Após uma série de embaraços públicos, tendo visto o seu ministro da Cultura ser atacado por comprar favores sexuais na Tailândia e o seu filho de 23 anos envolvido em um escândalo de nepotismo, Sarkozy passou a última semana trabalhando arduamente para fazer com que o debate retornasse àquele campo que foi fundamental para a sua vitória eleitoral em 2007: crime, imigração e identidade nacional.
Na última sexta-feira, apenas algumas horas após Jean, o filho do presidente, ter recuado dos seus planos para presidir o maior distrito empresarial da França, o primeiro-ministro François Fillon prometeu que não "cederá um centímetro sequer de território" na luta contra o crime.
No domingo, Eric Besson, o ministro da Imigração e da Identidade Nacional, anunciou o início de um debate nacional de três meses sobre "o que significa ser francês". Na agenda estão: os lenços de cabeça usados pelas mulheres muçulmanas, categorias de cidadania e uma proposta no sentido de fazer com que os alunos das escolas de primeiro grau cantem "La Marseillaise" uma vez por ano.
A seguir, na terça-feira, quando a última pesquisa de opinião revelou uma queda de 5% no seu índice de popularidade, o próprio Sarkozy decidiu se pronunciar.
"A França possui uma identidade particular que não está acima das outras, mas que é exclusivamente sua", disse o presidente a fazendeiros no leste da França, após prometer um pacote de auxílio no valor de 1,6 bilhão de euros, o equivalente a US$ 2,4 bilhões (R$ 4,15 bilhões). "Eu não entendo como alguém pudesse hesitar em dizer as palavras 'identidade nacional francesa'".
Sarkozy, um ex-ministro do Interior conhecido por suas declarações duras, mencionou pela primeira vez o conceito de identidade nacional durante a campanha presidencial de 2007 e sem dúvida tocou em um ponto
sensível: à época, quase dois em cada três eleitores aprovaram a posição de Sarkozy, segundo as pequisas. Fazendo com que os eleitores se distraíssem de tópicos mais polêmicos, dividindo a oposição socialista e retirando votos da Frente Nacional, um partido de extrema-direita, esse tópico ajudou Sarkozy a obter uma vitória confortável.
Faltando cinco meses para as eleições regionais que deverão servir como um termômetro da posição do eleitorado na fase de metade de mandato de Sarkozy, o presidente está tentando usar a mesma tática.
"Nicolas Sarkozy tentará repetir aquilo que fez em 2007", diz Nonna Mayer, especialista do "L'Institut d'Etudes Politiques", uma instituição de extrema direita com sede em Paris. "Essa é uma forma de desviar a atenção dos eleitores das questões concretas".
Segundo ela, as questões concretas são o aumento do desemprego, a elevação do déficit orçamentário e o descontentamento crescente dentro do partido conservador de Sarkozy, a União por um Movimento Popular. Os escândalos recentes fizeram com que viessem à tona preocupações latentes quanto aos planos para a extinção de um imposto local e a imposição de um imposto sobre as emissões de carbono.
Uma pesquisa BVA divulgada na última quarta-feira revelou que o índice de aprovação popular de Sarkozy caiu para 42%, e que a maioria dos entrevistados tem uma opinião negativa quanto a ele. A pesquisa foi realizada na sexta-feira e no sábado passados com 1006 adultos, e não foi divulgada uma margem de erro.
Esta não é a primeira vez que os franceses veem o seu presidente mudar de direção.
O candidato presidencial da lei e da ordem transformou-se primeiramente em "Sarko, o Americano", um reformista aguerrido, mas rapidamente metamorfoseou-se em "Presidente Bling-Bling", devido ao seu romance público com uma ex-modelo e à sua afinidade pelo luxo.
A seguir surgiu "Sarko, o Europeu", que, como presidente da União Europeia, mediou o conflito entre a Rússia e a Geórgia e obrigou as outras nações da união a implementarem um gerenciamento de crise em meio à recessão internacional.
Finalmente, apareceu "Nicolas, o Grande", que preparou o seu filho para um dos cargos mais poderosos na política regional, o que fez com que fosse acusado de criar uma dinastia quase monárquica.
Assessores do presidente dizem que, com a última transformação, Sarkozy voltou ao ponto inicial.
"Este é o Sarkozy original", disse uma autoridade do partido do presidente, que recusou-se a divulgar o seu nome na imprensa. "Eles é uma figura polarizadora, mas que está sempre de olho na opinião pública".
Os assessores do presidente esperam que um novo foco nas questões da imigração e da criminalidade, duas preocupações tradicionais dos conservadores, não só agrade os apoiadores fieis do seu partido mas também conquiste o apoio dos eleitores de extrema-direita que deixaram a Frente Nacional em 2009.
Foi Marine Le Pen, a filha do fundador da Frente Nacional, que desencadeou o escândalo Mitterrand ao citar trechos da sua autobiografia, lançada em 2005, em horário nobre de televisão. Por ora, as pesquisas não mostram nenhum sinal de ressurgência da Frente Nacional. O partido, que provocou uma tempestade aqui quando o pai dela, Jean-Marie Le Pen, chegou ao segundo turno da eleição para presidente em 2002, encontra-se emaranhado em problemas financeiros e uma crise de liderança. Mas as autoridades do Palácio Eliseu temem um baixo comparecimento às urnas dos eleitores de extrema-direita nas eleições regionais de março, algo que poderia ajudar a esquerda.
Identidade nacional e imigração são questões polêmicas na França, que abriga a maior comunidade muçulmana da Europa Ocidental. Quatro anos atrás, jovens insatisfeitos de subúrbios habitados por imigrantes entraram em choque com a polícia durante três semanas de rebelião. Agora um debate no sentido de determinar se a burka muçulmana (veste usada pelas mulheres muçulmanas que cobre inteiramente o corpo, dos pés a cabeça, dispondo apenas de uma pequena abertura para os olhos) deve ser proibida no país está gerando muita polêmica.
Esta questão revelou-se uma dor de cabeça para a esquerda, que tradicionalmente repele todos os discursos sobre identidade nacional por considerá-los populistas, mas que não quer ficar marginalizada em uma questão que interessa tanto aos franceses.
Sarkozy fez com que esse desconforto aumentasse ao nomear Besson, um ex-socialista, para o cargo de ministro da Imigração e da Identidade Nacional, uma pasta criada por Sarkozy. Besson pretende organizar uma série de debates em escritórios de governos regionais por todo o país, a começar na próxima semana.
O debate culminará com uma conferência de âmbito nacional, em fevereiro - bem perto das eleições regionais de março.
Tradução: UOL