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29/10/2009

Livrando a Alemanha das armas nucleares norte-americanas

International Herald Tribune
Judy Dempsey
Em Berlim
Escondida em uma das melhores regiões vinícolas da Alemanha, na fronteira com Luxemburgo, está a base aérea de Buchel. Seu perímetro é altamente vigiado pela Luftwaffe, ou força aérea alemã. E não é de se espantar. De acordo com especialistas em segurança, existem até 20 armas nucleares armazenadas em cavernas subterrâneas, sob custódia do 102º Esquadrão de Apoio de Munições, uma unidade da Força Aérea norte-americana.

Nenhuma autoridade dos EUA, da Otan ou do Ministério de Defesa alemão vai confirmar ou negar a existência dessas armas - ao menos não oficialmente - apesar de o presidente Barack Obama ter prometido reduzir ou até livrar o mundo de armas nucleares. "A questão é altamente secreta", disse um diplomata norte-americano. "Simplesmente não discutimos isso. Você pode fazer perguntas e levantar cenários hipotéticos, mas eu vou evitar responder."

Contudo, o novo ministro de Relações Exteriores alemão, Guido Westerwelle, adotou opinião diferente sobre a presença dessas armas em solo alemão. Em uma tentativa de se destacar o mais rápido possível em seu novo cargo, ele pediu no sábado - no dia em que a chanceler Angela Merkel arrancou um acordo com seus novos parceiros de coalizão, os Democratas Livres - "um país livre de armas nucleares". Mas ele evitou dizer onde as armas estavam localizadas.

Aparentemente, nenhuma questão poderia ser mais adequada a Westerwelle, que, como líder dos Democratas Livres, tornou-a uma prioridade em política externa (e não a Rússia ou o Afeganistão). A eliminação de bombas atômicas é uma questão fortemente popular. Tudo o que Westerwelle tem a fazer, com o apoio de Merkel, é pedir aos EUA que removam as armas quando cruzar o Atlântico no mês que vem, dias após Merkel apresentar-se em Washington. E se Obama for fiel a sua palavra, não há razão para os EUA não as retirarem, como fez discretamente nos últimos anos de outras locações na Alemanha e em outros países da Europa Ocidental, de acordo com especialistas em defesa alemães.

Há, contudo, dois problemas que Westerwelle terá que superar. Um deles é que as duas potências nucleares europeias, o Reino Unido e a França, têm medo de que, com a partida das armas norte-americanas, suas próprias sejam criticadas.

O outro é a resistência dentro da aliança militar da Otan, liderada pelos EUA. Muitos Estados membros temem que, se os EUA retirarem todas suas armas da Alemanha e do resto da Europa, haja consequências negativas. A mais importante seria para a solidariedade da aliança, que está frágil o suficiente por causa da guerra no Afeganistão. "As armas são a fundação dessa solidariedade. Retirando-as, o que restará?", disse um diplomata da Otan que pediu o anonimato, porque é uma questão delicada demais na aliança de 28 membros.

Os diplomatas da Otan que defendem manter algumas armas dos EUA na Europa dizem que sua mera presença dissuade outros países de adquirirem tais armas. Contudo, o Paquistão, Índia, Irã e Coreia do Norte vêm desenvolvendo seus próprios programas de armas nucleares. "Os países que você menciona não dão a mínima para o que a Otan faz com suas armas", disse o diplomata.

Outros especialistas são mais abertos sobre a real razão para reter o reduzido arsenal nuclear. "As bombas estão lá por causa da resistência burocrática a mudanças e pela incapacidade da Otan de abordar a questão do futuro das armas nucleares", disse Hans Kristensen, diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação de Cientistas Norte-Americanos em Washington, um grupo de pesquisa independente que monitora as armas nucleares do país.

A existência continuada dessas armas perpetuou a mentalidade da Guerra Fria, que por sua vez adiou a discussão não apenas sobre as armas nucleares, mas o papel da aliança transatlântica, disse Kristensen.

"Se você remove as armas, toda a equação entre Europa e EUA pode mudar. É por isso que alguns dos conservadores de Merkel nunca quiseram tocar no assunto. Mas até eles estão começando a mudar de opinião sobre sua utilidade", disse o professor Joachim Krause, diretor do Instituto de Política de Segurança da Universidade Christian Albrecht em Kiel.

Os EUA armazenaram armas estratégicas de curto alcance em países da Europa Ocidental durante os primeiros anos da Guerra Fria, para deter as forças soviéticas e o Pacto de Varsóvia. Em seu pico, durante o início dos anos 70, havia mais de 7.300 das armas na Europa. Em 1990, o número tinha caído para 4.000, e em 1992, para 700. Desde 1994, de acordo com a Federação de Cientistas Norte-Americanos, o número de armas nucleares do país na Europa foi nivelado para cerca de 480. Elas estão na Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda e Turquia.

As armas agora têm pouco propósito, disse o professor Krause. Seu alcance é limitado demais para lidar com ameaças do Oriente Médio ou além. Há também o problema físico de transportá-las pelo ar. O caça alemão Tornado será aposentado em alguns anos. O Eurofighter, seu substituto, não tem capacidade de carregar tais armas.

Os EUA têm sido muito mais rápidos em admitir esses déficits do que os europeus. Mesmo antes da eleição de Obama, os administradores anteriores decidiram unilateralmente retirar tais armas de certas bases ou cederam a pedidos para tanto. Secretamente, de acordo com especialistas em segurança, os EUA recentemente esvaziaram sua base de armas nucleares em Ramstein, na Alemanha, e de Lakensheath, na Inglaterra. E quando a Grécia pediu para que retirassem suas armas da base aérea de Araxos em 2001, isso também foi feito discretamente. Não houve reboliço na Otan.

Neste caso, se Westerwelle quiser mesmo livrar a Alemanha de mísseis nucleares norte-americanos, talvez devesse fazê-lo discretamente, e perder a oportunidade de admiração pública. Mas se quiser continuar tratando o assunto como uma questão de política externa, talvez corra o risco de despertar a oposição de alguns aliados da Otan. Talvez isso não seja uma coisa ruim - desde que a Alemanha tenha ideias sobre o futuro da Otan. Até agora, houve apenas silêncio em Berlim.

Tradução: Deborah Weinberg

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