Como ex-funcionário de segurança nacional dos EUA, tenho me esforçado, ao lado de vários outros compatriotas norte-americanos, para entender o quebra-cabeças nuclear do Irã. O que está de fato acontecendo com o Irã? Embora seja difícil saber exatamente em que ou em quem acreditar, podemos tentar ligar os pontos das notícias recentes e formular várias hipóteses.
1. A Estratégia de PittsburghA coletiva de imprensa do presidente Obama com o presidente Nicolas Sarkozy e o primeiro-ministro britânico Gordon Brown na cúpula do G-20 aumentou as suspeitas ao revelar a nova fábrica de enriquecimento de urânio de Qum e ao pedir sanções mais duras caso o Irã não cumpra as exigências do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (NPT em inglês).
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Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, visita a planta nuclerar de Natanz, onde 4.500 centrífugas produzem 80 quilos de urânio enriquecido por mês
Esta foi uma mudança de retórica para Obama, que vem tentando estabelecer o diálogo incondicional. De fato, ele também vem falando sobre uma mistura de "maiores punições e maiores recompensas".
A questão real é se foi um movimento puramente tático para aumentar a pressão, ou se Obama e seus colegas de fato têm um plano mais abrangente. Este último poderia ser baseado em alguma informação especial - a expectativa de um entendimento pioneiro com Teerã, por exemplo, ou na confiança de que novas sanções seriam aprovadas e eficazes.
Se não, os líderes do Ocidente poderiam estar se colocando na posição de perder ainda mais a credibilidade quando novos prazos chegarem ao fim sem nenhum resultado.
2. Qum. De que se trata?Os iranianos se apressaram em informaram a Agência Internacional de Energia Atômica que algo estava de fato acontecendo em Qum. A maioria dos especialistas com quem eu conversei suspeitam que o local tenha sido originalmente planejado como uma base de lançamento de foguetes e que está sendo transformado numa "fábrica de enriquecimento substituta" caso Natanz e outros locais associados ao programa nuclear sejam atingidos. É provável que não exista material de fissão em Qum. Os Estados Unidos afirmam que sabem de Qum desde 2007. Mesmo assim ainda não há uma explicação satisfatória do motivo pelo qual Qum foi revelado agora tanto pelos iranianos quanto por Obama.
3. As conversas de Genebra e VienaOs diálogos do Irã com os países chamados de P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha) foram no mínimo superficialmente produtivos. Teerã prometeu permitir que inspetores entrem na fábrica de Qum e enviem uma quantidade substancial de urânio pouco enriquecido (LEU) para a Rússia e a França para processamento.
Esses passos poderiam representar algum progresso - ou pelo menos "o começo do começo", como disse um analista - sugerindo o sucesso inicial da estratégia de diálogo de Obama. Uma interpretação mais cética, que prevalece entre alguns analistas veteranos de segurança do Ocidente, é que o regime iraniano simplesmente fez o mínimo que podia fazer para ganhar tempo.
Em todo caso, as promessas de permitir os inspetores conforme requisitado pelo NPT e de transferir o LEU serão colocadas à prova em breve.
4. O cientista nuclear desaparecidoA revelação recente do desaparecimento há três meses de um importante especialista nuclear iraniano, Dr. Shahran Amiri - que coincidiu com as medidas dura de junho e aconteceu antes da revelação de Qum - é interessante, principalmente levando em consideração a notícia de que o estoque de LEU do Irã está baixo e cheio de impurezas que poderiam causar uma falha centrífuga. Não se sabe ao certo se ele desertou ou foi sequestrado.
Críticos dos diálogos em Genebra observaram imediatamente que esses problemas técnicos explicariam porque Teerã está agora disposta a transferir o LEU para a Rússia em troca de mais combustível. Mas esse quadro também vai contra a noção de que a divulgação de Qum revela uma ameaça nuclear mais iminente.
5. O voto indeciso de MoscouA secretária de Estado Hillary Clinton foi a Moscou na semana passada para continuar apertando o "botão de reiniciar". O principal propósito era avançar com as negociações do tratado de redução de armas. Um novo tratado, amplamente esperado, mostraria que os Estados Unidos e a Rússia estão comprometidos com o objetivo de longo prazo do NPT de um mundo livre de armas nucleares.
Outro propósito da visita de Clinton foi o Irã. O Kremlim não consegue fazer um acordo com os aiatolás, mas pode reduzir suas opções. O presidente Dmitri Medvedev elogiou os diálogos de Genebra-Viena e observou que as "sanções não são apropriadas nesse momento".
Os russos são contra as sanções primeiramente porque eles temem o que poderia acontecer se elas falharem. Eles entendem que as sanções não são um fim em si mesmas. Se a Rússia - ou a China - apoiassem as sanções, teriam estado ao lado de Obama, Sarkozy e Brown no G-20.
