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24/10/2009

Qual o estado de saúde da economia americana?

International Herald Tribune
Anand Giridharadas
Em Cambridge, Massachusetts (EUA)
A economia americana está sofrendo do que os médicos chamam de episódio agudo.

O emprego não reage. A circulação de capital permanece fraca. A indústria respira, mas com dificuldade. E se conseguimos concordar em algo, um ano após o início dessa confusão, é que há pouco que podemos fazer quando o paciente chega tão mal.

Por isso o assunto agora frequentemente envolve prevenção. Prevenir a próxima crise por meio de um plano de saúde e um setor de energia verde, diz o presidente americano. Prevenir cortando gastos e nutrindo a responsabilidade pessoal, reagem os conservadores americanos.

Mas a verdade é que os políticos, não apenas nos Estados Unidos, raramente estão dispostos a investir em um problema que ainda não ocorreu. Consenso e ação são fáceis de obter após um 11 de Setembro ou um Lehman Brothers, não antes. Problemas na fase embrionária, solúvel, não nos interessam; e aqueles que nos interessam frequentemente são grandes demais para resolver.

É onde entra a acupuntura.

As práticas medicinais ocidentais têm atraído críticas semelhantes nos últimos anos, por uma ênfase na intervenção na doença em vez de preveni-la antes e promover um bem-estar cotidiano. Mas na saúde, diferente da política, uma abordagem alternativa chamada "wellness" (viver bem e com qualidade) tem surgido, concentrada em investir na saúde antes dela apresentar problemas.

O que o wellness nos diz a respeito do nosso mal econômico atual? Ao passar das margens para o centro -com programas de wellness presentes nas propostas de reforma da saúde que tramitam no Congresso, manifestos de wellness entre as listas de best sellers e um programa de wellness do Exército americano que pede aos soldados para realizarem introspecção e meditação- eu perguntei a especialistas sobre os fundamentos da abordagem e como se aplicariam ao corpo político.

Cortar pela raiz. O wellness defende o cultivo da saúde em pequena dose diária, não apenas buscar restaurá-la durante calamidades. Nós cada vez mais aceitamos que é melhor monitorar o açúcar no sangue de uma diabética por meio de consultas regulares do que amputar seus membros. Nós aceitamos que as empresas podem evitar tratamentos caros de câncer ao encorajar os trabalhadores a deixarem de fumar. Mas em nossa vida política, nós preferimos aguardar até que as coisas cheguem ao pronto-socorro.

Nós pouco regulamos os mercados financeiros por anos, considerando a regulamentação opressiva, até sermos compelidos a estatizar firmas privadas. Nós evitamos investimentos caros e novos métodos controversos no ensino público, então pagamos o preço em baixa mobilidade social e vastas populações carcerárias. Nós negligenciamos a construção de pontes, estradas e infraestrutura de Internet, temendo o custo, e então enfrentamos custos muito mais altos da exclusão de regiões inteiras da grade econômica.

"Com muitos problemas sociais, nós não sabemos ao certo como preveni-los, portanto não gastamos muito dinheiro nisso, porque sempre temos muitas outras prioridades", disse David Cutler, um economista de Harvard que foi conselheiro de saúde tanto do governo Clinton quanto do governo Obama.

Vá às raízes. A medicina ocidental tende a combater os sintomas, seja suprimindo a tosse ou inundando os cérebros dos deprimidos com serotonina. O wellness está interessado nas causas por trás. Ele está inclinado a ver uma mulher infértil, por exemplo, como uma mulher estressada.em vez de uma mulher com ovários mortos, e pode sugerir que ela coma e trabalhe de forma diferente em vez de tomar pílulas para o ovário.

Na política pública, a inclinação para o sintoma domina. Uma crise imobiliária? Aprove um incentivo fiscal! Falência dos bancos? Vamos resgatá-los!

Não há nada errado com essas medidas -exceto pelo que deixam de fora, como diz a maioria dos economistas.

Mesmo em meio a toda essa ação, nós virtualmente ignoramos a onda complexa de questões por trás das questões: pouca poupança, vício em endividamento, um sistema político gastador, um anseio quase patológico pelas coisas. E, com nossas curas tópicas, nós não deveríamos nos surpreender ao ver o aparecimento de novos sintomas para velhos males: o seguro de novo sendo empacotado em derivativos, bônus aumentando de novo em Wall Street.

"Nós tratamos os sintomas e não procuramos pelas causas dos sintomas", disse Deepak Chopra, o famoso guru da medicina alternativa e wellness, quando lhe foi pedido que aplicasse o wellness à economia. "Nós estamos no momento olhando totalmente para isso de uma forma reducionista. O modo reducionista é um resgate. E, de alguma forma, isso supostamente deveria resolver o problema, apesar do problema ter ocorrido por estarmos pensando de forma reducionista."

Olhar para dentro. O wellness vê as causas e remédios para os males como estando dentro de nós. Evite infecção aumentando a imunidade. Derrote a doença comendo alimentos que ajudam o corpo a curar a si mesmo.

Com a economia, nós olhamos para toda parte menos para dentro. É culpa dos banqueiros gananciosos de Wall Street. É culpa de Washington. É culpa do Bush. É culpa do Obama. É culpa do Greenspan. Alguém conserte isso!

Mas e quanto a nós? Por que não reconhecermos que fomos nós que compramos todas aquelas casas além de nossas posses, que fomos nós que demos ouvidos ao "conselho" financeiro de gravidade zero, que fomos nós que gastamos e gastamos sem guardar nada para dias difíceis? E por que, para solucionar o problema, nós esperamos que o Estado crie um dinamismo substituto em vez de renovar a cultura do dinamismo descentralizado que tornou a economia americana tão vital para começar?

"O tratamento convencional é muito desequilibrado e coloca toda sua ênfase em intervenções externas, em vez de buscar estimular a capacidade interna de promover a cura", disse Andrew Weil, fundador do Centro para Medicina Integrada do Arizona e autor de vários livros sobre wellness. Assim como a economia, ele disse: "Em vez de simplesmente identificar ameaças externas e desenvolver armas e estratégias contra elas, nós devemos identificar e fortalecer a imunidade e resistência".

Uma política de wellness transcenderia partidos. Ela enfatizaria o investimento antecipado que os democratas gostam visando obter a solvência fiscal a longo prazo na qual os republicanos insistem. Ela atenderia a crença liberal de um papel positivo para o governo ao manter o bem-estar, mas honraria a convicção conservadora de que o principal papel do governo é ajudar o organismo social a curar a si mesmo. Ela reconheceria, com a esquerda, o emaranhado complexo de influências culturais e institucionais que regem o bem-estar da sociedade, enfatizando ao mesmo tempo, com a direita, os limites do que qualquer curandeiro externo pode fazer.

Pense em wellness nestes tempos difíceis. Os problemas mais urgentes, afinal, podem ser aqueles que ainda não tivemos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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