas que copiam música e filmes ilegalmente.

O mais alto tribunal constitucional do país aprovou uma chamada lei de três faltas após rejeitar porções-chave de uma versão anterior no primeiro semestre. Seus defensores dizem que esperam que a França, ao impor as medidas mais duras na batalha contra o roubo de direitos autorais, estabelecerá um exemplo para outros países seguirem. O Reino Unido poderá introduzir uma legislação semelhante no próximo mês.
  • Patrick Kovarik/AFP

    Deputados franceses debatem lei contra a pirataria na internet, aprovada por 296 a 233 votos, em maio



"A França está agindo como uma ponta de lança", disse David El Sayegh, diretor geral do Syndicat National de l'Édition Phonographique, a associação da indústria da música francesa. "A pirataria não é apenas um problema francês, é um problema global."

Os críticos da legislação consideram as sanções draconianas e dizem que será ineficaz para coibir a troca de arquivos, ou em converter os piratas em clientes das empresas de conteúdo digital legítimo. Eles argumentam que desconectar as contas de Internet é injusto, por causa da crescente importância da Internet como espaço para comércio e expressão política.

"É um dia muito triste para a liberdade na Internet na França", disse Jérémie Zimmermann, porta-voz da La Quadrature du Net, um grupo que fez campanha contra a lei. Ele disse que os oponentes da lei buscariam novas formas de derrubá-la.

A lei cria uma nova agência que enviará cartas de alerta às pessoas acusadas de copiar músicas, filmes ou outros conteúdos de mídia ilegalmente pela Internet. Aqueles que ignorarem o segundo alerta e copiarem arquivos ilegalmente uma terceira vez poderão enfrentar um ano de suspensão ao seu acesso à Internet, assim como multas.

El Sayegh disse que os membros da agência serão nomeados em novembro e que as primeiras cartas podem ser enviadas já em janeiro. As suspensões podem ocorrer já na metade do próximo ano, ele acrescentou.

A corte analisou a proposta por causa de uma contestação do Partido Socialista de oposição, após a aprovação parlamentar em setembro. A reversão é uma grande vitória para o presidente Nicolas Sarkozy, cuja esposa, Carla Bruni, é uma cantora e modelo que defendia a medida.

A principal diferença entre a proposta inicial bloqueada pelo tribunal constitucional e a versão aprovada na quinta-feira é que um juiz, e não a nova agência, terá que aprovar qualquer suspensão de conta. Sem essa proteção, disse o tribunal, a lei violaria as proteções de liberdade de expressão.
  • Russ Carmack/AP/The News Tribune - 08.mar.2001

    A americana Sarah Bowden mostra o computador onde baixou mais de mil músicas pela internet. Por toda a Europa, o debate sobre as formas de punir
    a pirataria e criar restrições na web causa polêmica



Os críticos do plano se queixaram de que mesmo a nova versão negará ao acusado o direito ao devido processo, porque os procedimentos seguirão o modelo acelerado semelhante ao empregado em infrações de trânsito.

A aprovação da lei na França ocorre enquanto o Parlamento Europeu, que no primeiro semestre buscou transformar o acesso à Internet em um direito humano fundamental, o que impediria potencialmente qualquer bloqueio ao acesso imposto pelo governo, parece estar amolecendo sua oposição a essas penas. Novos artigos inclusos em uma lei proposta de telecomunicações permitiriam a suspensão das contas, disseram analistas.

Por toda a Europa, os autores de políticas têm se mostrado cautelosos em abraçar soluções de "três faltas". Os críticos dizem que impedir o acesso das pessoas à Internet é inconsistente com o objetivo declarado de muitos governos de aumentar a penetração da banda larga.

Mas o Reino Unido, que vinha rejeitando consistentemente a suspensão de contas, mudou de posição no mês passado, dizendo que consideraria essas medidas como último recurso contra o compartilhamento de arquivos.

A mudança de posição expôs um racha entre proeminentes músicos britânicos, depois que a cantora Lily Allen opinou a respeito do compartilhamento de arquivos em seu blog, dizendo que ele prejudicava as perspectivas de artistas jovens e emergentes. Ela criticou músicos como Ed O'Brien do grupo Radiohead, que disse ser fútil criminalizar o compartilhamento de arquivos.

A proposta do governo britânico, que deverá ser apresentada no Parlamento em novembro, enfrenta forte oposição de alguns provedores de Internet. A BT, a maior empresa de telecomunicações do Reino Unido, disse que seu cumprimento seria caro, elevando os custos para todos os clientes de banda larga.

Na França, o governo estimou que a lei poderia resultar em punições contra 50 mil pessoas por ano, segundo um documento que vazou e foi publicado durante o debate do plano. Mas de duas dúzias de juízes supervisionarão o sistema penal criado para fiscalizar a lei, segundo os relatórios.

Mas El Sayegh disse que acha que o número de fato de suspensões será baixo, porque a ameaça de suspensões converteria os violadores de direitos autorais em clientes dos serviços legítimos de músicas, filmes e outros conteúdos online.

"Os alertas terão um forte efeito de dissuadir", ele disse. "Esta lei não é uma punição contra os usuários de Internet."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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