Mas a observação final de Medvedev - "nesse momento" - foi nova e significativa. Teerã certamente percebeu a nuance. Os russos muito provavelmente disseram a Clinton que eles pressionarão Teerã para atender seus renovados compromissos com o NPT.
Como membro permanente do Conselho de Segurança dos EUA e cocriador do NPT, Moscou prefere um Irã não-nuclear. Mas Moscou também prefere o "status quo" - um Irã isolado com ambições nucleares que perturba o Ocidente - a um Irã contido ou cordial.
Ainda assim Moscou certamente aceitaria o último cenário se pudesse evitar um ataque militar desestabilizador da região por parte dos EUA ou Israel. Daí a colaboração pouco entusiasmada da Rússia com o Ocidente.
6. Melindres da negociaçãoAssim como no caso do Afeganistão, onde analistas sérios estão agora discutindo a ideia antes radical de retirada e contenção, novos paradigmas estão começando a surgir para o Irã.
Há apenas três opções teóricas - um ataque preventivo, a aquiescência e intimidação, ou uma estrutura negociada. O primeiro é basicamente indefensável senão impraticável. O segundo é praticável mas indesejável. O último seria o melhor cenário de trabalho.
A teoria mais encorajadora é de que os iranianos não estão de fato tão próximos da capacidade de teste nuclear e, mais ainda, de que a estratégia deles é de fato permanecer mais ou menos nessa posição.
De acordo com essa visão, Teerã pode ter a intenção de desenvolver toda a infraestrutura necessária, mas continuar "18 meses atrás" dos testes. Essa postura poderia estar de acordo com o NPT e foi essencialmente a estratégia do xá nos anos 70.
Várias dezenas de países, entre eles o Japão, Brasil e África do Sul, estão nessa posição hoje. Evitar os testes é essencial - foi aí que a não-proliferação fracassou miseravelmente na Índia e no Paquistão.
Se Teerã estiver interessado na estratégia que às vezes é chamada de "opção Japão" - de ter a capacidade de produzir uma arma nuclear em pouco tempo, mas sem de fato testá-la - isso poderia apresentar uma oportunidade razoável para uma estrutura negociada de inspeções, fiscalização e alerta. O Irã precisaria ratificar o Tratado Abrangente de Proibição de Testes Nucleares.
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A televisão iraniana noticiou em 28 de setembro que o país testou mísseis de longo alcance Shahab-3. Os foguetes têm alcance de cerca
de 2.000 quilômetros, podendo atingir, em tese, Israel e bases americanas no Oriente Médio
Para atingir uma estrutura como essa seria necessária uma confiança mínima entre o Irã e o Ocidente, e também a Rússia, Israel e os Estados árabes. Um bom contexto seria engajar o Irã numa fronteira mais ampla de assuntos de segurança regionais.
O problema é que a confiança é terrivelmente baixa entre os Estados Unidos e o Irã. Quem dará o primeiro passo?
Por causa de sérias fissuras domésticas, os iranianos podem não ter tido confiança para ir nessa direção. De certa forma, nenhum líder iraniano quer ser um Gorbachev, governando durante um colapso do regime. Todos querem ser um Putin, presidindo durante a consolidação.
7. O fator imprevisível de IsraelSe a confiança entre os EUA e o Irã é próxima de zero, a confiança entre Israel e o Irã é menor que zero. O que é mais preocupante é que alguns israelenses estão chamando Obama em particular de fraco e dizendo que eles não podem mais confiar nos EUA em relação ao Irã. Um novo rumor está circulando de que Israel quer atacar o Irã em curto prazo.
Israel pode começar uma guerra contra o Irã, mas não é certo que Israel consiga terminar uma guerra como essa. Mesmo se um ataque cirúrgico fosse viável, ele quase que certamente levaria a uma resposta assimétrica e a uma guerra mais ampla no Oriente Médio.
Se o cenário de ataque não puder funcionar, por que os israelenses continuam fazendo tanto alarde? Talvez o alarde seja a parte principal de sua estratégia. Antes dos ataques preventivos, sobre pontos no Iraque e na Síria, Israel estava quieto.
Mas então o alarde de ameaça de Israel também poderia ser contraproducente, forçando os iranianos a agirem mais rápido do que fariam normalmente.
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Um alto oficial europeu disse para mim: "Há um risco sério de que nossa política seja de um diálogo fracassado seguido de sanções fracassadas e de uma guerra fracassada". E acrescentou: "Melhor ser inteligente e diplomático - e saber quando parece que há uma abertura."
*Mark Medish, um acadêmico visitante do Carnegie Endowment para a Paz Internacional, trabalhou no governo Clinton.